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OBRAS COMPLETAS DE C. G. JUNG

Volume VII/1

Psicologia do Inconsciente

 

FICHA CATALOGRÁFICA

 

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Jung, Carl Gustav, 1875-1961.

J92p Psicologia do inconsciente /C G Jung; tradução de Maria Luiza Appy. Petrópolis, Vozes, 1980.

 

(Obras completas de C. G. Jung, v.7, t.l).

 

Traàução de: Zwei Schriften Über Analytische Psychologie: Über die Psychologie des Unbewusten.

 

Bibliografia.

1. Psicanálise — Estudo de casos. 2. Subconsciente. I. Título. II. Série.

 

CDD — 154.2

616.8917

78-0241

CDU — 159.964.2

 

COMISSÃO RESPONSÁVEL

PELA ORGANIZAÇÃO DO LANÇAMENTO

DAS OBRAS COMPLETAS DE C. G. JUNG EM PORTUGUÊS:

Dr. Léon Bonaventure

Dr. Frei Leonardo Boff

Dra. Dora Mariana Ribeiro Ferreira da Silva

Dra. Jette Bonaventure

 

PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE

 

 

 

C.G.Jung

 

 

 

Tradução de MARIA LUÍZA APPY

2º edição

 

 

 

 

 

© 1971, Walter Verlag, AG, Olten

Título do original alemão:

Zwei Schriften über Analytische Psychologie (7. Band) über die Psychologie des Unbewusten (1. Schrift)

 

 

 

DIREITOS EXCLUSIVOS DE PUBLICAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA

 

EDITORA VOZES LTDA.

Rua Frei Luís, 100

25.600 Petrópolis, RJ

Brasil

 

 

 

 

 

 

Prefácio

à 1ª edição

ESTE pequeno trabalho 1 surgiu no momento em que, a pedido do editor, comecei a rever, para ser reeditado, o artigo Neue Bahnen der Psychologie (Novos rumos da Psicologia), publicado em 1912 no Raschersches Jahrbuch (Anuário de Rascher). O trabalho apresentado aqui é, portanto, aquele mesmo, modificado na sua forma e ampliado. No artigo em questão, limitava-se a mostrar um aspecto essencial da interpretação psicológica introduzida por Freud. Com as numerosas e impor­tantes modificações sofridas nos últimos anos pela psicologia do inconsciente, fui obrigado a alargar consideravelmente o âm­bito daquele primeiro artigo. Vários trechos sobre Freud foram reduzidos e substituídos por considerações tiradas da psicolo­gia de Adler. Além disso, dentro da orientação geral e na me­dida em que coubesse nos limites deste trabalho, introduzi os meus próprios pontos de vista. Devo prevenir o leitor de que a complexidade da matéria vai exigir um grande esforço de paciência e atenção. Também quero deixar bem claro que este trabalho não pretende encerrar o assunto nem esgotar os ar­gumentos. Isso demandaria exaustivas teses científicas sobre cada um dos problemas específicos aqui abordados. Quem qui­ser aprofundar-se nas questões levantadas, deverá recorrer à literatura especializada. Minha intenção é simplesmente dar alguma orientação sobre as mais recentes interpretações da essência da psicologia do inconsciente. Por considerar o pro­blema do inconsciente de extrema importância e atualidade e Por saber que diz respeito intimamente a todos e a cada um de nós, julguei oportuno colocá-lo ao alcance do público leigo e culto, impedindo que fosse condenado a desaparecer na inacessibilidade de uma revista científica especializada, levando uma existência formal numa obscura estante de biblioteca.

1- Die Psychologie der unbewussten Prozesse, 1917.

Nada mais apropriado do que os processos psicológicos que acom­panham a guerra atual — notadamente a anarquização inacre­ditável dos critérios em geral, as difamações recíprocas, os surtos imprevisíveis de vandalismo e destruição, a maré indizível de mentiras e a incapacidade do homem de deter o de­mônio sanguinário para obrigar o homem que pensa a encarar o problema do inconsciente caótico e agitado, debaixo do mun­do ordenado da consciência. Esta Guerra Mundial mostra im­placavelmente que o homem civilizado ainda é um bárbaro. Ao mesmo tempo, prova que um açoite de ferro está à espera, caso ainda se tenha a veleidade de responsabilizar o vizinho pelos seus próprios defeitos. A psicologia do indivíduo corres­ponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age, a nação também agirá. Somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a transformar-se a psico­logia da nação. Até hoje, os grandes problemas da humanidade nunca foram resolvidos por decretos coletivos, mas somente pela renovação da atitude do indivíduo. Em tempo algum, meditar sobre si mesmo foi uma necessidade tão imperiosa e a única coisa certa, como nesta catastrófica época contempo­rânea. Mas quem se questiona a si mesmo depara invariavel­mente com as barreiras do inconsciente, que contém justamente aquilo que mais importa conhecer.

KüsnachtZurich, dezembro de 1916

O autor

Prefácio

à 2» edição

Muito me alegra que este pequeno estudo apareça numa se­gunda edição em tão curto espaço de tempo — e isso apesar do seu conteúdo, que deve ser de difícil compreensão para muitos. Reedito-o inalterado em sua essência, salvo modificações e aperfeiçoamentos insignificantes. Tenho consciência, po­rém, de que, para colocá-lo mais facilmente ao alcance de todos, será preciso ampliar o debate, devido à dificuldade e à novidade excepcionais do assunto, principalmente no que se refere aos últimos capítulos. Um maior aprofundamento das linhas básicas neles contidas ultrapassaria os limites de uma divulgação mais ou menos popular, de forma que prefiro dis­cutir essas questões com a devida minúcia em outro livro, que se encontra em fase preparatória.2

2. Psychologische Typen, Obras completas, Vol. 6.

O número de cartas que recebi após a publicação da pri­meira edição prova que o interesse do grande público pelos problemas da alma humana é muito maior do que eu espe­rava. O despertar desse interesse deve provir, em grande parte, do abalo em nossa consciência provocado pela Guerra Mundial. O espetáculo dessa catástrofe faz com que o homem, sentindo-se totalmente impotente, se volte para si mesmo, olhe para dentro e, como tudo vacila, busque algo que lhe dê segurança. Muitos ainda procuram fora de si mesmos; uns acreditam na ilusão da vitória e do poder; outros, em tratados e decretos; outros, ainda, na destruição da ordem vigente. Mas são poucos os que buscam dentro de si, poucos os que se perguntam se não seriam mais úteis à sociedade humana se cada qual come­çasse por si, se não seria melhor, em vez de exigir dos outros, pôr à prova primeiro em sua própria pessoa, em seu foro interior, a suspensão da ordem vigente, as leis e vitórias que apregoam em praça pública. É indispensável que em cada in­divíduo se produza um desmoronamento, uma divisão interior, que se dissolva o que existe e se faça uma renovação, mas sem impô-la ao próximo sob o manto farisaico do amor cris­tão ou do senso da responsabilidade social — ou o que quer que seja usado para disfarçar as necessidades pessoais e in­conscientes de poder. O autoconhecimento de cada indivíduo, a volta do ser humano às suas origens, ao seu próprio ser e à sua verdade individual e social, eis o começo da cura da cegueira que domina o mundo de hoje.

O interesse pelo problema da alma humana é um sintoma dessa volta instintiva a si mesmo. Que este meu trabalho esteja a serviço desse interesse.

Küsnacht—Zürich, outubro de 1918

O autor

Prefácio

à 3º edição 3

3. Na terceira edição, o título foi modificado para Das ünbewusste in normalen und kranken Seelenleben.

Este estudo surgiu durante a Guerra Mundial e deve sua exis­tência principalmente à repercussão psicológica dessa grande conflagração. A guerra terminou e pouco a pouco as coisas se acalmam. Mas os grandes problemas psíquicos levantados pela guerra continuam preocupando a sensibilidade e o espírito dos que pensam e pesquisam. É provável que isso tenha influído na sobrevivência deste pequeno estudo no pós-guerra, permi­tindo que agora apareça em sua terceira edição. Considerando que se passaram sete anos desde o lançamento da segunda edição, julguei necessário aperfeiçoar o texto e introduzir uma série de modificações, sobretudo nos capítulos referentes aos tipos e ao inconsciente. O capítulo sobre “desenvolvimento dos tipos no processo analítico” foi inteiramente suprimido, já que a questão foi amplamente desenvolvida em meu livro Tipos Psicológicos, que pode servir de referência aos interessados.

Quem já tentou dar forma popular a uma matéria alta­mente complexa e que ainda se encontra em estado de elabo­ração no plano científico, há de concordar comigo que a tarefa não é fácil. A dificuldade aumenta pelo fato de muitos dos processos e problemas da alma aqui descritos ainda serem totalmente desconhecidos por muitos. Algumas coisas também se chocam com preconceitos ou podem parecer arbitrárias. Peço, porém, que se considere o objetivo de um estudo como este: o máximo que se pode pretender é dar uma idéia aproximada da matéria e servir de estímulo; nunca, porém, penetrar nos pormenores da reflexão e do fornecimento de provas. Fico satisfeito, se o livrinho satisfizer tal finalidade.

KüsnachtZürich, abril de 1926

O autor

Prefácio

à 4ª edição

Afora algumas emendas, esta quarta edição é lançada sem alterações. Das múltiplas reações do meu público, deduzi que a, idéia do inconsciente coletivo, a que consagrei um capítulo neste estudo, suscitou um interesse todo especial. Por isso, não quero deixar de pedir a atenção dos leitores para os tra­balhos importantes feitos por diversos autores nessa área, pu­blicados nos últimos anos no Eranos-Jahrbuch (Rheinverlag). As informações contidas neste livro não pretendem abranger a totalidade da psicologia analítica. Portanto, muitos pontos são apenas esboçados e outros nem são mencionados. Espero, po­rém, que continue atendendo aos seus modestos objetivos.

KüsnachtZürich, abril de 1936

O autor

Prefácio

à 5ª edição

Decorreram seis anos desde a última edição inalterada. Por este motivo, pareceu-me oportuno submeter este pequeno es­tudo a uma profunda revisão, antes desta nova edição. Assim, muitas deficiências puderam ser eliminadas ou melhoradas e o supérfluo foi suprimido. Matérias difíceis e complexas como a psicologia do inconsciente não se prestam apenas a novas descobertas, mas também a equívocos. Trata-se de uma vasta área virgem, em que penetramos a título experimental, onde só é possível atinar com o caminho certo depois de errar por muitos desvios. Apesar do meu esforço de introduzir no texto o maior número possível de novos pontos de vista, não se deve esperar que esgotem todos os principais aspectos do atual co­nhecimento nessa esfera da psicologia. Nesta obra de divulgação popular reproduzo apenas alguns dos pontos essenciais, tanto da psicologia médica quanto do rumo da minha própria pesquisa, isso sem ultrapassar o âmbito de uma introdução. O conhecimento profundo só é adquirido mediante leituras es­pecializadas, de um lado, e experiências práticas, de outro. Re­comendo aos leitores desejosos de adquirir conhecimentos mais pormenorizados nesse campo, de modo todo especial, o estudo das principais obras sobre psicologia médica e psicopatologia, além de uma revisão cuidadosa dos compêndios de psicologia. Este será o caminho mais seguro para o necessário conheci­mento da psicologia médica, sua posição e seu significado.

Tal estudo comparativo vai ajudar a compreender a ati­tude de Freud, que se queixa da “impopularidade” da sua psi­canálise, bem como a sensação que tenho de encontrar-me à margem, isolado, num posto solitário. Acho que não exagero quando digo que as noções da psicologia médica moderna ainda não tiveram a devida acolhida na ciência universitária, embora já se note algumas exceções dignas de registro, o que não ocorria antigamente. Em geral, as idéias novas — exceto as que provocam ondas de excitação geral — requerem pelo me­nos uma geração para se firmarem. As inovações em psicologia demandam, sem dúvida, mais tempo ainda, já que, sobretudo nessa área, cada um se considera, por assim dizer, autoridade no assunto.

KüsnachtZürich, abril de 1942

O autor

4– Modificou-se o título para über die Psychologie des Unbewussten.

Sumário

I. A Psicanálise, 9

II. A Teoria do eros, 18

III, Outro ponto de vista: a vontade de poder, 28

IV. O problema dos tipos de atitude, 38

V. O inconsciente pessoal e o inconsciente suprapessoal ou coletivo, 58

VI. O método sintético ou construtivo, 72

VII. Os arquétipos do inconsciente coletivo, 81

VIII. A interpretação do inconsciente — noções gerais da terapia, 101

Palavras finais, 106

Apêndice: Novos caminhos da psicologia

1. Os primórdios da psicanálise, 107

2. A teoria sexual, 117

índice de autores e textos, 133

I

A psicanálise

É indispensável que o médico, o “especialista em doenças nervosas”, aprofunde seus conhecimentos psicológicos, se quiser ajudar seus clientes, porque as perturbações nervosas (ou tudo que se designa por “nervosismo”, histeria, etc.) são de origem psíquica e exigem, obviamente, um tratamento da alma. Água fria, luz, ar, eletricidade, etc, são de efeito passa­geiro e muitas vezes não produzem nenhum efeito. O padecimento do doente vem da alma, de suas funções mais com­plexas e profundas, que mal ousamos incluir no campo da medicina. Nesses casos, o médico precisa ser psicólogo, isto é, um conhecedor da alma humana.

Antigamente, ou seja, quase 50 anos atrás, a formação psicológica do médico ainda era das mais deficientes. Seu ma­nual de psicologia limitava-se exclusivamente à descrição e à sistematização clínica das doenças psíquicas, e a psicologia en­sinada nas faculdades era ou filosofia ou a chamada psicologia experimental, introduzida por Wilhelm Wundt.1 Da escola de Charcot, na Salpêtrière de Paris, vieram os primeiros estímu­los para uma psicoterapia das neuroses: Pierre Janet2 iniciou suas pesquisas sobre a psicologia dos estados neuróticos, que fizeram época; Bernheim3 retomou com sucesso, em Nancy, a proposta de Liébault4 de tratar as neuroses pela sugestão, pro­posta esta que já tinha caído no esquecimento. Sigmund Freud traduziu o livro de Bernheim, e isto foi para ele um estímulo decisivo. Naquela época, ainda não existia nenhuma psicologia das neuroses e psicoses. Cabe a Freud o mérito imorredouro de ter lançado as bases para uma psicologia das neuroses. Seu ensinamento resultou da experiência adquirida no tratamento prático das neuroses, isto é, da aplicação de um método, que ele chamou de psicanálise.

1. Grundzüge der physiologischen Psychologie, 5ª edição, 1902.

2. L’Automatisme psychologique, 1889; Névroses et idées fixes, 1898.

3. Hippotyte Bernheim, De Ia Suggestion et de sesAplications à la Thérapeutique 1886 Edição alemã de S. Freud, Die Suggestion und ihre Heilwirkung, 1888.

4. A. A. Liébault. Du Sommeil et des états analogues consideres au point de vue de l’action du moral sur le physique, 1866.

Antes de entrar numa exposição mais detalhada da matéria propriamente dita, é preciso dizer algo sobre a sua posição em relação à ciência da época. Presenciamos um espetáculo que confirma mais uma vez a observação de Anatole France: “Les savants ne sont pas curieux”, os cientistas não são curiosos. O primeiro trabalho 5 de maior envergadura realizado nesse campo mal chegou a provocar um eco distante, apesar de ter introduzido uma interpretação totalmente nova das neuroses. Alguns autores faziam pronunciamentos elogios a respeito, mas, ao virar a página, prosseguiam em suas descrições de casos de histeria, à maneira habitual. Agiam, portanto, mais ou menos como alguém que reconhecesse e aprovasse a idéia ou o fato de que a terra é redonda, mas mesmo assim con­tinuasse a representá-la tranqüilamente com a forma de um disco. As publicações seguintes de Freud passaram inteiramente despercebidas, apesar de conterem observações de suma im­portância para a área específica da psiquiatria. Quando Freud escreveu a primeira verdadeira psicologia dos sonhos 6, em 1900 (anteriormente, trevas absolutas imperavam nesse campo), ridicularizaram-no. E quando, por volta de 1905, começou a lançar as primeiras luzes sobre a psicologia da sexualidade 7, puseram-se a vituperar. Essa tempestade de protestos eruditos pode ter sido a principal responsável pela publicidade sem precedentes alcançada pela psicologia de Freud, notoriedade esta que superou de longe os limites do interesse científico.

5. Breuer e Freud, Studien über Hysterie, 1895

6. Die Traumdeutung, 1900.

7. Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie, 1905.

Por isso, temos que apreciar mais de perto essa nova psicologia. Já no tempo de Charcot, sabia-se que o sintoma neu­rótico é “psicógeno”, isto é, proveniente da alma. Sabia-se tam­bém, graças principalmente aos trabalhos da Escola de Nancy, que qualquer sintoma histérico pode ser provocado pela su­gestão. Conheciam-se, igualmente, através das pesquisas de Janet, as condições psicomecânicas dos surtos histéricos, como anestesias, paresias, paralisias e amnésias. Mas não se sabia como um sintoma histérico pode proceder da alma. As rela­ções psíquicas causals eram totalmente desconhecidas. Em 1880, o Dr. Breuer, velho clínico vienense, fez uma descoberta que, na realidade, se tornou o começou da nova psicologia. Tinha uma jovem cliente, muito inteligente, que sofria de histeria, isto é, para sermos mais exatos, acusava, entre outros, os se­guintes sintomas: uma paralisação espasmódica (hirta) afetara-lhe o braço direito; era acometida por repetidas “ausências” ou estados de sonolência; além disso, tinha perdido o domínio da linguagem, pois não sabia mais falar sua língua materna e não conseguia expressar-se senão em inglês (a chamada afasia sistemática). Na época, tentaram elaborar teorias anatômicas para explicar tais distúrbios, apesar de as partes do cérebro em que estão localizadas as funções do braço não se apresen­tarem mais afetadas do que as de uma pessoa normal. A sin­tomatologia da histeria é repleta de impossibilidades anatômi­cas. Uma senhora, que havia perdido completamente a audição devido a uma afecção histérica, punha-se a cantar freqüente­mente. Certa vez, quando a cliente entoou uma canção, o mé­dico sentou-se ao piano despercebidamente e a acompanhou em surdina. Na passagem de uma para outra estrofe, mudou repentinamente de tom. A paciente, sem se dar conta, prosse­guiu, cantando no novo tom. Logo, ela ouve e não ouve. As várias formas de cegueira sistemática apresentam fenômenos semelhantes. Um homem sofre de cegueira histérica total. No decorrer do tratamento, readquire a visão, mas, a princípio e durante muito tempo, apenas parcialmente: vê tudo, exceto as cabeças das pessoas; vê todas as pessoas que o cercam, sem cabeça. Logo, ele vê e não vê. Pela observação de uma vasta série de experiências desse tipo, ficou comprovado que só a parte consciente do doente não vê ou não ouve, mas, de resto, a função do órgão do sentido está em perfeita ordem. Esse estado de coisas entra em contradição frontal com o caráter de um distúrbio orgânico, que sempre afeta a função em si.

Após essa digressão, voltemos ao caso de Breuer. Não exis­tiam causas orgânicas que justificassem a perturbação. O caso devia ser considerado histérico, isto é, psicógeno. Breuer havia notado que o estado da cliente melhorava durante algumas horas, cada vez que a deixava falar — em estado de sonolên­cia provocada ou espontânea — de todas as reminiscências e fantasias que lhe ocorressem. Utilizou-se disso sistematicamen­te, no decorrer do tratamento. A cliente inventou um nome: chamava-o de “talking cure” (conversa terapêutica) ou então, ironicamente, de “chimney sweeping” (limpar a chaminé).

A cliente adoecera quando cuidava do pai, mortalmente en­fermo. Como é compreensível, suas fantasias giravam princi­palmente em torno dessa época repleta de emoções. As suas reminiscências daquele tempo ressurgiam, nos estados de sonolência, com tamanha precisão e com tantos detalhes, que se podia supor que um pensamento desperto jamais as teria reproduzido com a mesma forma e exatidão. (Essa intensifica­ção da memória, que não raro se produz nos estados de cons­ciência diminuída, é denominada hipermnésia). Coisas insólitas foram sendo reveladas. Um dos relatos dizia mais ou menos o seguinte: Certa noite, velava o doente, que ardia em febre, angustiadíssima com o seu estado e muito tensa, porque esta­vam à espera de um cirurgião de Viena que vinha para ope­rá-lo. A mãe afastara-se por algum tempo e Ana (a paciente), sentada à cabeceira, apoiava o braço direito sobre o espaldar da cadeira. Pôs-se a sonhar acordada e viu uma cobra preta vindo da parede e aproximando-se do doente, prestes a mor­dê-lo. (É muito provável que no campo, atrás da sua casa, realmente existissem algumas cobras que já haviam assustado a menina anteriormente e que agora forneciam o material para a alucinação). Queria repelir o animal, mas estava como que paralisada: o braço direito, que pendia sobre o espaldar da cadeira, estava “dormente”, anestesiado e paresiado; quando olhou para ele, seus dedos transformaram-se em pequenas co­bras com caveiras nas pontas. Provavelmente, estava querendo afugentar a cobra com a mão direita paralisada. Por isso a anestesia e a paralisia ficaram associadas à alucinação com a cobra. Quando esta desapareceu, quis rezar, angustiada; mas não conseguiu: não podia falar língua alguma; até que, final­mente, se lembrou de um verso infantil em inglês e pôde con­tinuar a pensar e a rezar nessa língua.

Nesta cena ocorreram paralisia e distúrbio da fala. Ao re­latá-la, isso desapareceu. Consta que o caso foi completamente resolvido dessa maneira.

Devo contentar-me aqui com esse único exemplo. No livro já citado de Breuer e Freud encontramos uma quantidade de exemplos similares. É bem compreensível que cenas dessa na­tureza tenham um efeito muito grande e reproduzam uma pro­funda impressão. Por esta razão, tendemos a atribuir-lhes signi­ficado causal na gênese do sintoma. A teoria procedente da Inglaterra, energicamente defendida por Charcot, do “nervosos chock” (choque nervoso), que na época dominava a interpretação da histeria, prestava-se muito bem para explicar a des­coberta de Breuer. Daí resultou a chamada teoria do trauma, segundo a qual o sintoma histérico e, na medida em que os sintomas constituem a doença, a própria histeria vêm da psique abalada (trauma), persistindo inconscientemente durante vá­rios anos as impressões produzidas. Freud, que a princípio era colaborador de Breuer, pôde comprovar fartamente essa des­coberta. Ficou demonstrado que nenhuma das espécies de sin­tomas histéricos se produz por acaso, e que esses são sempre causados por fatos que abalam a psique. Assim sendo, a nova concepção abria um vasto campo de trabalho empírico. O espí­rito pesquisador de Freud, porém, não podia fixar-se por muito tempo nessa constatação superficial, pois já surgiam proble­mas mais profundos e bem mais difíceis. É óbvio que momen­tos de intensa angústia, como os vividos pela paciente de Breuer, podem deixar marcas indeléveis. Mas como é que ela viveu esses momentos, tão nitidamente marcados pelo patológico? Será que o cansaço dos cuidados dispensados ao doente pode­riam ter provocado esse efeito? Neste caso, coisas semelhantes deveriam ocorrer com muito maior freqüência, pois, infeliz­mente, são muitos os casos de atendimento a doentes, extre­mamente extenuantes, e a saúde nervosa da pessoa que presta esses cuidados nem sempre é das melhores, evidentemente. Para este problema temos na medicina uma excelente resposta. Di­zemos: o “X” do problema é a predisposição. As pessoas são “predispostas” a tais coisas. Mas Freud indagava: em que con­siste essa predisposição? O levantamento dessa questão levou, logicamente, à investigação da “pré-história” do trauma psíqui­co. Ora, é freqüente observar-se que cenas de forte conteúdo emocional, presenciadas por diversas pessoas, têm um efeito diferente sobre cada uma delas: coisas indiferentes ou mesmo agradáveis para algumas são consideradas repugnantes por ou­tras. Haja vista o caso de sapos, cobras, ratos, gatos, etc. Há mulheres que assistem tranqüilamente a operações com efusão de sangue, mas que se põem a tremer de medo e nojo ao simples contato de um gato. Sei do caso de uma jovem que ficou sofrendo de histeria aguda, por causa de um susto. Aca­bava de sair de uma festa. Era meia-noite; em companhia de vários amigos, ia a pé para casa. De repente, aproximou-se deles, por detrás, uma carruagem em disparada. Todos afas­taram-se para os lados, menos essa moça, que, tomada de pânico, pôs-se a correr no meio da rua, na frente dos cavalos.

O cocheiro estalava o chicote e vociferava. De nada adiantou. Ela desceu a rua inteira, correndo como uma desesperada. Chegando a uma ponte, já sem forças, achou que o único meio de escapar aos cavalos seria jogar-se ao rio. Por sorte, havia lá transeuntes que a detiveram. Esta mesma pessoa es­teve por acaso em S. Petersburgo, no fatídico dia 22 de janeiro de 1905, e presenciou uma operação do exército que varria a rua com rajadas de fogo. À sua direita e à sua esquerda as pessoas iam caindo por terra, mortas ou feridas. Mantendo grande calma e presença de espírito, assim que avistou um pórtico, esgueirou-se para a outra rua, escapando sã e salva. Esses momentos de horror não lhe causaram maiores proble­mas. Depois de ter presenciado tudo isso, encontrava-se per­feitamente bem e até com mais disposição do que antes.

Esse tipo de comportamento pode ser observado com bas­tante freqüência. Donde se conclui que a intensidade de um trauma, em si, tem pouca determinação patogênica, mas este deve ter para o paciente um significado particular. Em outras palavras, não é o choque em si que provoca invariavelmente a doença, mas esta ocorre quando ele encontra uma determinada disposição psíquica, que poderia ser o fato de o paciente atri­buir inconscientemente um significado específico ao choque. Seria esta a chave do segredo da predisposição? Vejamos: quais as circunstâncias peculiares da cena da carruagem? O medo tomou conta da jovem assim que ela ouviu aproximar-se o tropel dos cavalos. Numa fração de segundo teve a impressão de que fatalmente lhe ocorreria alguma desgraça terrível/ como a morte, ou algo semelhante. A essa altura dos acontecimentos, já tinha perdido por completo o poder de raciocinar.

Parece que o momento decisivo foi determinado pelos ca­valos. A reação irresponsável da moça a um acontecimento tão insignificante deve ser atribuída a uma predisposição; prova­velmente, os cavalos tinham para ela um significado todo es­pecial. Não seria infundada, por exemplo, a suspeita de que alguma experiência perigosa em seu passado estivesse ligada a cavalos. A confirmação dessa suspeita não tardou. Quando a paciente tinha sete anos de idade, durante um passeio de car­ruagem, os cavalos dispararam, aproximando-se em vertiginosa corrida de um barranco que descia abruptamente para um rio. O cocheiro saltou, gritando-lhe que fizesse o mesmo. O medo de morrer a impedia de obedecer, mas por fim saltou a tempo, um ,segundo antes dos cavalos e da carruagem caírem no abismo. Seria desnecessário provar por A + B que são profundas as impressões deixadas por acontecimentos desse tipo. No en­tanto, isso não explica por que mais tarde uma simples e inofensiva sugestão da situação provocaria uma reação tão des­cabida. Até aqui, sabemos apenas que o sintoma manifestado mais tarde teve um preâmbulo na infância. O que há de pato­lógico no caso, porém, não foi esclarecido. É preciso conhecer outros dados, para que se possa penetrar nesse mistério. À me­dida que as experiências foram-se multiplicando, foi sendo provado que na totalidade dos casos até então analisados exis­tia, ao lado dos fatos traumáticos da vida, uma perturbação de ordem específica, situada no plano erótico. “Amor”, como se sabe, é um conceito vastíssimo, que pode alcançar céus e infernos, em que se conjugam o bem e o mal, a nobreza e a baixeza. Com essa descoberta, operou-se na interpretação de Freud uma reviravolta considerável. Freud, baseando-se inicial­mente na teoria do trauma de Breuer, procurou a causa das neuroses nos acontecimentos traumáticos da vida. Mas, depois dessa descoberta, deslocou o centro do problema para outro plano, bem diverso. Podemos pegar o caso citado como exem­plo. Já compreendemos que os cavalos desempenharam, eviden­temente, um papel peculiar na vida da paciente; mas o que não entendemos é sua reação posterior, absurda e exagerada. A anormalidade da história é que cavalos totalmente inofensi­vos a assustam. Como se descobriu que juntamente com os eventos traumáticos da vida desenvolve-se uma perturbação na área erótica, baseamo-nos nisso para investigar se algo de anor­mal aconteceu nesse sentido.

A jovem conhece um rapaz de quem pretende ficar noiva; ama-o e espera que seu casamento seja feliz. Fora isso, nada se descobre de imediato. A investigação, no entanto, não pode ser abandonada após o resultado negativo de uma questão superficial. Existem caminhos indiretos, quando o direto não conduz à meta. Voltemos, pois, àquele momento estranho em que a moça saiu correndo à frente dos cavalos. Indagamos a respeito dos amigos que a acompanhavam e da festa a que tinha ido. Fora um jantar de despedida de sua melhor amiga, Que ia ausentar-se para um tratamento prolongado numa estação de águas no exterior, por causa de seu estado, nervoso. Segundo ela, a amiga é casada, feliz e mãe de um filho. Pode-os duvidar da informação acerca da felicidade da amiga, porque se assim fosse, provavelmente não teria razões para estar nervosa, necessitando de tratamento. Mais adiante, fazendo al­gumas perguntas, fiquei sabendo que, assim que os amigos a alcançaram, minha cliente foi reconduzida à casa do anfitrião, por ter sido esta a maneira mais fácil de acomodá-la àquela hora da noite. Lá chegando, em seu estado de esgotamento, teve uma acolhida hospitaleira. Neste ponto da narrativa, a paciente silenciou, embaraçada e confusa, tentando mudar de assunto. Tratava-se talvez de uma reminiscência desagradável que de repente surgira. Após vencer a resistência obstinada da paciente, fiquei sabendo que naquela mesma noite ocorrera outro incidente insólito. O amável anfitrião lhe fizera uma ar­dente declaração de amor, o que, em vista de partida da dona da casa, criara uma situação um tanto difícil e embaraçosa. Ela disse que essa declaração a surpreendera como um relâm­pago num dia de sol. Mas essas coisas sempre costumam ter seus antecedentes. Nas semanas seguintes, o trabalho consistiu em desenterrar, fragmento por fragmento, uma longa história de amor, até recompô-la por inteiro. Tentarei fazer um resumo: A paciente, quando criança, sempre tivera atitudes de menino. Só gostava de brincadeiras turbulentas, zombava do seu pró­prio sexo, reprimia toda feminilidade e evitava qualquer ocupa­ção feminina. Depois da puberdade, quando poderia ter come­çado a se interessar pelo aspecto erótico, passou a fugir de toda companhia, odiando e desprezando tudo quanto mesmo de longe lhe lembrasse a condição biológica da pessoa humana. Vivia num mundo de fantasias, que nada tinha a ver com a realidade. Assim, foi-se furtando, até aos 24 anos de idade, a todas as pequenas aventuras, esperanças e expectativas que normalmente agitam interiormente a mulher nessa idade. Foi quando teve a oportunidade de se aproximar de dois homens, que deveriam romper a cerca de espinhos que crescera ao seu redor. “A” era o marido de sua melhor amiga e “B”, um ami­go solteiro. Gostava de ambos. No entanto, logo lhe pareceu que gostava muito mais de B. Não tardou em estabelecer-se uma relação de intimidade entre ela e B, e já se falava num possível noivado. Devido às suas relações com B e com sua amiga, era freqüente o seu contato com A, cuja proximidade muitas vezes a deixava agitada e inexplicavelmente nervosa. Naquela época, a paciente e seus amigos participaram de um banquete. Em dado momento, estando ela a brincar distraída com seu anel, este subitamente lhe escapou da mão, indo rolar para baixo da mesa. Os dois homens puseram-se a procurá-lo. Foi B quem o encontrou. Colocou-lhe o anel no dedo com um sorriso expressivo e perguntou: “Sabe o que isso quer dizer?” Ela teve imediatamente uma reação estranha, irresistível: arrancou o anel do dedo e jogou-o longe, pela janela aberta. Seguiu-se, naturalmente, um momento de embaraço e logo de­is ela se retirou, deixando os amigos, com um mau humor insuportável. Pouco tempo depois, foi passar as férias de verão numa estância, onde, “por coincidência”, o casal A também veraneava. A mulher de A começou a ficar visivelmente ner­vosa e, como não se sentisse bem, muitas vezes não saía de casa. Logo, a paciente tinha oportunidade de passear sozinha com A. Uma vez, foram dar uma volta de barco. Ela estava contente e animada. De repente, perdeu o equilíbrio e caiu na água. Como não soubesse nadar, A só conseguiu salvá-la com muita dificuldade, puxando-a já meio desfalecida para dentro do barco. Foi então que ele a beijou. Esse interlúdio romântico ligou-os mais fortemente um ao outro. No entanto, a paciente nunca permitiu que a profundidade dessa paixão lhe viesse à consciência, provavelmente por ter-se habituado desde cedo a negligenciar impressões dessa espécie, ou melhor, a esquivar-se delas. Para justificar-se perante si mesma, fez tudo para apres­sar seu noivado com B, convencendo-se de que o amava. Obvia­mente, esse jogo surpreendente foi logo captado pela aguçada percepção do ciúme feminino. Intuitivamente, sua amiga per­cebera o segredo e torturava-se com isso, o que aumentou seu nervosismo. Donde a necessidade de um tratamento e sua via­gem ao exterior. Na festa de despedida, o espírito maligno aproximou-se da nossa doente e sussurrou-lhe ao ouvido: Hoje à noite ele estará sozinho; alguma coisa deve acontecer contigo para que venhas à sua casa. E foi o que aconteceu: seu estra­nho comportamento a levou para a casa de A. Assim, conse­guiu seu intento.

Esclarecido isso, não haverá quem não acredite que só um requinte diabólico poderia imaginar e executar um encadeamento de circunstâncias igual a esse. Do requinte, ninguém du­vida; mas o julgamento moral é altamente suspeito. Insisto em afirmar, energicamente, que os motivos que levaram a essa dramatização da paciente não eram, de forma alguma, cons­cientes. Parecia que tudo lhe acontecera por acaso, sem que tivesse consciência de qualquer um dos motivos. Mas todos os antecedentes deixam bem claro que tudo estava inconscientemente programado para esse fim. Enquanto isso, a consciência esforçava-se para levar a bom termo o seu noivado com B. A compulsão inconsciente de seguir pelo outro caminho foi, entretanto, mais forte.

Aqui voltamos às nossas considerações iniciais, isto é, à questão da origem do patológico (ou seja, o insólito, o exage­rado) da reação ao trauma. Baseado em outras experiências, suspeitei que nesse caso particular também havia, além do trauma, uma perturbação de ordem erótica. Essa suspeita foi inteiramente confirmada e leva à conclusão de que o trauma, motivo aparente da doença, nada mais é do que a oportuni­dade que algo que está fora do domínio da consciência — isto é, um importante conflito erótico — tem de se manifestar. Assim sendo, o trauma perde a exclusividade, sendo substituído por uma interpretação muito mais abrangente e profunda, que envolve um conflito erótico como agente patogênico.

Muitas vezes perguntam: por que a causa da neurose tem que ser justamente um conflito erótico e não outro conflito qualquer? A isso pode-se responder que ninguém afirma que assim seja, mas tem sido provado que é o que acontece mais freqüentemente. Apesar de todas as asserções indignadas em contrário, a verdade é que o amor 8, com todos os seus pro­blemas e conflitos, tem um significado fundamental na vida humana. Pesquisas sérias têm provado, constantemente, que a sua importância é muito maior do que o indivíduo suspeita.

Renunciou-se, portanto, à teoria do trauma, por estar su­perada. O fato de se reconhecer que não é o trauma, mas um conflito erótico oculto, que está na raiz da neurose, faz com que o trauma perca o seu significado causal.9

8. No sentido lato que lhe é atribuído naturalmente e que não compreende apenas a sexualidade. Também não queremos dizer que o erotismo e suas perturbações sejam a única fonte das neuroses. As perturbações do amor podem ser de natureza secun­dária é provocadas por causas mais profundas. Existem ainda outras possibilidades de nos tornarmos neuróticos.

9. As neuroses típicas de choque são uma exceção, como o choque de granadas, “railway spine”, etc.

II

A teoria do eros

Com o conhecimento adquirido através das descrições do capítulo anterior, a questão do trauma foi inesperadamente respondida. Em compensação, a pesquisa viu-se diante do pro­blema do conflito erótico, que contém uma série de elementos anormais, conforme mostra o nosso exemplo, e por isso, à pri­meira vista, não é comparável a um conflito erótico comum. O que chama a atenção, em primeiro lugar, de um modo quase inacreditável, é que só a aparência parece ser consciente, ao passo que a verdadeira paixão da paciente fica oculta. Nesse caso, não há dúvida de que a relação verdadeira ficou na pe­numbra, enquanto só a relação aparente dominava o campo da consciência. Se formulássemos teoricamente essa realidade, obteríamos a seguinte proposição: na neurose existem duas tendências, que estão em estrita oposição uma à outra, sendo que uma delas é inconsciente. Formulei-a intencionalmente nessa forma genérica, pois quero salientar que o conflito gerador da doença, embora não deixe de ser um fator pessoal, também é um conflito da humanidade inteira, em vias de manifestar-se, porque o desacordo consigo mesmo é um sinal do homem cul­tural. O neurótico é apenas um caso específico de pessoa humana em conflito consigo mesma, tentando conciliar dentro de si natureza e cultura.

Como é sabido, o processo cultural consiste na repressão progressiva do que há de animal no homem; é um processo de domesticação que não pode ser levado a efeito sem que se insurja a natureza animal, sedenta de liberdade. De tempos em tempos, como que uma onda de embriagues varre a huma­nidade que vai-se encravando dentro da coação cultural: a An­tigüidade experimentou isso na onda de orgias dionisíacas vin­das do Oriente, que depois se integraram como um elemento essencial e característico da cultura antiga. Seu espírito contribuiu, em larga escala, para que o ideal estóico de numerosas seitas e escolas filosóficas do último século aC evoluísse para a ascese e o caos politeístico daquele tempo desse origem às religiões ascéticas de Mitra e de Cristo. Uma segunda vaga de embriagues dionisíaca de libertação percorreu a humanidade ocidental durante a Renascença. É difícil fazer um julgamento crítico do tempo em que se vive. A série de questões revolu­cionárias levantadas na segunda metade do século passado in­cluía uma “questão sexual”, que suscitou toda uma corrente literária. Nesse “movimento” radicam também os primórdios da psicanálise. Isso influiu consideravelmente na evolução uni­lateral da sua formação teórica. Ninguém fica completamente imune à influência das correntes contemporâneas. Assim é que a “questão sexual” foi visivelmente relegada para um segundo plano, dada a premência dos problemas políticos e ideológicos. Contudo, isso em nada altera o fato básico de que a natureza instintiva do homem sempre colide com as barreiras culturais. Os nomes vão mudando, mas o fato permanece o mesmo. Hoje em dia, sabe-se também que nem sempre é só a natureza ins­tintiva animal que está em desacordo com a coerção cultural. Muitas vezes, novas idéias são premidas do inconsciente para a luz do dia, entrando em choque com a cultura dominante, tanto quanto os instintos. Atualmente, seria fácil estabelecer uma teoria política da neurose, uma vez que o homem atual está sendo agitado principalmente por paixões políticas, às quais a “questão sexual” constitui apenas um preâmbulo sem maior importância. É possível que ainda se venha a constatar que os abalos políticos não passam de precursores de uma convulsão religiosa, de repercussões muito mais profundas. O neurótico participa, sem ter consciência, das correntes domi­nantes do seu tempo, que estão configuradas em seu próprio conflito.

A neurose está intimamente entrelaçada com o problema do próprio tempo e representa uma tentativa frustrada do in­divíduo de resolver dentro de si um problema universal. A neurose é uma cisão interna. Na maioria das pessoas, essa cisão representa uma ruptura entre o consciente, que desejaria man­ter-se fiel a seu ideal moral, e o inconsciente, que é atraído por seu ideal imoral (no sentido atual da palavra) e que a consciência tudo faz para desmentir. Esse tipo de pessoa é o daquelas que gostariam de ser mais decentes do que no fundo são. No entanto, o conflito também pode dar-se no sentido inverso: há pessoas aparentemente muito indecorosas e des­providas de convenções. No fundo, isso não passa de uma ati­tude pecaminosa, pois nelas o lado moral está no fundo, no inconsciente, da mesma forma que a natureza imoral no ho­mem moral. (Por isso, sempre que possível, os extremos de­vem ser evitados, porque provocam a suspeita do contrário).

Foram necessárias essas considerações de ordem geral, para tornar o conceito de “conflito erótico” mais compreensível. A partir dessa colocação, poderemos discutir, por um lado, a técnica psicanalítica e, por outro, a questão da terapia.

Essa técnica implica evidentemente a seguinte pergunta: qual o caminho mais seguro e rápido para se chegar ao conhe­cimento do que ocorre no inconsciente do paciente? O primeiro método aplicado foi a hipnose: o paciente era interrogado em estado de concentração hipnótica, ou então era induzido à pro­dução espontânea de fantasias, no mesmo estado. Hoje esse método ainda é empregado ocasionalmente, mas, comparado à técnica atual, é obsoleto e, muitas vezes, insatisfatório. Na clí­nica psiquiátrica de Zurique desenvolveu-se um segundo mé­todo: o chamado método associativo.1 Este método indica com precisão a presença de conflitos, na forma dos denominados complexos ideo-afetivos, manifestados nas perturbações típicas das vivências.2 Mas o método mais importante para se chegar ao conhecimento dos conflitos patogênicos é a análise dos sonhos. Foi Freud o primeiro a demonstrá-lo.

I. Cf. Jung, Diagnostische Assoziationsstudien, 1906 e 1910. 2 vols. Obras Com­pletas, Vol. 2.

2 Jung, Allgemeines zur Komplextheorie in: Über psychisch Energetik und das wesen der Traume, 1948. Obras Completas, Vol. 8.

Pode-se dizer que o sonho é como a pedra desprezada pelos pedreiros e que depois se tornou a pedra angular. Efêmero e insignificante produto da nossa alma, o sonho nunca foi tão desprezado como em nossos dias. Antigamente, era muito va­lorizado como um prenunciador do destino, admoestando e consolando, como um emissário dos deuses. Hoje, é utilizado como porta-voz do inconsciente; sua função é revelar os se­gredos que a consciência desconhece, e realmente o faz com incrível perfeição. O “sonho manifesto”, isto é, o sonho tal como nos lembramos dele, segundo Freud, é como a fachada de uma casa: à primeira vista nada revela de seu interior, que fica oculto por detrás da chamada censura do sonho. Permi­tindo-se que a pessoa fale sobre os detalhes de seu sonho —obedecidas determinadas regras técnicas — vemos que as idéias que lhe ocorrem seguem todas uma mesma direção, concen­trando-se em torno de um assunto específico, de significado pessoal. Inicialmente, essas idéias assumem um sentido que se dissimulava por trás do enredo do sonho. Uma análise compa­rativa minuciosa desse sentido pode revelar, no entanto, a re­lação sutilíssima dos seus menores detalhes com a fachada do sonho. Esse complexo específico de pensamentos em que se concentram todos os fios do sonho é o conflito procurado, que se apresenta numa variação condicionada pelas circunstâncias. Na opinião de Freud, o lado desagradável e incompatível do conflito fica tão velado ou diluído, que se pode falar em rea­lização de desejo. É evidente que os casos de satisfação de desejos expressos — como os sonhos de sensações corporais — ocorrem raramente, mas existem. Por exemplo, acontece que uma sensação de fome manifestada durante o sono possa ser satisfeita por um sonho em que o desejo de comer é aplacado por uma farta refeição. Outro exemplo seria o sonho que se tem na hora em que é preciso levantar-se, quando se quer continuar dormindo: o desejo é satisfeito sonhando-se que já se levantou. E assim por diante. Mas são poucos os sonhos assim tão simples. De acordo com Freud, também existem de­sejos inconscientes, incompatíveis com as idéias conscientes do estado desperto. São os desejos desagradáveis, que prefe­rimos não conhecer. Entretanto, são justamente os elementos formadores do sonho. Por exemplo: uma filha tem um amor carinhoso pela mãe; no entanto, para grande desespero seu, sonha com a morte da mãe. Freud diria que essa filha tem o desejo penoso, mas inconsciente, de que a mãe (contra quem nutre resistências secretas) desapareça deste mundo o mais breve possível. Mesmo a filha mais irrepreensível pode ter tais desejos. No entanto, ela os repeliria violentamente, caso qui­séssemos responsabilizá-la por isso. Aparentemente, o sonho manifesto não satisfaz nenhum desejo, mas exprime temor e preocupação, ou seja, exatamente o contrário do suposto im­pulso do inconsciente. Ora, é sabido que um excesso de preo­cupação, freqüentemente, e com razão, suscita a suspeita do contrário. (O leitor crítico terá razão em perguntar: será exa­gerada a preocupação expressa no sonho?). São incontáveis os sonhos desse tipo, em que aparentemente não há o menor in­dício de realização de desejo. O conflito elaborado no sonho é inconsciente; o mesmo se dá com a respectiva tentativa desolução. Existe na filha que teria sonhado uma tendência real de afastar a mãe: na linguagem do inconsciente isso significa: morte. É óbvio que ela não pode ser considerada responsável por essa tendência, pois, para sermos exatos, não foi ela quem fabricou o sonho, mas sim o seu inconsciente. É este que tem a tendência de afastar a mãe, sem que a filha o saiba. O fato de essas coisas se manifestarem nos sonhos prova, justamente, que não são pensadas conscientemente. A filha não compreen­de por que a mãe deveria sumir de sua frente. Pois bem, sabe-se que uma certa camada do inconsciente contém tudo o que ficou perdido em termos de reminiscências e todos os impulsos infantis que não puderam ser utilizados na vida adul­ta. ? Pode-se dizer que quase tudo o que vem do inconsciente tem primeiramente um caráter infantil. Assim, também este desejo, que parece muito simples: papai, quando a mamãe morrer, você casa comigo, não é? Tal desejo infantil, assim ex­presso, substitui um desejo recente, mas doloroso (por motivos ainda não apurados), de casar. Este pensamento, ou melhor, a seriedade da sua intenção, é, por assim dizer, “recalcada no inconsciente”, exprimindo-se necessariamente de modo infantil, uma vez que o material de que dispõe o inconsciente é com­posto em grande parte de reminiscências infantis.

No sonho em consideração, trata-se, aparentemente, de um impulso infantil de ciúme. De certa maneira, a filha está apai­xonada pelo pai; daí o desejo de afastar a mãe. Seu verdadeiro conflito, porém, é o seguinte: de um lado, gostaria de se casar; mas, de outro, não consegue assumir a decisão. É assaltada por dúvidas como: nunca se sabe no que vai dar; será que é o homem certo?; etc. Por outro lado, a vida na casa dos pais é tão boa; vou ter que me separar da mãezinha querida, tor­nar-me adulta, independente… será que vou conseguir? No entanto, percebe a seriedade da questão do casamento, que exige uma tomada de posição e não permite recuo para os braços de papai e mamãe, envolvendo a família toda no problema que o destino lhe propõe. Deixou de ser a criança de outrora; agora é alguém que quer casar. Ela se situa como tal, isto é, com o desejo de conquistar um homem. Mas na família o homem é o pai, e é nele que recai, sem que a filha o perceba, o desejo de conquistar um homem. Mas isso é incesto. Daí resulta uma intriga incestuosa secundária. Mas, na opinião de Freud, a tendência incestuosa é primária: a verdadeira razão pela qual a filha não consegue decidir-se pelo casamento. Para ele, as outras razões invocadas não têm grande importância. Em relação a esta interpretação, venho sustentando há muito tempo o ponto de vista de que o aparecimento ocasional do incesto não prova a existência de uma tendência universal para o incesto, assim como um assassínio não revela a existência do prazer de trucidar como fonte geradora de conflitos em todos os homens. Mas também não pretendo negar que em cada indivíduo exista, potencialmente, a possibilidade de come­ter qualquer crime. Mas entre a existência do germe e o con­flito real — com a cisão de personalidade daí resultante, como é o caso da neurose — há uma diferença colossal.

Quando se acompanha atentamente a história de uma neu­rose, sempre se depara com o momento crítico do apareci­mento de um problema do qual o indivíduo se desviou. Ora, esse desviar-se é uma reação tão natural e constante como a preguiça, o comodismo, a covardia, o medo, o não saber e a inconsciência que estão em sua base. Em geral hesitamos diante de coisas desagradáveis, difíceis e perigosas, e delas não nos aproximamos. A meu ver, estas razões são plenamente convincentes. A sintomatologia do incesto — que é inegável e foi vista por Freud com inteiro acerto — me parece ser um fenômeno secundário, mórbido.

Muitas vezes o sonho apresenta pormenores aparentemente pueris, à primeira vista ridículos e exteriormente sem pé nem cabeça, deixando-nos, quando muito, intrigados. Por isso, num primeiro momento, sempre há uma resistência a vencer, antes de nos darmos seriamente ao trabalho paciente de desenrolar, fio por fio, a trama emaranhada. Quando, finalmente, depara­mos com o verdadeiro sentido de um sonho, já penetramos no âmago dos segredos de quem sonhou e vemos, cheios de espanto, como um sonho aparentemente desprovido de sentido é engenhoso e só exprime coisas graves e importantes. Esta constatação requer de nossa parte um maior respeito pelo que se chama de superstição da interpretação de sonhos, que o racionalismo da nossa época desprezou ostensivamente até agora.

Como diz Freud, a análise do sonho é a “via regia” para se chegar ao inconsciente; por conduzir aos segredos pessoais mais profundos, torna-se um instrumento de inestimável valor nas mãos do médico e educador da alma.

O método analítico em geral, e não só a psicanálise freu­diana, consiste precipuamente em numerosas análises de sonhos, já que são eles que vão trazendo à tona, sucessivamente, os conteúdos do inconsciente no decorrer do tratamento, expondo-os à força purificadora da luz do dia. Nesse processo também são redescobertos muitos fragmentos valiosos, que se julgava perdidos. Assim sendo, o início do tratamento não pode deixar de ser um suplício para muitas pessoas que têm uma falsa imagem de si mesmas, pois, aplicando o antigo ditado místico “abre mão do que tens e receberás”, terão que renun­ciar a quase todas as caras ilusões que têm a seu respeito, para deixar brotar algo muito mais profundo, maior e mais belo dentro de si. Uma sabedoria antiqüíssima volta a luz do dia, com o tratamento. Curiosamente, é no auge da nossa cul­tura atual que esse tipo de educação da alma se faz necessá­ria. Tal processo educativo é comparável, em mais de um aspecto, à técnica socrática, não obstante serem bem maiores as profundidades atingidas pela análise.

A orientação da pesquisa freudiana tentava demonstrar a primazia do fator erótico-sexual na origem do conflito pato­gênico. Segundo essa teoria, há uma colisão entre a tendência do consciente e o desejo imoral, incompatível, do inconsciente. O desejo inconsciente é infantil, ou melhor, é um desejo pro­veniente do passado infantil que não se adequa mais ao pre­sente, razão pela qual é reprimido, e isso por motivos morais. O neurótico tem a alma de uma criança e suporta mal as res­trições arbitrárias, cujo sentido não reconhece; aliás, ele pro­cura apropriar-se dessa moral, mas desavém-se consigo mesmo. Quer reprimir-se, por um lado, e libertar-se, por outro. A este conflito damos o nome de neurose. Se esse conflito fosse claro e totalmente consciente, é provável que nunca daria origem a sintomas neuróticos; estes só aparecem quando não se conse­gue ver o outro lado do próprio ser, nem a premência dos seus problemas. O sintoma parece produzir-se unicamente nes­sas condições, e ajuda o lado não reconhecido da alma a exprimir-se. Segundo Freud, o sintoma é, portanto, uma realização desejos não reconhecidos, que, se fossem reconhecidos, en­trariam em violenta oposição às convicções morais. Como já dissemos, o doente não pode lidar com ele, nem melhorá-lo, aceitá-lo ou renunciar a ele porque, na realidade, seus movimentos impulsivos nem mais existem, pois foram recalcados, eliminados da hierarquia consciente, transformando-se em complexos autônomos. Pela análise, e só depois de vencidas enormes resistências, esses impulsos são devolvidos à tutela da consciência. Há pacientes que se vangloriam, dizendo que neles o lado sombrio não existe; asseguram que não têm conflitos. Não vêem, porém, que em compensação esbarram em outras tantas coisas, cuja origem desconhecem, tais como humores histéricos, artimanhas tramadas contra si mesmos ou contra o próximo, inflamações estomacais de origem nervosa, dores aqui e ali, irritabilidade sem motivo aparente, e todo um sé­quito de sintomas nervosos.

A psicanálise de Freud foi acusada de libertar no homem os instintos animais (felizmente) reprimidos, provocando com isso uma catástrofe de conseqüências imprevisíveis. Este receio evidencia a pouca confiança que se deposita na eficácia dos atuais princípios da moral. Até parece que só a pregação moral pode impedir o homem de se precipitar numa libertinagem desenfreada. No entanto, a necessidade é um regulador muito mais eficaz, pois estabelece limites para a realidade, o que é muito mais convincente do que todos os princípios morais reunidos. É certo que a psicanálise pode tornar conscientes todos os instintos animais, mas não, como alguns interpretam, para deixá-los entregues a uma liberdade sem freio, e sim para integrá-los num todo harmonioso. Aliás, quaisquer que sejam as circunstâncias, é uma vantagem poder dominar plenamente a personalidade; caso contrário, os conteúdos reprimidos vão aparecer em outro lugar, estorvando o caminho — e isso não em pontos secundários, mas justamente nos pontos mais vul­neráveis. As pessoas, quando educadas para enxergarem clara­mente o lado sombrio de sua própria natureza, aprendem ao mesmo tempo a compreender e amar seus semelhantes; pelo menos, assim se espera. Uma diminuição da hipocrisia e um aumento do autoconhecimento só podem resultar numa maior consideração para com o próximo, pois somos facilmente leva­dos a transferir para nossos semelhantes a falta de respeito e a violência que praticamos contra nossa própria natureza.

Segundo a teoria freudiana da repressão, parece, no en­tanto, que só as pessoas de moralidade excessiva reprimem sua natureza instintiva. Logo, a pessoa imoral, que não põe freios aos seus instintos, deveria ser completamente imune à neurose. A experiência nos ensina, evidentemente, que não é este o caso. Esta pode ser tão neurótica quanto aquelas. A análise de uma pessoa imoral revela que houve simplesmente uma repressão do lado moral. Um neurótico imoral é a imagem do “pálido criminoso”, que não está à altura do seu ato, tão bem descrito por Nietzsche.

Num caso assim, poderíamos supor que os restos de de­cência reprimidos não passariam de convenções tradicionais infantis, que puseram freios desnecessários à natureza instin­tiva razão pela qual seria melhor extirpá-las de uma vez por todas. Com o princípio “écrasez l’infâme”, culminaríamos nu­ma teoria da fruição absoluta. Naturalmente, isto seria com­pletamente fantástico e absurdo. Pois não devemos esquecer — e devemos isso à escola de Freud — que a moral não foi tra­zida do alto do Sinai em forma de tábuas e imposta ao povo, mas constitui uma função da alma humana, tão antiga quanto a própria humanidade. A moral não nos é imposta de fora, nós a temos definitivamente dentro de nós mesmos, a priori; não a lei, mas o ser moral, sem o que seria impossível con­viver na sociedade humana. Eis por que a moral é encontrada em todos os níveis da sociedade. É um regulador instintivo das ações, ordenando também a convivência das hordas animais As leis morais, porém, só têm validade dentro de um grupo de convívio humano. Fora dele, deixam de existir, pois reina, desde sempre, aquela verdade antiqüíssima: “homo homini lu­pus” (o homem é o lobo do homem). À medida que uma cul­tura se desenvolve, é possível submeter massas humanas cada vez maiores ao domínio de uma mesma moral. No entanto, até hoje foi impossível estabelecer uma lei moral que se im­pusesse além dos limites da sociedade, isto é, no espaço livre de grupos que não dependem um do outro. Aí, como no tempo dos nossos ancestrais, impera a ausência do direito e da dis­ciplina e a mais completa imoralidade; esta, no entanto, só é denunciada pelo inimigo casual que com ela se confronta.

A prática freudiana está de tal forma convencida da im­portância fundamental e exclusiva da sexualidade na neurose que, para ser coerente, passou a atacar corajosamente a moral sexual de seu tempo. Isto, sem dúvida, foi útil e necessário, pois dominavam nesse terreno, como ainda hoje, concepções insuficientemente diferenciadas, em vista da complexidade da questão. Assim como na baixa Idade Média a transação a di­nheiro era profundamente desprezada, devido à inexistência de uma moral casuística diferenciada da transação, sujeita ape­nas a uma moral global, hoje pode-se dizer que só existe uma moral sexual global, indiferenciada. Uma moça solteira que tenha um filho é condenada, e ninguém pergunta se ela é uma pessoa digna ou não. Qualquer forma de amor que não tenha o beneplácito do direito é imoral, quer seja vivido por pessoas de grande valor ou por canalhas. Isto porque ainda estamos hipnotizados por o que o homem faz, esquecendo-nos do como, exatamente como as transações de dinheiro na Idade Média, identificadas com o metal reluzente, objeto de cobiça e, por­tanto, com o próprio diabo.

A coisa não é tão simples assim. O erotismo constitui um problema controvertido e sempre o será, independentemente de qualquer legislação futura a respeito. Por um lado, pertence à natureza primitiva e animal do homem e existirá enquanto o homem tiver um corpo animal. Por lado, está ligado às mais altas formas do espírito. Só floresce quando espírito e instinto estão em perfeita harmonia. Faltando-lhe um dos dois aspectos, já se produz um dano ou, pelo menos, um desequilíbrio, devido à unilateralidade, podendo resvalar facilmente para o doentio. O excesso de animalidade deforma o homem cultural; o excesso de cultura cria animais doentes. Este dilema mostra toda a insegurança que o erotismo traz ao homem. No fundo, é algo muito poderoso que, como a natureza, pode ser dominado e usado, como se fosse impotente. Mas o triunfo sobre a natu­reza se paga muito caro. A natureza dispensa quaisquer de­clarações de princípios, contenta-se com tolerância e sábias medidas.

“Eros é um grande demônio”, declara a sábia Diotima a Sócrates. Nunca o dominamos totalmente; se o fizermos, será em prejuízo próprio. Eros não é a totalidade da natureza em nós, mas é pelo menos um dos seus aspectos principais. A teoria sexual da neurose freudiana fundamenta-se, portanto, num princípio verdadeiro e real. Comete, no entanto, o erro da unilateralidade e da exclusividade, além da imprudência de querer apreender Eros, que nunca se deixa capturar numa gros­seira terminologia sexual. Neste ponto Freud é também um dos representantes de sua época materialista 3, que nutria a esperança de -resolver todos os enigmas do mundo num tubo de ensaio. O próprio Freud, depois de velho, reconheceu essa falta de equilíbrio de sua teoria e contrapôs a Eros, que cha­mou de libido, o instinto de morte, ou de destruição.4

3. Jung, Sigmund Freud ais kulturhistorische Erscheinung. Obras completas, Vol. 15.

4. Esta idéia é de autoria de minha aluna Dra. S. Spielrein. Cf. Die Destruktion ais Ursache des Werdens, publicado no Jahrbuch für psychoanalytische und psycho-pathologische Forschungen, 1912. Este trabalho é mencionado por Freud. Freud in­troduz o impulso de destruição ou de morte em seu ensaio Jenseits des Lustprinzips, Capitulo 5.

Lê-se seus escritos póstumos: “Depois de muito hesitar e oscilar, resolvemos admitir apenas dois impulsos básicos: Eros e o impulso de destruição… A meta do primeiro é estabelecer unidades cada vez maiores e conservá-las; logo, é união. A meta do outro, ao invés, é dissolver relações e assim destruir as coisas. Por isso, também é chamado de instinto de morte”.5

Contento-me com esta referência, sem entrar mais a fundo as controvérsias acerca do conceito. É claro que a vida, como todo ciclo, tem um começo e um fim e que cada começo tam­bém é o começo do fim. Freud quer dizer, provavelmente, que todo ciclo é um fenômeno energético e que a energia só pode ser produzida pela tensão dos contrários.

5. S. Freud, Abriss der Psychoanalyse, Capítulo 2, p. 70. Obras póstumas. Londres. 1941

III

Outro ponto de vista: a vontade de poder

ATÉ agora encaramos o problema dessa nova psicologia essencialmente a partir do ponto de vista de Freud. Não resta a menor dúvida de que isso nos proporcionou uma visão de algo verdadeiro que o nosso orgulho, a nossa consciência cultural, talvez não quisesse aceitar. Mas alguma coisa em nós diz: sim, aceito. Muita gente acha isso irritante, protesta e, vendo o esforço que isso requer, nem mesmo quer admiti-lo. O fato de o homem ter um lado sombrio é terrível, convenha­mos, pois esse lado não é feito apenas de pequenas fraquezas e defeitos estéticos, mas tem uma dinâmica francamente de­moníaca. É raro que o homem, o indivíduo, saiba disso. Pa­rece-lhe inconcebível que possa, em algum ponto ou de alguma forma, exceder-se a si mesmo. Mas se deixarmos que esses seres inofensivos formem uma massa, em determinadas circuns­tâncias essa massa pode dar origem a um monstro delirante. Cada indivíduo não passará, então, de uma célula minúscula no corpo do monstro; querendo ou não, já não terá outro jeito senão participar do desvario sanguinário da besta, apoiando-a na medida de suas forças. Basta um surdo pressentimento dessas possibilidades do lado sombrio da humanidade para nos recusarmos a reconhecê-lo. Rebelamo-nos cegamente contra o dogma edificante do pecado original, que, no entanto, é incri­velmente verdadeiro. Sim, hesitamos até em reconhecer o con­flito, que, no -entanto, se manifesta tão dolorosamente. É com­preensível que uma orientação psicológica que insista no lado sombrio não seja benvinda e até nos amedronte, pois nos obriga a um confronto com um problema insondável. Temos uma se­creta intuição de não estarmos totalmente isentos desse lado negativo e de que, pelo fato de termos um corpo, este projeta sua sombra — como todo corpo, aliás. Ela nos diz ainda que, se renegarmos nosso corpo, não somos tridimensionais, mas sim planos, ilusórios. Mas este corpo é um animal com alma, isto é, um sistema vivo, que obedece necessariamente ao instinto. Associando-nos a essa sombra, dizemos “sim” ao instinto e também àquela dinâmica fabulosa que ameaça por trás dela. A moral ascética do cristianismo quer livrar-nos disso e assim nos expõe ao risco de perturbar o mais profundo de nossa natureza animal.

Teremos uma idéia clara do que significa dizer “sim” ao instinto? Nietzsche quis ensiná-lo e foi honesto em seu empreendimento. Com rara paixão, sacrificou sua vida inteira e a si mesmo à idéia do super-homem, isto é, à idéia do homem que obedecendo ao seu instinto, também excedesse a si mes­mo.’ E como transcorreu sua vida? Da maneira como ele a profetizou no Zarathustra: naquela queda mortal, premo­nitória, do saltimbanco, do “homem” que não queria que “lhe passassem por cima”. Zarathustra diz ao moribundo: “Tua alma morrerá mais depressa do que o corpo!” E mais tarde diz o anão a Zarathustra: “Ó Zarathustra, pedra da sabedoria, tu te lançaste ao alto; mas toda pedra lançada ao alto há de cair! Condenaste a ti mesmo ao apedrejamento. Ó Zarathustra, lançaste a pedra longe, mas sobre ti ela cairá!” Quando ele invocou o “ecce homo”, já era tarde demais, como outrora; ao dizer a palavra pela primeira vez, a crucificação da alma principiara, bem antes do corpo morrer.

A vida de quem ensinou a dizer “sim” dessa maneira deve ser examinada criticamente, para que sejam investigados os efeitos de um tal ensinamento na própria pessoa que o minis­trou. A observação da sua vida leva-nos a dizer: Nietzsche viveu muito além do instinto, nas alturas do heroísmo. Foi-lhe pos­sível manter-se nessas alturas graças à mais meticulosa dieta, num clima privilegiado e ingerindo grande quantidade de soní­feros, até que a tensão lhe estourou os miolos. Falava no “sim” e vivia o “não” para a vida. Seu nojo dos homens, isto é, do homem animal, que vive por instinto, era demasiado grande. Não conseguia engolir a rã com que sonhava freqüentemente e ficava apavorado porque era preciso engoli-la. Rugindo o leão zarathustrano fazia com que todos os homens Priores”, que clamavam pela participação vital, regressassem à caverna do inconsciente. Logo, sua vida não demonstra seu ensinamento. Porque o homem “superior” quer poder dormir sem barbitúricos, quer viver em Naumburg ou na Basiléia, com “bruma e sombras”, quer mulher e filhos, quer ter valor e ser reconhecido pelo rebanho, quer tantas coisas banais e, por que não?, quer simplesmente ser burguês. Nietzsche não viveu esse instinto, esse instinto animal de vida. Sem menosprezar sua grandeza e importância, ele foi uma perso­nalidade mórbida.

Mas de que viveu ele, se não foi por instinto? Podemos acusá-lo de ter praticamente negado o seu instinto animal? Sem dúvida, ele próprio não concordaria com tal acusação. E até poderia nos provar, sem dificuldade, que viveu o instinto em seu sentido mais elevado. Como é possível, perguntamo-nos surpresos, que a natureza instintiva do homem o tenha justa­mente afastado do convívio dos homens, relegando-o ao mais absoluto isolamento, defendido pelo nojo do contato com o re­banho? Então o instinto não junta, não copula, não gera, não busca o prazer e a vida gostosa, a satisfação de todos os de­sejos sensuais? Mas nós nos esquecemos por completo de que este é apenas um dos rumos possíveis do instinto. Não existe unicamente o instinto de conservação da espécie, existe tam­bém o de autoconservação.

É sem dúvida deste último instinto que Nietzsche nos fala, isto é, da vontade de poder.. Para ele, tudo que existe de ins­tintivo é decorrência da vontade de poder. Considerado do ponto de vista da psicologia sexual de Freud, isto é um erro. O adepto da psicologia sexual provará facilmente que todo o exagero, todo o heroísmo da concepção nietzscheana da vida e do mundo não passam de conseqüências da repressão e do desconhecimento do “instinto”, isto é, do instinto considerado fundamental por essa psicologia.

O caso de Nietzsche mostra, por um lado, as conseqüências da unilateralidade neurótica e, por outro, os perigos que se corre quando se faz abstração do cristianismo. Incontestavelmente, Nietzsche sentiu em toda a sua profundidade a renegação cristã da natureza animal e buscou uma totalidade humana mais elevada, que superasse o bem e o mal. Quem discorda a fundo das linhas básicas do cristianismo, também abre mão da proteção que o mesmo proporciona. Rende-se forçosamente à alma animal. É o momento do delírio dionisíaco, a revelação subjugadora da “besta loura”1 que se apodera do incauto com arrepios imprevistos. Assim subjugado, torna-se um herói ou um deus, com uma grandeza muito acima do humano. Sente-se como se estivesse a “6 mil pés além do bem e do mal”.

1. Cf. Jung, über das Unbewusste, 1918. Obras Completas, Vol. 10.

Este é o estado que o observador-psicólogo designa como “identificação com a sombra”, fenômeno que se produz com grande regularidade nesses momentos de luta com o inconsciente O único remédio nesses casos é a reflexão autocrítica. Primeiro, e antes de mais nada, é extremamente improvável a descoberta que acabamos de fazer seja uma verdade capaz de abalar o mundo, pois é muito raro acontecer isso na história. Segundo, temos que fazer uma investigação cuidadosa para saber se já ocorreu algo semelhante em outros lugares, por exemplo, Nietzsche poderia ter traçado, como filólogo, al­guns paralelos bem nítidos com a Antigüidade; isso o teria certamente tranqüilizado. Terceiro, é de se ponderar que uma experiência dionisíaca pode representar simplesmente o retorno de uma forma paga de religião, o que não seria novidade; só que a história recomeçaria tudo de novo. Quarto, é matemati­camente certa a previsão de que à alegria e ao êxtase que nos arrebatam a alturas heróicas e divinas corresponde uma queda proporcional em profundidade. Assim, teríamos condições de reduzir todo esse arrebatamento à simples medida de uma es­calada de montanha um tanto cansativa, seguida do eterno dia-a-dia. Como todo riacho busca o vale e todo rio caudaloso corre para a planície, assim transcorre a vida, não só no dia-a-dia, mas transformando tudo no corriqueiro dia-a-dia. O di­ferente, o excepcional, quando não redunda em catástrofe, pode ir-se entremeando no dia-a-dia, mas sem exceder as medidas. Quando o heroísmo se torna crônico, acaba em crispação; e esta leva à catástrofe, ou à neurose, ou a ambas. Nietzsche ficou entalado na exaltação. Pelo êxtase não precisava ter rom­pido com o cristianismo. E isso não responde ao problema da alma animal, pois o animal extático é um disparate. Um animal cumpre a lei da sua vida, nada mais, nada menos. Podemos chamá-lo de obediente e piedoso. O extático passa por cima da lei da vida e comporta-se desordenadamente em relação à natureza. A desordem é prerrogativa exclusiva do homem, cuja consciência e livre arbítrio podem desligar-se contra naturam e ocasionalmente de suas raízes animais. Esta particularidade é a base imprescindível de toda cultura, mas também da doença psíquica, quando exagerada. A cultura é tolerável só até certo ponto, o dilema sem fim entre cultura e natureza, no fundosempre uma questão de insuficiência ou excesso, nunca uma opção entre uma ou outra.

O caso de Nietzsche nos põe diante de uma interrogação: o que lhe foi revelado através do embate com a sombra, ou seja, a vontade de poder, deve ser interpretado como algo alheio à natureza, como um sintoma de repressão? A vontade de poder é algo genuíno ou secundário? Se o conflito com a sombra tivesse liberado uma maré de fantasias sexuais, o caso estaria claro. Mas não foi isso que aconteceu. O “X” do pro­blema não era Eros, mas o poder do eu. Donde se conclui que o que está reprimido não é Eros, mas a vontade de poder. A meu ver, não há nenhuma razão para admitir a autenticidade de Eros e negar a da vontade de poder; esta é, sem dúvida, um demônio tão grande, antigo e primordial quanto Eros.

Não é admissível considerar inautêntica uma vida como a de Nietzsche, pois ela foi vivida até as últimas e fatais con­seqüências, numa grande fidelidade à natureza do impulso de poder que lhe servia de base. Cometeríamos a mesma injus­tiça que Nietzsche cometeu em relação a Wagner, seu antípoda: “Tudo nele é falso; o que existe de autêntico está oculto ou é acessório. É um ator, em todos os sentidos bons e maus da palavra”. De onde vem esse preconceito? Wagner é simples­mente um representante daquele outro impulso fundamental, que Nietzsche não levou em conta e que é a base sobre a qual Freud erigiu sua psicologia. Investigando se Freud desconheci­da o outro impulso, o de poder, somos levados a concluir que ele o englobou sob o nome de “impulso do eu”. Mas em sua psicologia esses “impulsos do eu” têm um lugar insigni­ficante, comparado com o desenvolvimento inflacionado do fator sexual. Na realidade, a natureza humana é portadora de um combate cruel e infindável entre o princípio do eu e o princípio do instinto: o eu, todo barreiras; o instinto, sem li­mites; ambos os princípios com igual poder. De certa forma, o homem pode considerar-se feliz por ter consciência somente de um dos impulsos; e é prudente que evite conhecer o outro. Mas, caso venha a conhecer esse outro impulso, pode conside­rar-se perdido: “entra no conflito de Fausto. Goethe mostrou, na primeira parte do Fausto, o que significa a aceitação do instinto e, na segunda parte, o que significa a aceitação do eu e de todo o seu fundo estarrecedor. Tudo o que há de in­significante, mesquinho e covarde em nós recua diante disso e se safa, lançando mão de um bom subterfúgio: descobrimos a nossa “alteridade” em “outrem”, ou melhor, descobrimos outra pessoa que pensa, age, sente e deseja tudo aquilo que condenamos e desprezamos. Achamos o nosso bode expiatório e,satisfeitos, iniciamos o combate a ele. Daí resultam aquelas idiossincrasias crônicas, de que temos alguns exemplos na história dos costumes. Um dos exemplos mais ilustrativos é, como dissemos, o caso “Nietzsche contra Wagner, contra Paulo”, etc. No entanto, casos como este pululam na vida cotidiana. Recorrendo a esse habilíssimo estratagema, o homem se salva da catástrofe de Fausto, pois provavelmente lhe faltam força e coragem para enfrentá-la. Um homem completo, no entanto, sabe que mesmo seu mais feroz inimigo, não um só, mas um bom número deles, não chega aos pés daquele terrível adver­sário, ou seja, aquela “outro” que “habita em seu seio”. Nietzs­che tinha Wagner dentro de si; por isso, invejou-lhe o Parsifal. E pior ainda: o próprio Saulo também tinha Paulo dentro de si. Por isso Nietzsche tornou-se um estigmatizado do espírito; precisava experimentar a “cristificação”, como Saulo, quando a “alteridade” lhe inspirou o “Ecce homo”. Quem “desmoronou ao pé da cruz”: Wagner ou Nietzsche?

Quis o destino que um dos primeiros discípulos de Freud, Alfred Adler 2 estabelecesse um conceito de essência da neu­rose baseado exclusivamente no princípio do poder. É interes­santíssimo e particularmente estimulante ver como as coisas vistas sob enfoques opostos têm um aspecto inteiramente di­verso. Antecipando a principal contradição, quero mencionar de início que para Freud tudo é efeito estritamente causal de fatos anteriores e para Adler, ao contrário, tudo é manobra condicionada pelo fim. Vejamos um exemplo bem simples: uma jovem senhora é acometida por acessos de medo. Durante a noite, acorda de um pesadelo com um grito dilacerante. De­pois, mal consegue acalmar-se. Agarra-se ao marido, fazendo-o jurar que nunca a abandonará, repetir constantemente que a ama, etc. Pouco a pouco seu estado evolui para uma asma ner­vosa. Passa a ter acessos, mesmo durante o dia.

2. Über den nervösen Charakter, 1912.

Num caso desses, a prática freudiana entranha-se imedia­tamente na causalidade interna do quadro patológico. Quais conteúdos dos primeiros sonhos de pavor? Touros selvagens, leões, tigres, homens maus a atacavam. Quais as associações da paciente? O seguinte episódio ocorreu quando ainda era solteira: foi numa estação termal, nas montanhas. Jogava-se muito tênis. Como costuma acontecer, travavam-se novos conhecimentos. Encontrou um italiano, jovem, exímio tenista, queà noite costumava tocar violão. Começaram um flerte inocente, que os levou a passear ao luar. O temperamento italiano irrompeu “inesperadamente” nessa hora, para grande susto da moça inex­periente. Ele a olhava “de um jeito” que nunca mais pôde es­quecer. Esse olhar continua perseguindo-a até nos sonhos; mes­mo os animais selvagens que a perseguem olham-na desse jeito. Será que o italiano foi mesmo o primeiro a olhá-la assim? Outra reminiscência esclarece-nos a esse respeito. Aos 14 anos a paciente perdera o pai num acidente. Este era um homem mundano e viajava muito. Pouco antes de sua morte, levara-a consigo a Paris, onde estiveram, entre outros lugares, no Folies Bergères. À saída do teatro houve uma cena que na hora não a impressionou muito: subitamente, uma mulher muito maqui-lada foi-se encostando no pai com incrível atrevimento. Olhou assustada para ele, querendo ver o que ia fazer; e viu exata­mente aquele olhar, aquele fogo animal nos olhos. Algo de inexplicável passou a persegui-la, dia e noite. A partir desse momento, o seu relacionamento com o pai modificou-se. Ora irritadiça, agredia-o, ora o amava perdidamente; tinha crises de choro sem motivo. Quando seu pai comia em casa, engas­gava com muita facilidade à mesa e esses acessos terminavam com sufocações que em geral a deixavam um a dois dias sem voz. Isso durante algum tempo. Ao receber a notícia da morte do pai, foi acometida de uma dor estranha, que culminava em crises histéricas de riso. Mas, pouco tempo depois, acalmou-se e seu estado ia melhorando rapidamente; os sintomas neuró­ticos desapareceram quase por completo. Uma névoa de es­quecimento pousou sobre o passado. O incidente com o ita­liano era o único que ainda remexia coisas que a amedronta­vam. Naquela ocasião, separara-se bruscamente do rapaz. Casou-se alguns anos depois. Só depois do segundo filho é que come­çou a neurose, isto é, no momento em que descobriu no marido um interesse carinhoso por outra mulher.

Nessa história há muito a perguntar. Por exemplo, onde fica a mãe nisso tudo? O que se sabe é que a mãe era muito nervosa e tinha passado por todos os sanatórios e tratamentos possíveis e imagináveis; também sofria de asma nervosa e de sintomas de medo. Pelo que a paciente se lembrava, o casal vivera muito distante um do outro. A mãe não compreendia o pai. A paciente tinha sempre a impressão de compreendê-lo bem melhor. Era nitidamente a preferida do pai; em contra­partida, sentia bastante frieza em relação à mãe.

Essas indicações deveriam ser suficientes para se ter uma idéia da evolução da doença. Por trás dos sintomas apresen­tados estão as fantasias que à primeira vista se associam ao episódio do italiano, mas que, no mais, se referem claramente ao pai. Este, devido ao casamento infeliz, deu prematuramente à filha o ensejo de conquistar um lugar que normalmente de­veria ter sido preenchido pela mãe. Atrás dessa conquista es­conde-se evidentemente a fantasia de ser a mulher ideal para o pai. Os primeiros sintomas da neurose aparecem no mo­mento em que a fantasia sofreu um forte abalo; provavel­mente, o mesmo abalo sofrido pela mãe (mas ignorado pela filha). É fácil compreender os sintomas como expressão de amor frustrado e rejeitado. O engasgamento vem daquela sensação de aperto na garganta, conhecido fenômeno que em geral acompanha as aflições intensas, aquelas que não conseguimos “engolir” totalmente. (Como é sabido, as metáforas de lingua­gem referem-se freqüentemente a fatos fisiológicos desse tipo). Por ocasião da morte do pai, seu consciente ficou muito triste, mas sua sombra ria; exatamente como Till Eulenspiegel, que se aborrecia quando o caminho o levava monte abaixo, mas se animava todo na subida, por mais íngreme que fosse, sem­pre na expectativa do que estava por acontecer. Quando o pai estava em casa, sentia-se aborrecida e doente; cada vez que ele viajava, sentia-se melhor, tal como acontece aos incontáveis esposos e esposas que ainda guardam bem guardado o doce segredo de que já não são mais tão indispensáveis um ao outro. Prova de que o inconsciente tinha certa razão de estar risonho foi o período de plena saúde que veio logo após. Con­seguiu fazer com que todo o seu passado submergisse. Só o episódio do italiano ameaçava trazer à tona o seu mundo abis­mai. Mas, num gesto rápido, bateu a porta, mantendo sua saúde em bom estado, até que o dragão da neurose chegou, sorrateiramente, quando ela se considerava fora de perigo, naquele estado, por assim dizer, de plenitude, de esposa e mãe. A psicologia sexual diz que a origem da neurose está no te, no fundo, a doente ainda não estar desligada do pai. É o motivo por que lhe volta a memória o momento em que descobriu no italiano o mesmo olhar estranho que tão profundamente a impressionara no pai. Essas lembranças foram reavivadas quando de uma experiência análoga com o marido, constituindo o estopim da neurose. Por isso se poderia dizer; que o conteúdo, o motivo da neurose é o conflito entre a fan­tasia da relação erótico-infantil com o pai e o amor do esposo. No entanto, se observarmos o mesmo quadro patológico do ponto de vista do “outro” impulso, isto é, do impulso da vontade de poder, a coisa muda completamente de figura: a precariedade da situação conjugai dos pais era uma excelente oportunidade para o instinto de poder infantil. Ora, o impulso de poder exige que o eu fique “por cima”, isto é, domine de qualquer maneira. A “integridade da personalidade” tem que ser preservada custe o que custar. Toda e qualquer tentativa do meio no sentido de obter uma submissão do sujeito, por mais tênue que seja, é respondida por um “protesto masculi­no”, na expressão de Adler. A decepção da mãe e sua fuga para a neurose proporcionaram, portanto, uma oportunidade única para o desdobramento do poder e para que ela ficasse por cima. O amor e o comportamento irrepreensível são armas extremamente adequadas para se alcançar a meta, do ponto de vista do impulso de poder. A virtude, não raro, serve para forçar o reconhecimento dos, outros. Desde criança, ela soube angariar os favores do pai, por um comportamento particular­mente solícito e afável, e colocar a mãe a seus pés. Não foi por amor ao pai; o amor só foi usado como meio de se impor. O acesso de riso que teve quando o pai morreu é uma prova eloqüente do que acabamos de dizer. Tendemos a repelir esse tipo de explicação por acharmos que desvirtua o amor ou por considerá-la uma insinuação de má-fé; mas, convenhamos: re­flitamos um pouco e olhemos o mundo tal como é. Então, nunca vimos as incontáveis pessoas que amam e acreditam no seu amor só enquanto não atingiram o seu objetivo, e que depois lhe viram as costas como se nunca tivessem amado? E, afinal, será que a natureza também não age assim? Será que pode existir um amor sem finalidade? Se existir um amor assim, pertencerá às mais altas virtudes, e estas são, fatal­mente, bem raras. Além disso, talvez seja uma tendência nossa não pensar muito na finalidade do amor, porque, se o fizésse­mos, poderíamos descobrir coisas que lançariam uma luz não muito lisonjeira sobre o nosso amor e seu valor.

Recapitulemos: a paciente teve um ataque de riso quando o pai morreu; logo, estava definitivamente por cima. Tratava-se de um riso histérico, sintoma psicógeno, produzido por motivos inconscientes e não pelo eu consciente. Não devemos subestimar esta diferença, que permite ver igualmente onde e como se criam certas virtudes humanas. A contrapartida de­las foi Para ° inferno> ou> em Palavras mais atuais, para o inconsciente, onde há muito se acumulam os opostos das nossas virtudes conscientes. Assim, por pura virtude, nada queremos saber do inconsciente. Aliás, o cúmulo da prudência virtuosa éafirmar que o inconsciente não existe. Mas, infelizmente, acontece conosco o mesmo que com o irmão Medardo no Elixir do Diabo, de Hoffmann: temos em algum lugar um irmão tenebroso e pavoroso, ou seja, o nosso contrário em pessoa, ligado a nós pelo sangue, que conserva tudo e maldo­samente armazena o que gostaríamos que desaparecesse da nossa frente.

A nossa paciente teve o primeiro surto de neurose no mo­mento em que percebeu que havia algo no pai que lhe esca­pava ao controle. Fez-se uma grande luz: de repente, viu para que servia a neurose da mãe. Quando topamos com algo que não conseguimos submeter pela razão ou pelo charme, existe um mecanismo, até então desconhecido para ela e que a mãe já havia descoberto: a neurose. Donde a imitação da neurose da mãe. Pois é, mas para que serve a neurose? — pergunta­remos, admirados. Qual a sua finalidade? Alguém que já con­viveu com uma pessoa declaradamente neurótica sabe perfei­tamente bem quanto se “consegue” através da neurose. Não há meio mais eficaz de tiranizar toda a casa. O efeito obtido por problemas de coração, acessos de asfixia, convulsões de todo tipo, é enorme e quase infalível. Desencadeia ondas de compaixão, ansiedades sublimes dos pais sinceramente preo­cupados, um corre-corre de criados, telefonemas, médicos cha­mados com urgência, diagnósticos difíceis, exames minuciosos, despesas consideráveis; e no meio de toda essa agitação o ino­cente sofredor, a quem se agradece calorosamente quando ces­sam os “espasmos”.

A menina descobriu essa “manobra” infalível (para empre­gar o termo adleriano) e passou a empregá-la com êxito cada vez que o pai estava por perto. Quando o pai morreu, pôde dispensá-la, pois estava definitivamente por cima. O italiano foi descartado imediatamente quando quis acentuar a feminilidade dela através da oportuna satisfação de sua masculinidade. Depois surgiu a proposta de um casamento conveniente. amou e conformou-se, sem queixas, ao papel de esposa e mãe. Enquanto se impunha e era admirada, tudo correu às mil maravilhas. Mas, assim que o marido demonstrou um ligeiro in­teresse extraconjugal, teve que recorrer de novo àquela antiga “manobra” eficientíssima, isto é, ao uso indireto da violência; deparara de novo, dessa vez no marido, com aquilo que no pai já lhe fugira ao controle.

Do ponto de vista da psicologia do poder, a coisa é vista dessa forma. Temo que o leitor possa vir a ter uma reação semelhante à daquele cádi que, ouvindo o procurador de uma das partes, disse: “Falaste bem, vejo que tens razão”. Depois, falou o procurador da outra parte. O cádi, cocando a cabeça, disse: “Falaste bem, vejo que tu também tens razão”. O papel desempenhado pelo impulso de poder é excepcional — isso é incontestável. É verdade que os complexos de sintomas neuró­ticos também são “manobras” sutis que vão inexoravelmente ao encalço dos seus fins com uma incrível tenacidade e uma esperteza sem igual. A neurose é orientada para um fim. O grande mérito de Adler foi ter provado isso.

Mas qual dos dois pontos de vista, afinal, é o verdadeiro? Esta pergunta poderia criar confusão na cabeça da gente. Não podemos simplesmente sobrepor essas duas explicações, pois são absolutamente contraditórias. Num dos casos, Eros e seu destino são a realidade suprema e decisiva; no outro, é o poder do eu. No primeiro caso, o eu não passa de uma espécie de apêndice do Eros; no segundo, o amor não passa de um meio para se atingir a meta, que é dominar. Quem valoriza o poder do eu revolta-se contra a primeira concepção, mas quem dá importância a Eros nunca há de reconciliar-se com a segunda.

IV

O problema dos tipos de atitude

COMO as duas teorias descritas nos capítulos anteriores são inconciliáveis, é preciso encontrar um ponto de vista acima delas, em que a unificação seja possível. Não podemos conde­nar uma simplesmente para favorecer a outra, por mais cô­moda que seja essa solução; porque, quando as duas teorias são examinadas sem parcialidade, não se pode negar que am­bas contêm verdades fundamentais. Por mais contraditórias que sejam, uma não exclui a outra. A teoria freudiana nos se­duz por sua simplicidade, a tal ponto que quase nos causa lástima ao ser atacada por uma afirmação em contrário. O mesmo vale para a teoria de Adler, que também é de uma simplicidade luminosa e convence tanto quanto a de Freud. Não surpreende, pois, que os adeptos de ambas as escolas se aferrem intransigentemente às suas respectivas teorias — cer­tas, porém unilaterais. É humano e compreensível que não es­tejam dispostos a renunciar a uma teoria belíssima e perfeita, trocando-a por um paradoxo ou, o que é pior ainda, perdendo-se na confusão de pontos de vista contraditórios.

Como ambas as teorias são amplamente certas e, ao que parece, explicam a matéria, é óbvio que a neurose deve ter dois aspectos contraditórios, um dos quais é apreendido pela teoria de Freud e o outro, pela de Adler. Como é que um cien­tista só vê um lado e um outro só o outro? Por que cada um Pensa que a sua posição é a única válida? Provavelmente porque ambos vêem na neurose antes de tudo aquilo que corres­ponde à sua característica pessoal. É pouco provável que os casos de neurose que Adler chegou a analisar tenham sido inteiramente diversos dos que Freud conhecia. É lógico que ambos tenham partido de um mesmo material de experiência, como a peculiaridade de cada um faz enxergar as coisas maneira diferente, desenvolvem opiniões e teorias totalmente diversas. Adler vê como um sujeito que se sente inferior e der­rotado procura aceder a uma superioridade ilusória, mediante “protestos”, “manobras” e outros estratagemas adequados, in­discriminadamente, contra pais, educadores, superiores, autori­dades, situações, instituições ou seja lá o que for. Até a se­xualidade figura entre os estratagemas. Esta concepção está ba­seada numa supervalorização do sujeito, em face do qual as características e a significação dos objetos desaparecem por completo. Estes são considerados, no máximo, como portadores de tendências repressivas. Creio não estar equivocado na mi­nha suposição de que a relação amorosa e outros anseios que visam objetos também sejam considerados por Adler como dimensões essenciais. Em sua teoria da neurose, porém, não lhes é atribuído o papel principal, como na de Freud.

Freud vê seu paciente constantemente na dependência de e relacionado com objetos importantes. Pai e mãe exercem um papel fundamental. Todas as influências ou condicionamentos que eventualmente ainda venham a ter importância na vida do paciente remontam, em causalidade direta, a essas potências primordiais. O conceito de transferência, ou, em outras pala­vras, a relação paciente/analista, é a “pièce de résistance” de sua teoria. Sempre se deseja um objeto especificamente quali­ficado, ou então se lhe opõe resistência, e isso invariavelmente de acordo com o modelo da relação com os pais adquirido na primeira infância. O que brota do sujeito é essencialmente um desejo cego de prazer. Mas esse desejo sempre recebe a sua qualidade de objetos específicos. Para Freud, os objetos são de extrema importância e têm a quase exclusividade da força determinante, ao passo que o sujeito se torna surpreen­dentemente insignificante e, na realidade, não é mais do que uma fonte do desejo de prazer ou uma “morada do medo”. Como já salientamos, Freud também conhece os “impulsos do eu”; mas esta expressão já basta para indicar que sua idéia do sujeito é diametralmente diversa da dimensão especial que cabe ao sujeito na concepção adleriana.

Sem dúvida, ambos os cientistas vêem o sujeito em rela­ção ao objeto; mas que diferença no modo de ver essa rela­ção! Em Adler a ênfase é posta num sujeito que se afirma e procura manter sua superioridade sobre os objetos, sejam eles quais forem. Em Freud, ao contrário, a ênfase é posta inteiramente nos objetos, que, conforme suas características especiais, são proveitosos ou prejudiciais ao desejo de prazer do sujeito.

Esta disparidade não pode ser outra coisa senão uma dife­rença de temperamento, uma oposição entre dois tipos de espírito humano, num dos quais o efeito determinante provém preponderantemente do sujeito e no outro, do objeto. Uma po­sição mediana, que seria, digamos, a do senso comum, admi­tiria que a atuação humana é condicionada tanto pelo objeto quanto pelo sujeito. Ambos os estudiosos argumentam que sua teoria não pretende ser uma explicação psicológica do homem normal, mas uma teoria da neurose. Sendo assim, Freud de­veria explicar e tratar muitos dos seus casos pelo enfoque de Adler; este, por sua vez, deveria, em outros tantos casos, fazer sérias concessões aos pontos de vista defendidos por seu ex-professor. O que, no entanto, não foi o que se deu, nem com um nem com o outro.

Observando o dilema, eu me pergunto: será que existem pelo menos dois tipos diferentes de pessoas, um dos quais se interessa mais pelo objeto e o outro por si mesmo? E podemos dar-nos por satisfeitos com a explicação de que um deles só vê um lado e o outro só o outro e que por isso os resultados são diametralmente diferentes? Como já dissemos, seria absur­do admitir que o destino faça uma escolha tão sutil dos pa­cientes que cada grupo caia nas mãos do médico que lhe con­vém. Há muito tempo venho percebendo, tanto no que me diz respeito quanto em relação a meus colegas, que tratamos com relativa facilidade de certos casos, ao passo que em outros não há meio de acertar. É de importância capital para o tra­tamento o fato de que se estabeleça ou não uma boa relação entre o médico e o paciente. Caso não se crie um relaciona­mento natural e de confiança dentro de um curto espaço de tempo, é melhor que o paciente escolha outro médico. Tam­bém nunca me envergonhei de recomendar a outro colega um Paciente cujo tipo não se entrosasse com o meu ou me fosse antipático. Isto no próprio interesse do paciente, pois num caso assim estou certo de que o meu trabalho não seria bem feito. Todos temos as nossas limitações pessoais. Principalmente como terapeutas que somos, sempre é bom ter isso em ente. Diferenças pessoais muito grandes ou incompatibilidades geram resistências exageradas e supérfluas, que nem são justificadas. Na realidade, a controvérsia Freud/Adler não passa de um simples paradigma, um caso entre os muitos tipos de atitude possíveis.

Essa questão constituiu minha grande preocupação durante muito tempo. Finalmente, fundamentado em muitas observa­ções e experiências, cheguei a apresentar dois tipos básicos de comportamento ou de atitude, ou seja, a introversão e a extroversão. A primeira atitude, quando normal, é caracterizada por um ser hesitante, reflexivo, retraído, que não se abre com facilidade, que se assusta com os objetos e sempre está um pouco na defensiva, gostando de se proteger por trás do escudo de uma observação desconfiada. A segunda, quando normal, é caracterizada por um ser afável, aparentemente aberto, de boa vontade, que se adapta bem a qualquer situação, se rela­ciona facilmente com as pessoas e, não raro, se lança despreo­cupado e confiante em situações desconhecidas sem levar em conta a eventualidade de certos riscos. É evidente que no pri­meiro caso é o sujeito quem decide e no segundo o objeto.

Naturalmente, esses traços não passam de um esboço ru­dimentar dos dois tipos.1 Empiricamente, essas duas atitudes raramente são observadas em seu estado puro. Mais adiante voltarei ao assunto. Muitas vezes não é fácil determinar o tipo, porque há inúmeras variações e possibilidades de compensa­ção. Além das oscilações individuais, as variações podem ser determinadas pela predominância de uma das funções da cons­ciência, como o pensamento ou o sentimento, o que imprime um caráter especial na atitude básica. As freqüentes compen­sações que o tipo básico apresenta provêm em geral dos ensi­namentos da vida: aprendemos, às vezes depois de muito so­frer, que nem sempre podemos soltar as rédeas do nosso ser. Em outros casos, nos indivíduos neuróticos, por exemplo, mui­tas vezes não se sabe se estamos diante de uma atitude cons­ciente ou inconsciente, uma vez que, devido à dissociação da personalidade, ora aparece uma metade, ora outra, confundindo o nosso julgamento. Por essa mesma razão, é tão difícil con­viver com pessoas neuróticas.

As enormes diferenças entre os tipos, efetivamente existentes (descrevi oito grupos distintos no livro que acabo de citar)2 possibilitaram-me a compreensão das duas teorias controverti­das sobre a neurose como manifestações de tipos antagônicos.

1. O problema dos tipos foi elaborado no meu livro Psychologische Typen, Obras Completas, Vol. 6.

2. Não abrange, evidentemente, todos os tipos existentes. Outros critérios de dife­renciação são: idade, sexo, atividade, emocionalidade e nível de desenvolvimento. Fun­damento a minha caracterização dos tipos nas quatro funções de orientação da cons­ciência: sentimento, pensamento, sensação e intuição. Ver Psychologische Typen, 1950, p. 467ss, Obras Completas, Vol. 6, § 642ss.

Essa constatação redundou na necessidade de nos colocar-mos acima das posições antagônicas, criando uma teoria que fosse justa, não para com uma ou com a outra, mas para com as duas igualmente. Logo, é indispensável fazer a crítica de ambas as teorias apresentadas. Essas teorias, quando apli­cadas a ideais exaltados, atitudes heróicas, dramaticidade ou uma convicção profunda, são apropriadas para, através de um longo processo, trazê-los de volta à realidade banal do dia-a-dia. No entanto, elas não deveriam ser aplicadas a tais coisas, por­que as duas teorias são instrumentos pertencentes ao equipa­mento terapêutico, bisturis impiedosos e afiados usados pelo médico para extrair a parte doente e nociva do corpo do pa­ciente. Nietzsche, com sua crítica destrutiva dos ideais, pre­tendia fazer o mesmo, pois os considerava como excrescências doentias da alma da humanidade (há casos em que isso real­mente é verdade): Nas mãos de um médico habilidoso, de um verdadeiro conhecedor da alma humana, que tenha o “sen­tido das nuanças” (para empregar a expressão de Nietzsche), e aplicadas ao que está realmente doente numa alma, ambas as teorias são corrosivos salutares, quando usadas em dosagens apropriadas a cada caso. Tornam-se prejudiciais e perigo­sas em mãos inaptas para medir e avaliar. São métodos críti­cos e têm em comum com a crítica em geral o fato de serem bons onde algo deve e precisa ser destruído, dissolvido e redu­zido, mas só produzirão dano onde for necessário construir. Poderíamos deixar passar essas teorias sem alardear a res­to, visto que, como venenos medicinais, são confiadas às mãos seguras do médico.

A utilização proveitosa desses corrosivos requer um conhecimento excepcional da alma. É indispensável saber distinguir o doentio e inútil do que tem valor e precisa ser conservado. Isto simplesmente pertence ao rol das coisas mais difíceis. Quem quiser sofrer o impacto de uma leitura acerca dos enganos que podem ser cometidos por um médico “psicologizante” irresponsável que se baseie em preconceitos baratos e Pseudocientíficos, que estude o trabalho de Moebius 3 sobre Nietzsche, ou então os diversos tratados “psiquiátricos” sobre o “caso” de Cristo. Certamente tal pessoa exclamaria conosco: coitado do paciente que for “compreendi­do” dessa maneira!

3. Moebius, Paul Julius, Über das Pathologische bei Nietzsche, 1902.

As duas teorias da neurose não são gerais, mas sim “remédios de uso tópico”, dissolventes e redutivos. “Você não passa de…” — só sabem dizer isso. Explicam ao doente que os seus sintomas vêm daqui ou dali, não passam disso ou daquilo. Seria injusto afirmar que a redução não seja eficaz em certos casos. Mas promover a teoria redutiva a uma teoria global da essência, tanto da alma doente como da sadia, simplesmente não tem cabimento. Pois a alma humana, seja doente ou sã, não pode ser esclarecida apenas redutivamente. Não há dúvida de que Eros está sempre presente, sempre e em toda parte. Não há dúvida de que o impulso de poder penetra no que há de mais sublime e mais real na alma humana. Mas a alma não é só isso ou aquilo, ou, se preferirem, isso e aquilo, mas tam­bém tudo o que ela já fez e ainda vai fazer com isso. Uma pessoa só foi compreendida pela metade, quando se sabe a proveniência de tudo o que aconteceu com ela. Se fosse só isso, pouco importaria se já houvesse morrido há muito tempo. Como ser vivo, ela não foi compreendida, porque a vida não é só ontem nem fica explicada quando se reduz o hoje ao ontem. A vida também é amanhã; só compreendemos o hoje se pudermos acrescentá-lo àquilo que foi ontem e ao começo daquilo que será amanhã. Todas as manifestações psicológicas da vida são assim, inclusive os sintomas doentios. Pois os sin­tomas neuróticos não são efeitos de causas passadas, ou seja, da “sexualidade infantil” ou do “impulso de poder infantil”, mas também tentativas de uma nova síntese de vida. Tentativas frustradas, não resta dúvida, mas que nem por isso deixam de ser tentativas, com um germe de valor e sentido. São em­briões abortivos devido a condições desfavoráveis de natureza interna e externa.

O leitor perguntará, com certeza: diga-me, pelo amor de Deus, que valor e que sentido pode ter uma neurose, esse fla­gelo inútil e repugnante da humanidade! Ser nervoso — de que serve isso? Ora, provavelmente para as mesmas razões por que Deus criou as moscas e as demais pragas: para que o ho­mem se exercite na virtude da paciência. Por mais tolo que seja esse pensamento do ponto de vista da ciência, ele é sábio do ponto de vista da psicologia. É só substituir “pragas” Por “sintomas nervosos”. Até Nietzsche, com seu desmedido des­dém por tolices e banalidades, reconheceu mais de uma vez tudo quanto devia à sua doença. Já vi mais de uma pessoa cuja vida só teve utilidade e sentido graças a uma neurose, que a impedia de cometer todas as asneiras decisivas da vida, obrigando-a a levar uma existência que desenvolvesse seus ger­mes preciosos, que teriam sido sufocados caso a neurose, com mãos de ferro, não a tivesse colocado em seu devido lugar, pois bem, há pessoas cujo sentido e significado da vida jaz no inconsciente, sendo seu consciente só transvios e descami­nhos. Em outras pessoas se dá o contrário; sua neurose tam­bém tem outro significado. Neste caso, uma ampla redução é indicada, mas não no outro.

O leitor admitirá que em certos casos a neurose possa ter um sentido positivo, mas continuará negando que em todos os pequenos casos corriqueiros e banais possa ter uma fina­lidade de tão grande alcance e sentido. Perguntará, por exem­plo, qual o valor da neurose no caso anteriormente descrito de asma e estados histéricos de pavor. Concordo: neste caso, seu valor não é evidente, principalmente quando considerado do ponto de vista de uma teoria redutiva, isto é, do lado som­brio de um desenvolvimento individual.

Como vemos, ambas as teorias de que falamos têm em comum o fato de desvendarem impiedosamente o lado som­brio do homem. São teorias, ou melhor, hipóteses que nos ex­plicam em que consiste o fator que provocou a doença. Logo, tratam não dos valores de uma pessoa, mas dos seus desvalores, que sempre perturbam ao se manifestarem.

Um “valor” é uma possibilidade através da qual a energia pode chegar a desenvolver-se. No entanto, na medida em que um desvalor também é uma possibilidade de desenvolvimento da energia — e que se observa nitidamente na considerável energia inerente às manifestações neuróticas — também pode ser considerado um valor, mas um valor que proporciona ma­nifestações prejudiciais e inúteis de energia. A bem dizer, a energia em si não é boa nem má, nem útil nem prejudicial, mas neutra, posto que tudo depende da forma como a energia é aplicada. A forma é que dá qualidade à energia. Mas, por outro lado, a forma sem a energia também é neutra. Para que se produza um valor verdadeiro, é indispensável que haja ener­gia, de um lado, e, do outro, o valor da forma. Na neurose há energia psíquica 4, sem dúvida, mas numa forma inferior e não aproveitável.

4, Recomendo a leitura do meu livro Über psychische Energetik und das Wesen der Träume, 1948. Obras Completas, Vol. 8.

As concepções das duas teorias redutivas só servem para dissolver essa forma inferior. Neste ponto, agem como corrosivos. Assim, obtemos energia livre, mas neutra. Até hoje predominava a idéia de que essa energia recém-obtida ficava à disposição do consciente do enfermo, podendo ser por ele empregada do modo que lhe aprouvesse. Enquanto se con­siderava a energia como mera força do impulso sexual, fala­va-se em “sublimação” e utilização da mesma. Supunha-se que, com a ajuda da análise, o paciente fosse capaz de sublimá-la, isto é, de usá-la; não para exercer a sexualidade, mas para o exercício de uma arte ou outra atividade qualquer que fosse boa ou útil. Segundo este ponto de vista, o paciente tem a pos­sibilidade de realizar a sublimação das suas forças impulsivas de acordo com a sua vontade e a sua tendência.

Até certo ponto tal opinião tem sua razão de ser, na medida em que o homem tem condições de imprimir uma dire­triz específica e determinada à sua vida. Sabemos, no entanto, que não existe previsão humana ou filosofia de vida capaz de predeterminar o rumo da nossa vida, a não ser a curto prazo. Isto é válido apenas para o tipo de vida “comum”, não para o tipo “heróico”. Este último modo de vida também existe, mas é incontestavelmente mais raro do que o primeiro. E a ele não se aplica a afirmação que acabamos de fazer a res­peito de se imprimir a curto prazo um rumo definido à vida. O rumo da vida heróica é incondicional: são as decisões do destino que a orientam; pode ser que a resolução de seguir uma determinada direção se mantenha inabalável até o amargo fim. Mas, em geral, o médico só trata de pessoas humanas; raramente, de heróis voluntários. Nos casos de heroísmo, trata-se em geral de um suposto heroísmo, que não passa de obsti­nação infantil contra um destino mais forte, ou então de uma atitude presunçosa para encobrir um sentimento de inferiori­dade. No poderoso dia-a-dia há infelizmente pouco lugar para coisas fora dos padrões que sejam sadias. Há pouco lugar para o heroísmo ostensivo. Não que o desafio do heroísmo nunca bata à nossa porta. Muito pelo contrário! Enfrentar a vida cotidiana, com todas as suas exigências banais de dedicação, paciência, perseverança e sacrifícios, humildemente, sem visar o aplauso, sem grandes gestos heróicos — este é o nosso he­roísmo cotidiano, invisível para os outros. Maçantes, enfado­nhas exigências, que, quando não acolhidas, produzem neurose. Para escapar a elas, muitos já ousaram tomar a grande decisão da sua vida e levá-la a cabo sem se importar com a opinião alheia. Diante de um destino assim, só nos resta inclinarmo-nos. Mas, como dissemos, esses casos são raros; os outros constituem a grande maioria. O rumo dessas vidas não obedece a uma linha simples e bem traçada. O destino abre-se diante delas, confuso e com uma profusão de possibilidades. E no entanto só uma dessas possibilidades é a sua, o caminho certo. Quem se atreveria — por mais que conhecesse seu pró­prio caráter — a determinar de antemão essa única via possí­vel? Com força de vontade pode-se conseguir muita coisa, não resta a menor dúvida. Mas, considerando o destino de certas personalidades dotadas de grande força de vontade, é um erro fundamental querer submeter seu próprio destino à sua von­tade, a qualquer preço. Nossa vontade é uma função dirigida pela reflexão; logo, ela depende da qualidade da nossa refle­xão. A reflexão — a verdadeira reflexão — tem que ser racional, isto é, sensata. Mas já foi provado, ou será possível provar algum dia, que vida e destino concordam com a nossa razão humana ou são racionais?/Pelo contrário, temos base para sus­peitar que são irracionais ou, em última análise, que têm um fundamento que transcende a razão humana. A irracionalidade dos acontecimentos revela-se no que chamamos de acaso. Temos que negá-lo, evidentemente, porque não podemos pensar “a priori” em processo algum que não seja causal e necessaria­mente condicionado; logo, não pode ser também casual.5 Mas na prática o acaso sempre existe; aliás, de uma forma tão insistente que poderíamos tranqüilamente dispensar a nossa filosofia causal. A plenitude da vida tem normas e não as tem, é racional e irracional, por isso a razão e a vontade fundada na razão só têm validade em pequenos espaços da vida. Po­demos estar certos de uma coisa: quanto mais prolongarmos o rumo escolhido pela razão, tanto mais excluiremos a possi­bilidade de viver a vida irracional, que, no entanto, tem o mesmo direito de ser vivida. O fato de o homem ter chegado à condição de imprimir rumo à vida foi de inegável utilidade. Podemos afirmar, e com toda razão, que a maior vitória da sanidade foi a conquista da racionalidade. No entanto, não queremos dizer que isso deva continuar ou continue sempre assim, aconteça o que acontecer.

5. A física moderna pois fim a essa causalidade estrita. Só ficou a “probabilidade estatística”. Em 1916 eu já apontara a condicionalidade da interpretação causal na psicologia, o que na época, foi mal recebido. Ver Collected Papers on Analytical Psychology, 1920, 2ª edição, p. X e XV.

A terrível catástrofe da I Guerra Mundial veio frustrar por completo o mais otimista dos racionalistas culturais. Em 1913, Ostwald escrevia as se­guintes palavras: “O mundo inteiro concorda que o estado atual de paz armada é insustentável e que pouco a pouco a situação se tornará impossível. Está exigindo sacrifícios imensos de cada nação, que ultrapassam de longe as despesas destinadas a fins culturais e não acedem a quaisquer valores positivos. Se a humanidade encontrasse meios e caminhos de eliminar esses preparativos de guerras que nunca sobrevêm, essa imobilização de considerável parcela da nação na faixa de idade mais vigorosa e produtiva para fins de treinamento de guerra e os inú­meros prejuízos decorrentes do atual estado de coisas, seria possível obter uma economia de energias de tais proporções que, a partir daí, promoveria um florescimento imprevisível do desenvolvimento cultural. Pois a guerra é semelhante à luta pessoal para solucionar as contradições de vontades diferen­tes: o mais antigo de todos os recursos possíveis e, por isso mesmo, o mais inútil, o que acarreta o mais grave desperdício de energia. A total eliminação tanto da guerra potencial como da guerra real é inteiramente conforme ao espírito do impe­rativo energético, e é um dos mais importantes desafios à cul­tura dos nossos dias”.6

6. Wilhelm Ostwald, Die Philosophie der Werte, 1913, p. 312s.

Mas a irracionalidade do destino não quis o mesmo que a racionalidade dos pensadores bem intencionados. Quis muito mais do que a simples utilização dos soldados e das armas armazenadas: quis uma destruição monstruosa, tresloucada, uma chacina em massa, sem precedentes, para que a humani­dade eventualmente entendesse que a intenção racional só consegue dominar um dos lados do destino.

O que se diz da humanidade em geral também se aplica a cada indivíduo em particular, pois a humanidade é formada por um conjunto de indivíduos. A psicologia da humanidade corresponde à psicologia individual. A Guerra Mundial foi um terrível ajuste de contas com a intencionalidade racional da civilização. O que chamamos de “vontade” no indivíduo chama-se “imperialismo” nas nações, pois a vontade é a expressão do poder sobre o destino, isto é, a exclusão do acaso. Civilização é sublimação racional e “utilitária” de energias livres, produ­zida voluntária e intencionalmente. No indivíduo dá-se o mes­mo. Da mesma forma que a idéia de uma organização da cultura universal sofreu uma cruel advertência com esta guerra, sim o indivíduo também precisa aprender várias vezes em a vida que as chamadas energias “disponíveis” não são dis­poníveis a seu bel-prazer.

Nos EUA um empresário de uns 45 anos foi consultar-me. Seu caso ilustra muito bem o que acabei de dizer. Tratava-se de um típico “self-made man” americano, que tinha começado do nada e subira na vida por esforço próprio. Tinha sido muito bem sucedido em seus empreendimentos e fundara uma em­presa gigantesca. Pouco a pouco conseguira organizá-la de tal forma que lhe foi possível afastar-se de sua direção. Dois anos antes de me ver, havia se afastado da firma. Até então vivera exclusivamente para os negócios, concentrando nisso todas as suas energias, com a incrível intensidade e unilateralidade ca­racterísticas de um empresário americano bem sucedido. Ha­via comprado uma fazenda maravilhosa, onde tencionava “vi­ver”. Para ele “viver” significava cavalos, automóveis, golfe, tênis, festas, etc. Mas fizera a conta sem o dono do restau­rante. A energia em “disponibilidade” nada tinha a ver com essas perspectivas convidativas: encasquetou com algo bem diferente. Ao cabo de algumas semanas dessa vida nababesca, tão ardentemente desejada, começou a perscrutar obsessiva­mente estranhas e vagas sensações do corpo; algumas sema­nas mais bastaram para precipitá-lo numa hipocondria in­crível. Teve um colapso nervoso total. O homem sadio, que tinha uma força física incomum e uma extraordinária energia, transformou-se numa criança chorona. E com isso acabou-se toda a sua glória. Tinha um medo atrás do outro e as obses­sões hipocondríacas torturavam-no mortalmente. Foi consultar um famoso especialista, que logo reconheceu que o que faltava ao homem era trabalho. O paciente concordou e retomou seu lugar na empresa. Mas, para seu grande desespero, não conse­guiu mais sentir nenhum interesse pelos negócios. Nada ajudou: nem paciência, nem resolução. Por mais que fizesse, não conseguiu canalizar a energia de volta para os negócios. Como era de esperar, o seu estado agravou-se mais ainda. Tudo o antes era energia viva e produtiva, voltou-se contra ele, lenta e destrutivamente. Houve como que uma revolta de gênio criador contra ele mesmo. Assim como criara antes grandes organizações no mundo, agora seu demônio criava re­atados sistemas e mecanismos hipocondríacos que o arrasavam. Quando o vi, já era uma ruína moral, sem esperanças.

Em todo caso, tentei fazê-lo ver que é possível recolher a fabulosa energia como a que empregara no negócio, mas que a questão era: para onde canalizá-la? Pode acontecer que nem mesmo os mais belos cavalos, os carros mais velozes e as festas mais divertidas sejam um atrativo para a energia. No entanto, era razoável pensar que uma pessoa que dedicara uma vida inteira a um trabalho sério tivesse um direito na­tural aos prazeres da vida. Sim, se o destino se comportasse de acordo com o bom senso humano, é assim que deveria ser: primeiro, o trabalho; depois, o descanso bem merecido. Mas na realidade as coisas que acontecem são irracionais. A ener­gia tem o inconveniente de exigir um fluxo adequado para se produzir; caso contrário, fica represada e torna-se destrutiva. Regride a situações anteriores: no presente caso, à lembrança de uma infecção sifilítica que contraíra 25 anos antes. Mas isto também não passava de uma das etapas no caminho de reviver as reminiscências infantis, que nesse meio tempo se haviam praticamente esvaído. A sua primitiva relação com a mãe é que orientou sua sintomatologia. Tratava-se de um “me­canismo” para despertar a atenção e o interesse da mãe (há muito falecida). E esta não foi a última etapa, pois a meta era obrigá-lo a voltar ao próprio corpo, depois de ter vivido só com a cabeça desde a juventude. Um dos lados do seu ser se diferenciara, deixando o outro retido num estado de torpor corporal. Precisava desse outro lado para poder “viver”. A “depressão” hipocondríaca forçava-o, por assim dizer, a tomar conhecimento do corpo, que sempre havia ignorado. Se ele tivesse tido condições de entender o sentido da depressão e da ilusão hipocondríaca e de conscientizar-se das fantasias re­sultantes de um tal estado, teria sido a salvação. Naturalmente, não fui correspondido no amor pelos meus argumentos, como era de se esperar. O caso estava avançado demais para que se pudesse contar com uma perspectiva de cura. Só lhe res­tava continuar o tratamento até a morte.

Este caso mostra claramente que não está em nossas mãos encaminhar uma energia “disponível”, à vontade, para um obje­to de nossa escolha. Com as energias aparentemente disponí­veis, obtidas após a destruição das suas formas inaproveitáveis pelos corrosivos da redução, dá-se em geral exatamente o mes­mo. Como já dissemos, no melhor dos casos essa energia pode ser utilizada da forma que a vontade determina, mas só porum curto espaço de tempo. Quase sempre ela se recusa a seguir as possibilidades racionalmente propostas pelo tempo fora. A energia psicológica tem o capricho de querer satis­fazer suas próprias exigências. Por maior que seja a quanti­dade de energia existente, não podemos aproveitá-la enquanto não conseguirmos estabelecer um fluxo.

O problema do fluxo é uma questão eminentemente prá­tica que se coloca na maioria das análises. Por exemplo, no caso propício de haver um encaminhamento da energia dis­ponível, a chamada libido 7, para um objeto razoável, a nossa tendência é acreditar que a transformação foi operada por um esforço consciente da vontade. Mas nos enganamos redon­damente. Nem com o maior esforço do mundo conseguiríamos isso, se já não houvesse simultaneamente um fluxo natural no mesmo sentido. A importância do fluxo é constatada quan­do, apesar dos mais desesperados esforços e de o objeto esco­lhido e a forma desejada serem os mais convincentes e sen­satos possíveis, não se consegue operar a transformação, pro­duzindo apenas uma nova repressão.

7. O Leitor deve ter percebido, pelo que ficou dito até agora, que eu utilizo o conceito da libido introduzido por Freud (e que se adapta muita bem à prática), num sentido mais amplo que o seu. Libido significa energia psíquica, para mim, ou o mesmo que intensidade energética de conteúdos psíquicos. Freud identifica a libido com Eros, concordando com o seu pressuposto teórico, e quer vê-la distinta de uma energia psíquica geral. Diz o seguinte: |Gesammelte Schriften, Vol. 5, p. 92|: “Estabelecemos o conceito da libido como sendo uma força quantitativamente variável, que mediria transformações no campo da excitação sexual. Diferenciamos Em t da energia que deve estar na origem dos processos psíquicos em geral..”

Em outra parte Freud menciona que lhe falta “um termo análogo a libido” para o impulso de destruição. Como o referido impulso de destruição também é um fenômeno energético, parece-me mais simples definir a libido como um conceito geral de intensidades psíquicas, ou simplesmente como energia psíquica. Ver Symbole der Wandlung, 1952, p. 218ss. Obras Completas, Vol. 5; e Über psychische Energetik und das Wesen der Träume, 1948, p. 7ss, Obras Completas, Vol. 8

Estou mais do que convencido de que o caminho da vida só continua onde está o fluxo natural. Mas nenhuma energia é produzida- onde não houver tensão entre contrários; por isso, é preciso encontrar o oposto da atitude consciente. É interes­sante verificar como essa compensação dos opostos também teve sua função na história da teoria da neurose: a teoria de Freud representa Eros; a de Adler, o poder. Pela lógica, o con­trário do amor é o ódio; o contrário de Eros, Phobos (o medo). Mas, psicologicamente, é a vontade de poder. Onde im­pera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro. Quem se encontra do ponto de vista de Eros procura o con­trário, que o compensa, na vontade de poder. Mas quem põe a tônica no poder, compensa-o com Eros. Visto do ponto de vista unilateral da atitude consciente, a sombra é uma parte inferior da personalidade. Por isso, é reprimida; e devido a uma intensa resistência. Mas o que é reprimido tem que se tornar consciente para que se produza a tensão entre os contrários, sem o que a continuação do movimento é impossível. A cons­ciência está em cima, digamos assim, e a sombra embaixo, e como o que está em cima sempre tende para baixo, e o quente para o frio, assim todo consciente procura, talvez sem per­ceber, o seu oposto inconsciente, sem o qual está condenado à estagnação, à obstrução ou à petrificação. É no oposto que se acende a chama da vida.

Foram concessões à lógica intelectual, por um lado, e ao preconceito psicológico, por outro, que levaram Freud a qua­lificar o contrário de Eros como impulso de destruição e morte. Ora, antes de mais nada, Eros não é sinônimo de vida. Mas quem pensa assim evidentemente acha que o seu con­trário é a morte. Em segundo lugar, o oposto do seu princípio supremo é, para todo o mundo, aparentemente, o princípio de destruição, a morte, o mal pura e simplesmente. A pessoa não o julga capaz de uma força positiva de vida, por isso o teme e evita.

Como vimos, existem muitos princípios supremos de vida e de filosofia, com suas respectivas formas de contrários com­pensatórios. Já salientei dois tipos de contrários, que, a meu ver, são os principais. Designei-os como tipos introvertidos e extrovertidos. William James 8 já havia notado a existência des­ses dois tipos entre os pensadores. Classificara-os em “tender-minded” e “tough-minded”. Ostwald 9 também propôs para os grandes sábios uma distinção análoga: o tipo clássico e o tipo romântico. Escolhi esses dois nomes entre muitos outros só para mostrar que não me encontro isolado nesta minha idéia dos tipos. Provei, com minhas pesquisas históricas, que um grande número de importantes questões e conflitos na história do espírito repousam na oposição desses dois tipos. A mais significativa dessas questões é a oposição entre nominalismo e realismo, que começou com a divergência entre as escolas pla­tônica e megárica e foi herdada pela filosofia escolástica. Abe­lardo teve então o grande mérito de, pelo menos, tentar uni­ficar os pontos de vista opostos no conceitualismo.10 Essa con­trovérsia continuou até nossos dias, manifestando-se na oposição entre idealismo e materialismo.

8. Pragmatism, 1911.

9. Grosse Münner, 1910.

10. Psychologische Typen, 1950, p. 64ss, Obras Completas, Vol. 6 § 65ss.

Como na história do espí­rito em geral, assim também cada indivíduo participa por sua vez dessa oposição entre os tipos. Uma pesquisa mais cuida­dosa revelou que os casamentos se fazem de preferência entre esses dois tipos, inconscientemente, para uma complementação recíproca. A natureza reflexiva do introvertido leva-o a refletir ou a meditar sempre antes de agir. Sua atuação é, evidente­mente, mais lenta. Pela timidez e desconfiança diante dos obje­tos é, evidentemente, mais lenta. Pela timidez e desconfiança diante dos objetos, é levado a hesitar e sempre encontra difi­culdades em adaptar-se ao mundo exterior. Inversamente, o extrovertido tem um relacionamento positivo com as coisas. Ele é, por assim dizer, atraído por elas. É tentado por situa­ções novas e desconhecidas. Chega a se lançar de corpo e alma em coisas novas, só para conhecê-las. Em geral, age primeiro e só depois reflete. Sua ação é rápida, sem hesitações ou escrúpulos. Ambos os tipos são como que criados para uma simbiose. Um encarrega-se da reflexão; o outro, da iniciativa e da ação prática. Quando se casam, esses dois tipos podem formar um casal ideal. Enquanto estão totalmente absorvidos com a adaptação às inúmeras necessidades da vida, combinam maravilhosamente bem. Mas depois que o homem ganhou di­nheiro suficiente ou quando uma herança importante lhes cai do céu e faz cessar a necessidade externa, eles têm tempo para se preocupar um com o outro. Antes disso, voltavam as costas um para o outro e lutavam pela sobrevivência. Agora, porém, voltam-se um para o outro, querem entender-se e des­cobrem que nunca houve entendimento entre eles. Cada qual fala uma língua diferente. Assim se instala a briga entre os dois tipos. Briga violenta, cheia de veneno e de acusações de­preciativas e recíprocas, mesmo quando recônditas e inconfessas; pois o valor de um é desvalor do outro. Seria razoável Pensar que a consciência do próprio valor poderia bastar para conhecer tranqüilamente o valor do outro, tornando supérflua qualquer disputa. Vi grande número de pessoas argumen­to assim, sem no entanto chegar a qualquer resultado satisfatório. Quando se trata de pessoas normais, esse tempo transição é mais ou menos bem superado. Normal é a pessoa que simplesmente consegue viver, quaisquer que sejam as circunstâncias, contanto que lhe sejam garantidas as condições mínimas de vida. Mas muitos não o conseguem; por isso não existem muitas pessoas normais. O que comumente entendemos por “homem normal” é, na realidade, o homem ideal, portador de uma feliz mistura de caráter — o que é raríssimo. A grande maioria das pessoas mais ou menos dife­renciadas requer condições de vida que lhes garantam algo mais do que simplesmente comer e dormir com relativa segu­rança. Para essas, o fim de uma relação simbiótica representa um abalo profundo.

Não é fácil entender por que deve ser assim. Considerando que nenhum ser humano é exclusivamente introvertido nem ex­clusivamente extrovertido, ambas as atitudes existem dentro dele, mas só uma delas foi desenvolvida como função de adap­tação; logo, podemos supor que a extroversão cochila no fundo do introvertido, como uma larva, e vice-versa. Pois bem, é exa­tamente isso o que acontece. O introvertido tem em si uma parte extrovertida, inconsciente, porque os olhos de sua cons­ciência estão sempre voltados para o sujeito. Aliás, ele vê o objeto, mas tem imagens errôneas ou inibitórias a respeito, de modo que sempre se mantém o mais distante possível, como se o objeto fosse algo poderoso e perigoso. Quero esclarecer, através de um exemplo, o que acabo de dizer: dois rapazes caminham juntos pelo campo. Chegam a um castelo maravi­lhoso. Ambos gostariam de ver o castelo por dentro. O intro­vertido diz: “Gostaria de saber como é por dentro”. O extro­vertido, por sua vez, diz: “Vamos entrar”; e vai entrando pelo portão. O introvertido o detém: “Talvez seja proibida a entra­da”, imaginando vagamente uma série de represálias, como vio­lências policiais, multas, cachorros brabos, etc. Ao que o outro replica: “Podemos perguntar, na certa l vão nos deixar entrar”, imaginando velhos porteiros afáveis, castelões hospitaleiros e possíveis aventuras românticas. Graças ao otimismo do extrover­tido, conseguem realmente entrar no castelo. Mas agora começa a peripécia. O castelo foi reformado por dentro. Só tem umas poucas salas, com uma coleção de velhos manuscritos. Por acaso, essa é a paixão do rapaz introvertido. Mal chega a vê-los, fica como que transformado, absorto na contemplação dos te­souros, suas palavras exprimindo entusiasmo. Envolve o guar­da numa conversa, para obter mais informações. Como as res­postas do guarda não o satisfazem, ele pergunta pelo conser­vador e sai imediatamente à sua procura, para continuar a investigação. Mas, enquanto isso, a animação do extrovertido vai diminuindo cada vez mais; vai ficando de cara comprida e começa a bocejar. Nada de porteiros afáveis, nada de hospitalidade cavalheiresca, nem sombra de aventuras românticas: apenas um castelo reformado. Não precisava ter saído de casa para ver manuscritos. Enquanto cresce o entusiasmo de um, vai acabando a disposição do outro; o castelo o aborrece, os manuscritos cheiram a biblioteca, a biblioteca faz com que se lembre da faculdade, a faculdade é associada a estudo, exames: uma ameaça. Pouco a pouco, um véu sombrio vai descendo sobre o castelo, antes tão interessante e atraente. O objeto fica negativo. “Não é formidável”, exclama o introvertido, “desco­brir essa coleção maravilhosa assim por acaso?” “Eu estou achando isso aqui muito sem graça”, responde o outro, sem esconder o seu mau humor. Isso irrita o primeiro, que resolve para si mesmo: “Nunca mais vou viajar com esse sujeito!” O extrovertido, por sua vez, fica irritado com a irritação do com­panheiro, pensa que sempre achara o outro um perfeito egoísta, sem a menor consideração pelos outros. “Onde já se viu des­perdiçar a linda primavera lá fora! Poderíamos estar aprovei­tando! E tudo por causa dessa curiosidade egoísta!”

Que foi que aconteceu? Ambos caminham juntos em alegre simbiose, até chegarem ao castelo fatal. Lá dizia o introvertido “pré-meditativo” (prometéico): “Poderíamos vê-lo por dentro”. O extrovertido ativo e “pós-meditativo” (epimetéico) abriu o caminho.11Nessa altura, o tipo se inverte: o introvertido, que hesitava em entrar, não quer mais sair e o extrovertido amal­diçoa o momento em que entrou no castelo. O primeiro fica fascinado pelo objeto; o segundo, por seus pensamentos nega­tivos. No instante em que o primeiro avistou os manuscritos, já estava perdido. Sua timidez desapareceu, o objeto tomou posse dele: entregou-se documente. Em compensação, o segun­do sentiu uma resistência crescente em relação ao objeto e, finalmente, fez-se cativo do seu sujeito mal humorado. O pri­meiro tornou-se extrovertido; o segundo, introvertido. Enquantoos dois caminhavam juntos na mais alegre harmonia, um não perturbava o outro, porque cada qual estava “na sua”, Ruralmente. Eram positivos um para o outro, porque as suas atitudes se complementavam. Mas complementavam-se porque a atitude de um sempre compreendia a do outro. A rápida conversa que tiveram é ilustrativa: ambos querem entrar no castelo. a dúvida do introvertido quanto à permissão para entrar também serve para o outro. A iniciativa tomada pelo extrovertido também é de utilidade para o introvertido. A atitude de um também inclui o outro, e isso é quase sempre assim, quando um indivíduo está na atitude que lhe é natural, porque essa atitude se adapta coletivamente, por assim dizer. Com a atitude do introvertido também se dá o mesmo, apesar de que ela sempre parte do sujeito; vai sempre só do sujeito para o objeto, enquanto que a atitude do extrovertido vai do objeto para o sujeito.

11. Ver meus comentários a respeito de Prometeu e Epimeteu de Spitteler, em PsychologischeTypen, 1950, p. 227ss, Obras Completas, Vol. 6 § 261ss.

Mas, assim como no introvertido o objeto sobrepuja o sujeito, atraindo-o, sua atitude perde o caráter social. Esquece-se da presença do amigo; não o inclui mais. Submerge no objeto e não vê quanto o amigo se aborrece. E vice-versa: o extrover­tido perde a consideração para com o outro no momento em que sua expectativa não é satisfeita, retraindo-se em suas idéias e humores subjetivos.

Assim sendo, o acontecido pode ser formulado da seguinte maneira: por influência do objeto, apareceu uma extroversão inferior no introvertido, ao passo que uma introversão inferior substituiu a atitude social do extrovertido. Dessa forma, volta­mos à frase que nos serviu de ponto de partida: o valor de um é o desvalor do outro.

Acontecimentos positivos ou negativos podem trazer à tona a função contrária inferior. Sobrevindo isso, manifesta-se a hiper sensibilidade. A hiper sensibilidade é sintoma da existência de uma inferioridade. Assim se estabelecem as bases psicológi­cas da desunião e da incompreensão, não só entre duas pes­soas, como também da cisão dentro de si mesmo. Aliás, a na­tureza da função inferior 12 é caracterizada pela autonomia; é independente, ela nos acomete, fascina e enleia, a ponto de deixarmos de ser donos de nós mesmos e não nos distinguir­mos mais exatamente dos outros.

12. Ver Psychologische Typen, 1950, p. 615s., Obras Completas, Vol. 6 § 261ss.

Mesmo assim, é necessário para o desenvolvimento do caráter que esse outro lado, justamente essa função inferior, também possa manifestar-se. Não podemos permitir que outra pessoa se encarregue permanentemente, simbioticamente, de um dos lados da nossa personalidade. De um momento para outro podemos precisar da outra função, como no exemplo acima, e não estaríamos preparados. As conseqüências podem ser gra­víssimas: o extrovertido perde a sua relação indispensável cora os objetos e o introvertido, a sua, com o sujeito. Por outro lado, é indispensável que a ação do introvertido não seja cons­tantemente inibida por preocupações e hesitações e que o ex­trovertido possa meditar sobre si mesmo, sem prejudicar as suas relações.

Vê-se por aí que a extroversão e a introversão são duas atitudes naturais, antagônicas entre si, ou movimentos dirigi­dos, que já foram definidos por Goethe como diástole e sístole. Em sucessão harmônica, deveriam formar o ritmo da vida. Al­cançar esse ritmo harmônico supõe uma suprema arte de viver. Ou ser totalmente inconsciente, para que nenhum ato cons­ciente venha perturbar a lei natural, ou ser tão altamente cons­ciente, a ponto de ser capaz de querer e poder executar tam­bém os movimentos opostos. Como não podemos retroceder para a inconsciência animal, só nos resta avançar no difícil caminho evolutivo em direção a uma consciência maior. É ver­dade que essa consciência — a que permite viver o grande Sim e o grande Não da vida em liberdade e intenção — é decidi­damente um ideal sobre-humano. (Mesmo assim, não deixa de ser uma meta final. O estágio espiritual do nosso tempo con­sente apenas em querer conscientemente o Sim e em, pelo me­nos, suportar o Não. Conseguir isso já é uma enorme conquista.

O problema dos opostos como princípio inerente à natu­reza humana constitui uma etapa a mais no desenvolvimento do nosso processo de autoconhecimento. Em geral, é um pro­blema da idade madura. O tratamento prático de um paciente nunca vai começar por este problema — principalmente o de um jovem. Comumente, as neuroses juvenis são produzidas por um choque entre as forças da realidade e uma atitude infantil insuficiente, caracterizada, em sua causa, por uma dependência anormal de pais reais ou imaginários e, em sua meta, por uma criatividade deficiente, isto é, por propósitos e ambições adequados. Neste caso as reduções de Freud e Adler são per­feitamente indicadas. Mas existem muitas neuroses que só aparecem na idade madura ou que se agravam de tal forma que os pacientes se tornam incapacitados para o trabalho. Nestes casos é fácil comprovar que já existia em sua juventude uma excessiva dependência dos pais, bem como uma série de ilusões infantis, sem que isso impedisse a escolha de uma profissão, seu exercício bem sucedido e o casamento, um casamento levado aos trancos e barrancos, até que na idade madura a atitude mantida até então entra em colapso. Obviamente, num caso desses, a conscientização das fantasias infantis, da dependência dos pais, etc, de nada adianta, embora seja uma parte necessária do processo, e geralmente não tem efeitos prejudi­ciais. No fundo, a terapia só começa realmente quando o pa­ciente vê que quem lhe barra o caminho não é mais pai e mãe, mas sim ele próprio, isto é, uma parte inconsciente de sua per­sonalidade que continua desempenhando o papel de pai e mãe. Por maior que seja a utilidade deste conhecimento, ele ainda é negativo, pois diz apenas: “Reconheço que não são meus pais que estão contra mim, mas eu mesmo”. Mas quem é que se opõe nele? Que parte misteriosa de sua personalidade é essa que se escondeu por detrás das imagens de pai e mãe e que por tanto tempo o fez acreditar que a origem do seu mal o atacou de fora? Esta parte é o oposto da sua atitude cons­ciente, não lhe dará sossego e o perturbará até que seja aceita. Não há dúvida de que nos jovens libertar-se do passado já é suficiente; porque ainda têm um futuro promissor e cheio de possibilidades pela frente. Basta soltar umas amarras; o ím­peto da vida fará o resto. Mas o problema é diferente para as pessoas que já deixaram boa parte da vida para trás, a quem o futuro não acena mais com fabulosas promessas, que nada mais esperam da vida senão os velhos e habituais deveres e os prazeres duvidosos da velhice.

O jovem que consegue livrar-se do passado vai transferindo as imagens dos pais a figuras que os substituam mais adequa­damente: o sentimento de apego à mãe passa para a mulher, e a autoridade do pai, a professores e superiores que merecem seu respeito, ou então a instituições. Não é uma solução fun­damental, mas um caminho prático, que também é percorrido pela pessoa normal, inconscientemente e, por isso mesmo, sem inibições ou resistências consideráveis.

Mas o problema do adulto, que já completou esse trecho do caminho com maior ou menor dificuldade, é diferente. Pro­curou a mãe na mulher, o pai no marido, e encontrou-os. Hon­rou antepassados e instituições. Por sua vez, tornou-se pai e mãe e talvez já tenha ultrapassado esta fase. De repente viu que o que antes significava para ele progresso e satisfação não passa de engodo, restos de ilusão infantil. Olha agora paratudo isso com um misto de desencanto e inveja, porque à sua frente só se descortina a perspectiva da velhice, o fim de todas as ilusões. Não há mais lugar para pai ou mãe. Todas as ilusões que projetou no mundo e nas coisas retornam a ele, pouco a pouco, cansadas, desgastadas. A energia de todas essas relações lhe é restituída e entregue ao inconsciente, onde vivifica tudo quanto até então deixara de desenvolver.

Os impulsos, antes acorrentados na neurose, quando liber­tos, enchem o jovem de brio e esperança, dando-lhe a possibi­lidade de abrir-se mais para a vida. Na segunda metade da vida odesenvolvimento da função dos contrários, adormecida no inconsciente, significa renovação de vida. No entanto, este de­senvolvimento não se faz mais através da solução de ligações infantis, da destruição de ilusões infantis e da transferência das imagens antigas para novas figuras, mas passa pelo pro­blema dos contrários.

O princípio dos opostos já está, naturalmente, na base do espírito jovem. Qualquer teoria psicológica sobre a psique in­fantil deveria levar em conta esse dado da realidade. Os pontos de vista de Freud e Adler, portanto, só são contraditórios quan­do pretendem valer como teorias globais. Mas, na medida em que se contentarem com o título de técnicas auxiliares, já não entram em contradição nem se excluem mutuamente. A teoria psicológica que quiser ser mais do que simples técnica auxiliar tem que basear-se no princípio dos contrários, pois sem ele só reconstruiria psiques neuróticas desequilibradas. Não há equilíbrio nem sistema de auto-regulação sem oposição. E a psique é um sistema de auto-regulação.

Retomando o fio que deixamos para trás, podemos dizer que agora ficou esclarecido por que a neurose contém justa­mente os valores que faltam ao indivíduo. E também podemos voltar ao caso daquela jovem senhora e a ele aplicar os conhe­cimentos adquiridos. Suponhamos que essa doente seja “ana­lisada”. No decorrer do tratamento vai percebendo os pensa­mentos inconscientes encobertos pelos sintomas. Vai recupe­rando, assim, a energia inconsciente que era toda a força dos sintomas. Coloca-se então a questão prática: o que vai acontecer com a energia disponível? De acordo com o tipo psicológico da doente, seria razoável transferir novamente essa energia para um objeto tal como uma atividade filantrópica ou outra ocupação de utilidade. Este caminho é a exceção. Só é possível a pessoas dotadas de energia especial, capazes de doação total, ou a pessoas com disposição natural para atividades desse tipo. Na maioria dos casos, porém, não é o que acontece. É preciso não esquecer que a libido (energia psíquica) já possui o seu objeto no inconsciente — nesse caso, o rapaz italiano ou um ser humano real que o substitua. Assim sendo, por mais desejável que seja uma tal sublimação, ela é evidente­mente impossível. Pois em geral o objeto real oferece um fluxo melhor à energia do que uma atividade ética, por mais bela que seja. Infelizmente, há muita gente falando do homem, mas sempre do homem ideal, de como seria bom que ele fosse, mas nunca do homem tal como ele é na realidade. Mas o mé­dico sempre lida com o homem real, que vai teimar em con­tinuar o mesmo, até que sua realidade seja inteiramente aceita. A educação só pode ser feita a partir da realidade nua, não de uma imagem real deturpada.

Infelizmente, em geral, o rumo a ser tomado pela “energia disponível” não pode ser indicado pela nossa vontade. Ela se­gue o seu fluxo. Aliás, já o tinha encontrado antes de estar completamente desligada da sua forma inaproveitável, porque descobrimos que as fantasias da paciente, que antes giravam em torno do italiano, foram transferidas para o médico.13 Por isso o próprio médico tornou-se o objeto da libido inconsciente. Caso a doente se recuse terminantemente a reconhecer a trans­ferência 14, ou caso o médico não compreenda o fenômeno ou o entenda mal, aparecerão resistências violentas que vão im­possibilitar qualquer relação com o médico. Os doentes não voltam mais, procuram outro médico ou então uma pessoa que os entenda, ou ainda, quando desistem de procurar, ficam ato­lados no problema.

13. Freud introduziu o conceito de transferência para definir as projeções de con­teúdos inconscientes.

14. Contrariamente à opinião de alguns, não estou convencido de que a “transferência para o médico” seja um fenômeno constante e indispensável ao bom êxito da terapia. Transferência é projeção, e a projeção está ou não presente. Necessária ela não é. Em hipótese alguma, pode ser “forjada”; pois, por definição, ela nasce de motivações inconscientes. O médico pode ser a pessoa indicada para a projeção, ou não. Nada nos faz afirmar que ele corresponde necessariamente ao fluxo natural da libido do cliente; pois é bem possível que este último tenha vagamente em vista um objeto de projeção bem mais importante. Às vezes, a não-projeção no médico pode até facilitar consideravelmente a terapia, pois, neste caso, os valores pessoais reais passam a ocupar mais nitidamente o primeiro plano.

Mas se a transferência se der e for aceita, então vai-se en­contrar não só uma forma natural de substituir a antiga forma, mas também uma possibilidade de dar vazão ao processo ener­gético relativamente isento de conflitos. Logo, quando se per­mite que a libido siga o seu curso natural, ela encontrará por si só o caminho para o objeto que lhe é destinado. Quando isso não acontece é porque a vontade rebelou-se contra as leis da natureza ou porque houve interferências prejudiciais.

Na transferência primeiramente são projetadas fantasias infantis de toda espécie e estas têm que ser corroídas, ou me­lhor, dissolvidas pela redução. A isso deu-se o nome de solução da transferência. Dessa maneira também se liberta a energia da sua primitiva forma inaproveitável, e mais uma vez nos encontramos diante do problema da energia disponível. Con­fiemos de novo na natureza, que — antes de o procurarmos — já escolheu o objeto capaz de proporcionar-lhe o fluxo adequado.

V O inconsciente pessoal o inconsciente suprapessoal ou coletivo

NESTE ponto se inicia uma nova etapa no processo do conhecimento de si. A dissolução analítica das fantasias de transferência infantis tinha prosseguido até o momento em que o próprio paciente reconheceu claramente que para ele o mé­dico tinha sido pai, mãe, tio, tutor, professor, ou outra das formas usuais de autoridade paterna. No entanto, a experiên­cia tem mostrado insistentemente o aparecimento de outro tipo de fantasia: o médico fica investido das funções de sal­vador ou ente com características divinas, contrariando frontalmente a razão sadia da consciência. Pode acontecer também que esses atributos divinos não se limitem ao quadro cristão em que fomos criados e adotem, por exemplo, formas pagas, teriomórficas (formas animais).

A transferência em si nada mais é do que uma projeção de conteúdos inconscientes. Primeiro são projetados os con­teúdos chamados superficiais do inconsciente, reconhecidos atra­vés de sonhos, sintomas e fantasias. Neste estado o médico interessa como um amante eventual (mais ou menos como o rapaz italiano daquele caso). A seguir, aparece preponderante­mente como pai: pai bondoso ou furibundo, conforme as qua­lidades que o pai verdadeiro tinha para o paciente. Uma vez ou outra o médico também recebe atributos maternos, o que já pode parecer estranho, mas ainda está dentro dos limites do possível. Todas essas projeções de fantasias são calcadas em reminiscências pessoais.

Finalmente, podem surgir fantasias de caráter exaltado. Nestes casos o médico fica dotado de propriedades sobrena­turais. Torna-se um bruxo, um criminoso demoníaco, ou então o bem correspondente: um verdadeiro salvador. Também P°^e aparecer como uma mistura de ambos. Entenda-se bem: tudo isso não se passa necessariamente no consciente do paciente. São fantasias que surgem e representam o médico sob essas formas. Muitas vezes, não entra na cabeça de tais pacientes que na realidade essas fantasias provêm deles mesmos e nada ou muito pouco têm a ver com o caráter do médico. Este en­gano ocorre por não existirem bases de reminiscências pessoais para este tipo de projeção. Ocasionalmente podemos provar que em determinado momento de sua infância tiveram fanta­sias semelhantes em relação ao pai e à mãe, sem que os mes­mos tivessem realmente dado motivo para isso.

Freud demonstrou, num pequeno trabalho, como a vida de Leonardo da Vinci tinha sido influenciada pelo fato de ele ter tido duas mães. O fato das duas mães, ou da dupla filia­ção, era real na vida de Leonardo. Embora imaginária, outros artistas também sofreram a influência da dupla filiação. Benvenuto Cellini, por exemplo, teve fantasias a respeito dessa du­pla filiação. Aliás, este é um tema mitológico. Muitos heróis legendários tiveram duas mães. A fantasia não vem do fato de os heróis terem duas mães, mas de uma imagem universal “primordial”, pertencente aos segredos da história do espírito humano e não à esfera da reminiscência pessoal.

Afora as recordações pessoais, existem em cada indivíduo as grandes imagens “primordiais”, como foram designadas acertadamente por Jakob Burckhardt, ou seja, a aptidão hereditá­ria da imaginação humana de ser como era nos primórdios. Essa hereditariedade explica o fenômeno, no fundo surpreen­dente, de alguns temas e motivos de lendas se repetirem no mundo inteiro e em formas idênticas, além de explicar por que os nossos doentes mentais podem reproduzir exatamente as mesmas imagens e associações que conhecemos dos textos antigos. Meu livro Wanlungen und Symbole der Libido 2 contém alguns exemplos. Isso não quer dizer, em absoluto, que as imaginações sejam hereditárias; hereditária é apenas a capaci­dade de ter tais imagens, o que é bem diferente.

Logo, neste estágio mais adiantado do tratamento, em que as fantasias não repousam mais sobre reminiscências pessoais, trata-se da manifestação da camada mais profunda do inconsciente onde jazem adormecidas as imagens humanas universais e originárias. Essas imagens ou motivos, denominei-os arquétipos 3(ou então «dominantes”).

1 Eine Kindheitserinnerung des Leonardo da Vinci, 1910.

2.Nova edição: Symbole der Wandlung, 1952. Obras Completas, Vol. 5. Ver também über den Begriff des Kolletktiven Unbewussten, 1936. Obras Completas, Vol. 9.

3. Para esclarecer esse conceito, posso indicar os seguintes trabalhos, dos quais se depreende o desenvolvimento posterior do conceito: Symbole der Wandlung, 1952. Obras Completas, Vol. 5. Psychologische Typen, 1950, p. 567ss. Obras Completas, Vol. 6 § 759ss. Ver também Von den Wurzeln des Bewusstseins, 1954; os ensaios über die Archetypen des Kollektiven Unbewussten, p. 3ss. Über den Archetypus mit Besonderer Berücksichtt-les Animabegriffs, p. 57ss.; Die psychologischen Aspekte des Mutter-Archetypus,p. 87; Obras Completas, Vol. 9, I. Comentário sobre Willhelm, Das Geheimnis der goldenen Blüte, 1928, Obras Completas, Vol. 13

Essa descoberta significa mais um passo à frente na interpretação, a saber: a caracterização de duas camadas no incons­ciente. Temos que distinguir o inconsciente pessoal do incons­ciente impessoal ou suprapessoal. Chamamos este último de inconsciente coletivo 4, porque é desligado do inconsciente pes­soal e por ser totalmente universal; e também porque seus conteúdos podem ser encontrados em toda parte, o que obvia­mente não é o caso dos conteúdos pessoais. O inconsciente pessoal contém lembranças perdidas, reprimidas (propositalmente esquecidas), evocações dolorosas, percepções que, por assim dizer, não ultrapassaram o limiar da consciência (subliminais), isto é, percepções dos sentidos que por falta de in­tensidade não atingiram a consciência e conteúdos que ainda não amadureceram para a consciência. Corresponde à figura da sombra 5, que freqüentemente aparece nos sonhos.

As imagens primordiais são as formas mais antigas e universais da imaginação humana. São simultaneamente sentimen­to e pensamento. Têm como que vida própria, independente, mais ou menos como a das almas parciais 6, fáceis de serem encontradas nos sistemas filosóficos ou gnósticos, apoiados nas percepções do inconsciente como fonte de conhecimento. A idéia dos anjos e arcanjos, dos “tronos e potestades” de Paulo, dos arcontes dos gnósticos, das hierarquias celestiais em Dionysius Areopagita, etc, derivam da percepção da relativa auto­nomia dos arquétipos.

4. O inconsciente coletivo representa a parte objetiva do psiquismo; o inconsciente pessoal, a parte subjetiva.

5. Sombra é para mim a parte “negativa” da personalidade, isto é, a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteudos inconsciente pessoal. T. Wolff resumiu o conceito em Einführung in die Grunaflagen der komplexen Psychologie, em Etudien zu C. G. Jungs Psychologie, 1959, p. 151ss.

6. Para aprofundar este conceito, ver Allgemeines zur Komplextheorie, em über psychische Energetik und das Wesen der Träume, 1948. Obras Completas, Vol. 8.

Assim, também encontramos o objeto que a libido escolhe quando se vê liberada da forma de transferência pessoal e infantil. A libido segue sua inclinação até as profundezas do inconsciente e lá vivifica o que até então jazia adormecido. É a descoberta do tesouro oculto, a fonte inesgotável onde a hu­manidade sempre buscou seus deuses e demônios e todas as idéias, suas mais fortes e poderosas idéias, sem as quais o ser humano deixa de ser humano.

Vejamos, por exemplo, um dos maiores pensamentos do século XIX: a idéia da conservação da energia. Robert Mayer é o verdadeiro criador dessa idéia. Ele era médico, e não físico ou filósofo da natureza, como seria de se esperar. Mas o importante é saber que a idéia de Mayer não foi propria­mente criada. Também não foi produto da confluência das idéias ou das hipóteses científicas da época; ela foi crescendo dentro do seu criador como uma planta. Mayer escreveu o se­guinte, numa carta a Griesinger (1844): “A teoria não foi cho­cada em escrivaninha”. (A seguir, informa sobre certas obser­vações fisiológicas feitas em 1840/41 como médico da Marinha). “Se quisermos esclarecer certos pontos da fisiologia”, prosse­gue em sua carta, “é indispensável conhecer os processos fí­sicos; isto se a matéria não for trabalhada de preferência do ponto de vista da metafísica, o que me desagrada profunda­mente. Ative-me, portanto, à física e lancei-me no assunto com tal paixão que pouco me interessavam as paragens exóticas que percorríamos (o que muitos vão achar ridículo) e preferia ficar a bordo, onde podia trabalhar ininterruptamente e me sentia como que inspirado durante horas a fio. Não me lembro de ter vivido momentos semelhantes, nem antes, nem depois. Rápidos clarões perpassavam meu pensamento (isso foi no ancoradouro de Surabaja), eram captados e imediata e avidamen­te perseguidos, levando, por sua vez, a novos objetos. Esses tempos passaram. Mas o exame calmo do que emergiu em mim naquela ocasião confirmou que se tratava de uma verdade. Não só uma verdade subjetiva, mas uma verdade que também pode ser provada objetivamente. Se isso pode acontecer a um homem tão pouco versado em física como eu, é uma questão Que tenho que deixar em suspenso”.7

Em sua Energetik, Helm diz que o novo pensamento de Robert Mayer não se desenvolveu pouco a pouco a partir do Afundamento das idéias tradicionais existentes sobre energia, mas pertence à ordem das idéias captadas intuitivamente, provindas de outras esferas de trabalho espiritual, que também faltam o pensamento, exigindo que os conceitos tradicionais e transformem de acordo com elas”.8

7. Robert Mayer, Kleinere Schriften und Briefe, Stuttgart, 1893, p. 213. Cartas a Wilhelm Griesinger, 16 de junho de 1844.

8. G. F. Helm, Die Energetik nach ihrer geschichtlichen Entwicklung, Leipzig 1898,

A questão agora é a seguinte: de onde surgiu a idéia nova, essa idéia que se impôs à consciência com tão elementar vio­lência? De onde tirou a sua força, essa força que se apoderou da consciência de modo a torná-la insensível às inúmeras atra­ções de uma primeira viagem aos trópicos? A resposta não é fácil. Mas, se a nossa teoria for aplicada ao presente caso, a explicação deve ser a seguinte: a idéia da energia e de sua con­servação deve ser uma imagem primordial, adormecida no in­consciente coletivo. Semelhante conclusão nos obriga evidente­mente a provar que tais imagens primordiais existiram efeti­vamente na história do espírito humano e que foram ativas durante milhares e milhares de anos. Esta prova pode ser real­mente fornecida sem maiores dificuldades. As religiões mais primitivas, nas*regiões mais variadas do mundo, são fundadas nessa imagem. São as chamadas religiões dinamisticas. Seu pen­samento único e decisivo é que há uma força universal má­gica9 e que tudo gira em torno dessa força. Tanto Taylor, o conhecido cientista inglês, como Frazer interpretaram essa idéia como animismo, erroneamente. Na realidade, os povos primi­tivos não se referem a almas ou espíritos nesse seu conceito de energia, mas a algo que o cientista americano Lovejoy10 qualificou acertadamente como “primitive energetics”. A este conceito corresponde a idéia de alma, espírito, deus, saúde, força corporal, fertilidade, poder mágico, influência, poder, res­peito, remédio, bem como certos estados de ânimo caracteri­zados pela liberação de afetos. “Mulungu” (precisamente este conceito primitivo de energia) significa, para certos polinésios, espírito, alma, ser demoníaco, poder mágico, respeito; e quando acontece algo assombroso as pessoas exclamam “mulungu”. Este conceito de energia também é a primeira versão do conceito de deus entre os primitivos. A imagem desenvolveu-se em va­riações sempre novas no decurso da história. No Antigo Tes­tamento a força mágica resplandece na sarça que arde em chamas diante de Moisés. No Evangelho manifesta-se pela des­cida do Espírito Santo em forma de línguas de fogo vindas do céu. Em Heráclito aparece como energia universal, como “o fogo eternamente vivo”. Entre os persas é a viva luz do fogo do “haoma”, da graça divina; para os estóicos é o calor primordial, a força do destino. Na legenda medieval aparece como a aura, a auréola dos santos, desprendendo-se em forma de chamas do telhado da cabana onde o santo jaz em êxtase. i^as faces dos santos essa força é vista como sol e plenitude da luz. Segundo uma interpretação antiga, a própria alma é essa energia; a idéia de sua imortalidade é a de sua conser­vação; e na acepção budista e primitiva da metempsicose (transmigração da alma) reside a sua capacidade ilimitada de transformação e perene conservação.

9. O chamado mana, cf. N Soederblom, Das Werden des Gottesglaubens, 1916

10 Arthur O. Lovejoy, The fundamental concept of the primitive philosophy, em the Monist, vol. XVI, 1906, p. 361.

Há milênios o cérebro humano está impregnado dessa idéia, por isso, jaz no inconsciente de todos, à disposição de qual­quer um. Apenas requer certas condições para vir à tona. Pelo visto, essas condições foram preenchidas no caso de Robert Mayer. Os maiores e melhores pensamentos da humanidade são moldados sobre imagens primordiais, como sobre a planta de um projeto. Muitas vezes já me perguntaram de onde pro­vêm esses arquétipos ou imagens primordiais. Suponho que sejam sedimentos de experiências constantemente revividas pela humanidade. Parece que a explicação não pode ser outra. Uma das experiências mais comuns e ao mesmo tempo mais im­pressionantes é o trajeto que o sol parece percorrer todos os dias. Enquanto o encararmos como esse processo físico co­nhecido, o nosso inconsciente nada nos revela a respeito. No entanto, encontramos o mito heróico do sol nas suas mais variadas versões. É este mito e não o processo físico que con­figura o arquétipo solar. O mesmo podemos dizer das fases da lua. O arquétipo é uma espécie de aptidão para reproduzir constantemente as mesmas idéias míticas; se não as mesmas, pelo menos parecidas. Parece, portanto, que aquilo que se impregna no inconsciente é exclusivamente a idéia da fantasia subjetiva provocada pelo processo físico. Logo, é possível supor Que os arquétipos sejam as impressões gravadas pela repetição e reações subjetivas.11 É óbvio que tal suposição só posterga a solução do problema. Nada nos impede de supor que certos arquétipos já estejam presentes nos animais, pertençam ao sis-toa da própria vida e, por conseguinte, sejam pura expressão vida, cujo modo de ser dispensa qualquer outra explicação que parece, os arquétipos não são apenas impregnações experiências típicas, incessantemente repetidas, mas também comportam empiricamente como forças ou tendências à repetição das mesmas experiências. Cada vez que um arquétipo aparece em sonho, na fantasia ou na vida, ele traz consigo uma “influência” específica ou uma força que lhe confere um efeito numinoso e fascinante ou que impele à ação.

11 Cf. die Struktur der Seele em Seelenprobleme der Gegenwart, 1950, p. 127. Vol. 8.

Após este comentário sobre a formação de novas idéias a partir do tesouro das imagens primordiais, voltemos ao processo da transferência. Vimos que a libido captou seu novo objeto justamente nas fantasias extravagantes e aparentemente sem nexo, a saber: os conteúdos do inconsciente coletivo. Como já dizia, a projeção das imagens primordiais no médico é um perigo que não pode ser subestimado no prosseguimento do tratamento. Essas imagens contêm não só o que há de mais belo e grandioso no pensamento e sentimento humanos, mas também as piores infâmias e os atos mais diabólicos que a humanidade foi capaz de cometer. Graças à sua energia espe­cífica (pois comportam-se como centros autônomos carregados de energia), exercem um efeito fascinante e comovente sobre o consciente e, conseqüentemente, podem provocar grandes al­terações no sujeito. Isso é constatado nas conversões religiosas, em influências por sugestão e, muito especialmente, na eclosão de certas formas de esquizofrenia.12 Se o paciente não conse­guir distinguir a personalidade do médico dessas projeções, perdem-se todas as possibilidades de entendimento e a relação humana torna-se impossível. Se o paciente evitar este perigo mas cair na introjeção dessas imagens, isto é, se atribuir essas qualidades não mais ao médico mas a si mesmo, corre um perigo tão grave quanto o anterior. Na projeção ele oscila entre um endeusamento doentio e exagerado e um desprezo carregado de ódio em relação ao médico. Na introjeção passa de um auto-endeusamento ridículo para uma autodilaceração moral. O erro cometido em ambos os casos consiste em atri­buir os conteúdos do inconsciente coletivo a uma determinada pessoa. Assim, ele próprio, ou a outra pessoa, se transforma em deus ou no diabo. Esta é a manifestação característica do arquétipos uma espécie de força primordial se apodera da psi­que e a impele a transpor os limites do humano, dando origem aos excessos, à presunção (inflação!), à compulsão, à ilusão ou à comoção, tanto no bem como no mal.

12. Um caso analisado em profundidade em. Symbole der Wandlung, 1952. Obras completas, vol. 5; bem como em Jan Nelken, Analytische BeobachtungenüberPhantasien eines Schizophrenen, em Jahrbuch für psychoanalistische und psychopathologische forschungen, vol. 4, 1912, p. 504.

Aí está a razão porque os homens sempre precisaram dos demônios e nunca puderam prescindir dos deuses. Todos os homens, exceto algunsespécimes recentes do “homo occidentalis”, particularmente do­tados de inteligência, super-homens cujo “Deus está morto” – razão por que eles mesmos se transformam em deuses, isto é deuses enlatados, com crânios de paredes espessas e coração frio. O conceito de Deus é simplesmente uma função psicoló­gica necessária, de natureza irracional, que absolutamente nada tem de ver com a questão da existência de Deus. O intelecto humano jamais encontrará uma resposta para esta questão. Muito menos pode haver qualquer prova da existência de Deus, o que, aliás, é supérfluo. A idéia de um ser todo-poderoso, divino, existe em toda parte. Quando não é consciente, é in­consciente, porque seu fundamento é arquetípico. Há alguma coisa em nossa alma que tem um poder superior — não sendo um deus conscientemente, então é pelo menos “o estômago”, no dizer de Paulo. Por isso, acho mais sábio reconhecer cons­cientemente a idéia de Deus; caso contrário, outra coisa fica em seu lugar, em geral uma coisa sem importância ou uma asneira qualquer — invenções de consciências “esclarecidas”. Nosso intelecto sabe perfeitamente que não tem capacidade para pensar Deus e muito menos para imaginar que ele existe realmente e como ele é. A questão da existência de Deus não tem resposta possível. Mas o “consensus gentium” (o consenso dos povos) fala dos deuses há milênios e dentro de milênios ainda deles falará. O homem tem o direito de achar sua razão bela e perfeita, mas nunca, em hipótese alguma, ela deixará de ser apenas uma das funções espirituais possíveis, e só cobrirá o lado dos fenômenos do mundo que lhe diz respeito. A razão, porém, é rodeada de todos os lados pelo irracional, por aquilo que não concorda com ela. Essa irracionalidade também é uma função psíquica, o inconsciente coletivo, enquanto a razão é essencialmente ligada ao consciente. A consciência precisa da razão para descobrir uma ordem no caos do universo dos casos individuais para depois também criá-la, pelo menos na circunscrição humana. Fazemos o esforço louvável e útil de extirpar na medida do possível o caos da irracionalidade den-D e fora de nós. Ao que tudo indica, já estamos bastante av&nçados neste processo. Um doente mental me disse outro dia: “Dr., hoje à noite desinfetei o céu inteiro com cloreto mercúrico, mas não descobri deus nenhum”. Foi mais ou menos nos aconteceu.

O velho Heráclito, que era realmente um grande sábio, descobriu a mais fantástica de todas as leis da psicologia: a função reguladora dos contrários. Deu-lhe o nome de enantiodromia (correr em direção contrária), advertindo que um dia tudo reverte em seu contrário. (Lembro aqui o caso do empresário americano, que ilustra claramente isso). A cultura racional di­rige-se necessariamente para o seu contrário, ou seja, para o aniquilamento irracional da cultura.13 Não devemos nos iden­tificar com a própria razão, pois o homem não é apenas racio­nal, não pode e nunca vai sê-lo. Todos os mestres da cultura deveriam ficar cientes disso. O irracional não deve e não pode ser extirpado. Os deuses não podem e não devem morrer. Há pouco, dizia que sempre parece haver algo como um poder superior na alma humana. Se não é a idéia de Deus, é o estô­mago, para empregar a expressão de Paulo. Com isso pretendo deixar expresso o fato de sempre haver um impulso ou um complexo qualquer que concentra em si a maior parcela da energia psíquica, obrigando o eu a colocar-se a seu serviço. Habitualmente, é tão intensa a força de atração exercida por esse foco de energia sobre o eu que este se identifica com ele, passando a acreditar que fora e além dele não existe outro desejo ou necessidade. É assim que se forma uma mania, monomania, possessão ou uma tremenda unilateralidade que com­promete gravemente o equilíbrio psíquico. O poder de concen­trar toda a capacidade num ponto só é sem dúvida alguma o segredo de certos êxitos, razão por que a civilização se esforça ao máximo em cultivar especializações. A paixão, ou seja, a acumulação de energia em torno de uma monomania é o que os antigos chamavam de “deus”. E mesmo na linguagem atual isso ainda persiste. As pessoas dizem: “Fulano endeusou isso ou aquilo”. Estamos certos de que ainda podemos querer ou escolher e não percebemos que já estamos possessos, que o nosso interesse já é senhor e usurpou todo o poder. Esses in­teresses são como deuses: quando reconhecidos e aceitos por muitos, pouco a pouco formam uma “igreja”, agrupando ao seu redor todo um rebanho de fiéis. Chamamos a isso “orga­nização”. Segue-se a reação desorganizadora, que pretende ex­pulsar o demônio com Belzebu. A enantiodromia, ameaça ine­vitável de qualquer movimento que alcança uma indiscutível superioridade, não é a solução do problema, porque em sua desorganização é tão cega quanto em sua organização.

13. Esta frase foi escrita durante a Primeira Guerra Mundial. Deixei-a tal qual, pois contém uma verdade, que vai ser confirmada mais de uma vez no decorrer da história (escrita em 1925). Como se vê pelos acontecimentos atuais, esta confirmação não tardou muito. Quem é, afinal, que quer essa destruição cega?… Mas todos ajudam o demônio com o maior espírito de sacrifício, “ó sancta simplicitas!” (acres­centado em 1942).

Só escapa à crueldade da lei da enantiodromia quem é capaz de diferenciar-se do inconsciente. Não através da repres­são do mesmo — pois assim haveria simplesmente um ataque pelas costas — mas colocando-o ostensivamente à sua frente como algo à parte, distinto de si.

mediante este trabalho preparatório será possível so­lucionar o dilema a que aludi anteriormente. O paciente pre­cisa aprender a distinguir o eu do não-eu, isto é, da psique coletiva. Assim, adquire o material com que vai ter que se haver daí em diante e por muito tempo ainda. A energia antes aplicada de forma inaproveitável, patológica, encontra seu cam­po apropriado.! Para diferenciar o eu do não-eu é indispensável que o homem — na função de eu — se conserve em terra firme, isto é, cumpra seu dever em relação à vida e, em todos os sentidos, manifesta sua vitalidade como membro ativo da sociedade humana. Tudo quanto deixar de fazer nesse sentido cairá no inconsciente e reforçará a posição do mesmo. E ainda por cima ele se arrisca a ser engolido pelo inconsciente. Essa infração, porém, é severamente punida. O velho Synesius insi­nua que a “alma espiritualizada” () se torna deus e demônio e sofre neste estado a punição divina: o estado de estraçalhamento do Zagreu, o estado pelo qual Nietzsche passou no início de sua doença mental. A enan­tiodromia é o estar dilacerado nos pares contrários. Estes são próprios do deus^C portanto, do homem divinizado, que deve sua semelhança a Deus à vitória sobre seus deuses. Assim que começamos a falar do inconsciente coletivo, nós nos co­locamos numa esfera, numa etapa do problema que não pode ser levada em conta no início da análise prática de jovens ou de pessoas que ficaram por demasiado tempo no estágio infantil. Quando as imagens de pai e mãe ainda têm que ser superadas e quando ainda tem que ser conquistada uma par­cela de experiência da vida exterior, que o homem comum pos­sui naturalmente, é melhor nem falar de inconsciente coletivo, nem do problema dos contrários. Mas, assim que as coisas transmitidas pelos pais e as ilusões juvenis estiverem supera­das ou, pelo menos, a ponto de serem superadas, está na hora de falar do problema dos contrários e do inconsciente coletivo. leste ponto já nos encontramos fora do alcance das reduções freudianas e adlerianas. O que preocupa não é mais a questão de como desembaraçar-se de todos os empecilhos ao exercício de uma profissão, ao casamento ou a fazer qualquer coisa que signifique expansão de vida. Estamos diante do problema de encontrar o sentido que possibilite o prosseguimento da ^rida (entendendo-se por vida algo mais do que simples resignação e saudosismo).

Nossa vida compara-se à trajetória do sol. De manhã o sol vai adquirindo cada vez mais força até atingir o brilho e o calor do apogeu do meio-dia. Depois vem a enantiodromia. Seu avançar constante não significa mais aumento e sim dimi­nuição de força. Sendo assim, nosso papel junto ao jovem difere do que exercemos junto a uma pessoa mais amadure­cida. No que se refere ao primeiro, basta afastar todos os obstáculos que dificultam sua expansão e ascensão. Quanto à última, porém, temos que incentivar tudo quanto sustente sua descida. Um jovem inexperiente pode pensar que os velhos podem ser abandonados, pois já não prestam para nada, uma vez que sua vida ficou para trás e só servem como escoras petrificadas do passado. É enorme o engano de supor que o sentido da vida esteja esgotado depois da fase juvenil de ex­pansão, que uma mulher esteja “liquidada” ao entrar na menopausa. O entardecer da vida humana é tão cheio de significação quanto o período da manhã. Só diferem quanto ao sentido e intenção.14 O homem tem dois tipos de objetivo. O primeiro é o objetivo natural, a procriação dos filhos e todos os ser­viços referentes à proteção da prole; para tanto, é necessário ganhar dinheiro e posição social. Alcançado esse objetivo, co­meça a outra fase: a do objetivo cultural. Para atingir o pri­meiro objetivo, a natureza ajuda; e, além dela, a educação. Para o segundo objetivo, contamos com pouca ou nenhuma ajuda. Freqüentemente reina um falso orgulho que nos faz acreditar que o velho tem que ser como o moço ou, pelo me­nos, fingir que o é, apesar de no íntimo não estar convencido disso. É por isso que a passagem da fase natural para a fase cultural é tão tremendamente difícil e amarga para tanta gente; agarram-se às ilusões da juventude ou a seus filhos para assim salvar um resquício de juventude. Pode-se notar isso principal­mente nas mães que põem nos filhos o único sentido da vida e acreditam cair num abismo sem fundo se tiverem que re­nunciar a eles. Não é de admirar que muitas neuroses graves se manifestem no início do outono da vida. É uma espécie de segunda puberdade ou segundo período de “impetuosidade”, não raro acompanhado de todos os tumultos da paixão (“idade perigosa”). Mas as antigas receitas não servem mais para re­solver os problemas que se colocam nessa idade. Tal relógio não permite girar os ponteiros para trás. O que a juventude encontrou e precisa encontrar fora, o homem no entardecer da vida tem que encontrar dentro de si. Estamos diante de novos problemas, e não são poucas as dores de cabeça que o médico tem por causa disso.

14. Confrontar essas considerações com Die Lebenswende em Seelenprobleme der Gegenwart, 1950, p. 220ss, Obras Completas, Vol. 8.

A passagem da manhã para a tarde é uma inversão dos antigos valores. É imperiosa a necessidade de se reconhecer o valor oposto aos antigos ideais, de perceber o engano das convicções defendidas até então de reconhecer e sentir a in­verdade das verdades aceitas até o momento, de reconhecer e sentir toda a resistência e mesmo a inimizade do que até então julgávamos ser amor. Não são poucos os que, vendo-se envol­vidos no conflito dos contrários, se desvencilham de tudo quan­to lhes parecera bom e desejável, tentando viver no pólo oposto ao seu eu anterior. Mudanças de profissão, divórcios, conver­sões religiosas, apostasias de todo tipo são sintomas desse mergulho no contrário. A desvantagem da conversão radical ao seu contrário é a repressão da vida passada, o que produz um estado de desequilíbrio tão grande quanto o anterior, quan­do os contrários correspondentes às virtudes e valores cons­cientes ainda eram recalcados e inconscientes. Às perturbações neuróticas anteriores, determinadas pela inconsciência das fan­tasias antagônicas, correspondem agora novas perturbações, pro­vocadas pela repressão dos ídolos antigos. Cometemos um erro grosseiro ao acreditar que o reconhecimento do desvalor num valor ou da inverdade numa verdade impliquem na supressão desses valores ou verdades. O que acontece é que se tornam relativos. Tudo o que é humano é relativo, porque repousa numa oposição interior de contrários, constituindo um fenô­meno energético. A energia, porém, é produzida necessariamente a partir de uma oposição que lhe é anterior e sem a qual simplesmente não pode haver energia. Sempre é preciso haver alto e o baixo, o quente e o frio, etc, para poder realizar-se o processo da compensação, que é a própria energia. Portanto, a tendência a renegar todos os valores anteriores para favorecer o seu contrário é tão exagerada quanto a unilateralidade anterior. Mas, quando se descartam os valores incontestáveis e universalmente reconhecidos, o prejuízo é fatal. Quem age desta forma perde-se juntamente com os seus valores, como Nietzsche já dissera.

Não se trata de uma conversão no seu contrário, mas de uma conservação dos antigos valores, acrescidos de um reco­nhecimento do seu contrário. Isto significa conflito e ruptura consigo mesmo. É compreensível que assuste, tanto filosófica como moralmente; por isso, é mais freqüente procurar a so­lução no enrijecimento convulsivo dos pontos de vista defen­didos até então do que numa conversão no seu contrário. E preciso reconhecer que esse fenômeno, aliás extremamente an­tipático em homens de certa idade, encobre um mérito consi­derável; pelo menos não se transformam em apóstatas, man­têm-se de pé e não caem na indefinição e na lama. Não se transformam em falidos, mas apenas em árvores que definham — “testemunhas do passado”, para falarmos com um pouco mais de cortesia. Mas os sintomas concomitantes, rigidez, petrificação, bitolamento, incapacidade de evoluir, dos “laudatores temporis acti” são desagradáveis e até prejudiciais, pois a maneira de representar uma verdade ou outro valor qualquer é tão rígida e violenta que a rudeza tem mais força de repul­são do que o valor possui força de atração — e com isso se obtém o contrário do que se desejava. No fundo, o motivo do enrijecimento é o medo do problema dos contrários. O sinistro irmão de Medardo é pressentido e secretamente temido. Por isso é que só pode existir uma verdade e uma norma de con­duta, e esta tem que ser absoluta. Caso contrário, não há pro­teção contra a ameaça da derrocada, pressentida em toda parte, menos em si mesmo. Mas^o mais perigoso revolucionário está dentro de nós mesmos. Quem quiser transferir-se são e salvo para a segunda metade da vida» tem que saber disso. No en­tanto, a aparente segurança de que gozávamos até então é substituída por um estado de insegurança, ruptura e convicções contraditórias. O pior deste estado é que aparentemente não há saída. “Tèrtium non datur”, diz a lógica, não existe terceiro.

As necessidades práticas do tratamento dos doentes obrigaram-me a buscar meios e caminhos que me guiassem para fora desse estado inaceitável. Cada vez que o homem se en­contra diante de um obstáculo aparentemente intransponível, ele recua; faz uma regressão, para usar a expressão técnica. Recua ao tempo em que se encontrava numa situação parecida e tentará empregar novamente os meios que outrora lhe haviam servido. Mas o que ajudava na juventude já não tem eficácia. De que serviu ao empresário americano voltar ao an­tigo trabalho? Simplesmente não adiantava mais. A regressão continua até a infância (por isso muitos neuróticos velhos se infantilizam) e finalmente até o tempo anterior à infância. Isto soa como uma aventura; na realidade, porém, trata-se de algo que não só é lógico mas também possível.

Mencionamos anteriormente o fato de o inconsciente con­ter como que duas camadas: uma pessoal e outra coletiva. A camada pessoal termina com as recordações infantis mais re­motas; o inconsciente coletivo, porém, contém o tempo pré-infantil, isto é, os restos da vida dos antepassados. As imagens das recordações do inconsciente coletivo são imagens não pre­enchidas, por serem formas não vividas pessoalmente pelo in­divíduo. Quando, porém, a regressão da energia psíquica ultra­passa o próprio tempo da primeira infância, penetrando nas pegadas ou na herança da vida ancestral, aí despertam os qua­dros mitológicos: os arquétipos.15 Abre-se então um mundo espiritual interior, de cuja existência nem sequer suspeitáva­mos. Aparecem conteúdos que talvez contrastem violentamente com as convicções que até então eram nossas. É tal a intensi­dade desses quadros, que nos parece inteiramente compreen­sível que milhões de pessoas cultas tenham aderido à teosofia ou à antropossofia, pois esses sistemas gnóticos modernos vêm ao encontro da necessidade de exprimir e formular os indizíveis acontecimentos interiores. As outras formas de religião cristã existentes, inclusive o catolicismo, não o conseguiram, apesar de este ser capaz de exprimir muito melhor do que o protestantismo tais realidades interiores, através de simbolismos dogmáticos e rituais. Mas, mesmo assim, nem no passado, nem no presente, atingiu a plenitude do simbolismo pagão da Anti­güidade. É esta a razão por que o paganismo permaneceu ainda Por muitos séculos na era cristã, transformando-se pouco a pouco em correntes subterrâneas. Estas nunca perderam totalmente sua energia vital, desde a Baixa Idade Média até a Idade Moderna.

15 O leitor verá que aqui se insere um elemento novo no conceito de arquétipo, que não tinha sido mencionado antes. Essa mistura não significa uma falta de clareza fator h’ mas uma ampliação intencional do arquétipo, através do importantíssimo fator do carma da filosofia indiana. O aspecto do carma é indispensável à compreensão mais profunda da natureza de um arquétipo. Sem entrar aqui em maiores detalhes sobre esse fator, queria ao menos mencionar a sua existência. Fui muito combatido pela crítica por causa da idéia do arquétipo. Não hesito em concordar que a idéia é controversa e causa perplexidade. Mas sempre tive a curiosidade de saber que conceitos os meus críticos teriam usado para exprimir o material experimental em questão.

Na realidade, desapareceram da superfície; no entanto, transfiguradas, voltam de novo para compensar a unilateralidade da orientação da consciência moderna.16 Nossa consciência está impregnada de cristianismo e é quase intei­ramente por ele formada; por isso a posição inconsciente dos contrários não pode ser aceita, simplesmente porque parece excessiva a contradição com as concepções fundamentais do­minantes. Quanto mais unilateral, rígida e incondicional for a defesa de um ponto de vista, tanto mais agressivo, hostil e incompatível se tornará o outro, de modo que a princípio a reconciliação tem poucas perspectivas de sucesso. Mas, se o consciente pelo menos reconhecer a relativa validade de todas as opiniões humanas, o contrário também perde algo de sua incompatibilidade. Entretanto, esse contrário procura uma ex­pressão adequada, por exemplo, nas religiões orientais, no bu­dismo, no hinduísmo e no taoísmo. O sincretismo (mistura e combinação) da teosofia vem amplamente ao encontro dessa necessidade e explica o seu elevado número de adeptos.

16. Ver o meu estudo Paracelsus als geistige Erscheinung, Obras Completas, Vol. 13; e Psychologie und Alchemie, 1952, Obras Completas, Vol. 12.

Através da ocupação ligada ao tratamento analítico, surgem experiências de natureza arquetípica à procura de expres­são e forma. Evidentemente, não é esta a única maneira de se experimentar coisas desse tipo. Não raro se produzem ex­periências arquetípicas espontâneas, não apenas em pessoas com um “espírito psicológico”. Muitas vezes fiquei sabendo de sonhos e visões extraordinários de pessoas de cuja saúde mental nem o próprio especialista podia duvidar. A experiên­cia do arquétipo é freqüentemente guardada como o segredo mais íntimo, visto que nos atinge no âmago. É uma espécie de experiência primordial do não-eu da alma, de um confronto interior, um verdadeiro desafio. É compreensível que se pro­cure socorro em imagens paralelas; o acontecimento original poderá ser reinterpretado de acordo com imagens alheias com a maior facilidade. Um caso típico desses é a visão da Trin­dade do Irmão Niklaus von der Flüe.17 Outro exemplo é a visão da cobra de múltiplos olhos, de Inácio de Loyola, que a princípio foi interpretada como sendo uma visão divina e depois como uma visão diabólica. Através de reinterpretações desse tipo, a experiência original é substituída por imagens e palavras emprestadas de fontes estranhas e por interpretações, idéias e formas que não nasceram necessariamente no nosso chão e, sobretudo, não estão ligadas ao nosso coração, mas apenas à cabeça. E a cabeça nem mesmo é capaz de as pensar claramente porque jamais as teria inventado. São um bem roubado, que não prospera. O sucedâneo transforma as pessoas em sombras, tornando-as irreais. Colocam letras mortas no lugar de realidades vivas e assim vão se livrando do sofrimento das oposições e vão se esgueirando para um mundo fantasma­górico, pálido, bidimensional, onde murcha e morre tudo o que é criativo e vivo.

17. Ver meu ensaio Bruder Klaus, Obras Completas, Vol. II. E ainda, M. L- W.Franz, Die Vision des Niklaus von Flüe, 1959.

Os acontecimentos indizíveis provocados pela regressão ao tempo pré-infantil não exigem sucedâneos, mas uma realização individual na vida e na obra de cada um. Aquelas imagens se formaram a partir da vida, do sofrimento e da alegria dos an­tepassados e querem voltar de novo à vida, com experiência e como ação. Mas por causa de sua oposição à consciência não podem ser traduzidas imediatamente para o nosso mundo, mas é preciso achar um caminho intermediário conciliatório entre a realidade consciente e a inconsciente.

VI

O método sintético ou construtivo

LIDAR com o inconsciente é um processo (ou, conforme o caso, um sofrimento ou um trabalho) cujo nome é função transcendente,1porque representa uma função que, fundada em dados reais e imaginários ou racionais e irracionais, lança uma ponte sobre a brecha existente entre o consciente e o inconsciente. É um processo natural, uma manifestação de ener­gia produzida pela tensão entre os contrários, formado por uma sucessão de processos de fantasia que surgem esponta­neamente em sonhos e visões.2 O mesmo processo pode ser observado nos estágios iniciais de certas formas de esquizo­frenia. A descrição clássica de seqüências desse tipo é encon­trada na autobiografia Aurélia, de Gérard de Nerval. Mas é a segunda parte do Fausto seu mais importante exemplo na li­teratura. O processo natural da unificação dos contrários ser­viu-me de modelo e fundamento para um método que consiste essencialmente em provocar intencionalmente o que a natureza produz inconsciente e espontaneamente e integrá-lo à consciên­cia e seus conceitos. A desgraça de muitos é justamente não terem meios e caminhos para dominar espiritualmente os fatos que neles se registram. Nesses casos torna-se de rigor a inter­venção médica, em forma de um método especial de terapia.

1. Só mais tarde vim a descobrir que o conceito da função “transcendente” tam­bém existe na matemática superior, para designar a função de números reais e ima­ginários. Veja também meu ensaio sobre Die transzendente Funktion, em Geist una Werk, Rhein Verlag, Zurich, 1958. Obras Completas, Vol. 8..

2. Essas seqüências de sonhos foram exemplificadas no livro Psychologie una Alchemie, Obras Completas, Vol. 12.

Como vimos, as teorias mencionadas no começo deste livro baseiam-se num procedimento redutivo, exclusivamente causal, que decompõe o sonho (ou fantasia) nos componentes de reminiscências e nos processos instintivos que lhe constituem a base. Já mencionei anteriormente o que justifica e o que limita esse processo. Ele chega ao fim no momento em que os símbolos dos sonhos não são mais passíveis de serem reduzidos a reminiscências ou anseios pessoais, isto, é, quando emergem as imagens do inconsciente coletivo. Seria insensato querer reduzir tais idéias coletivas a assuntos pessoais. Não só insen­sato, mas também nocivo, como a experiência me tem ensi­nado de modo doloroso. Foi realmente difícil para mim (só o consegui ao final de muitas hesitações e instruído pelos fracassos) abandonar a orientação exclusivamente personalística da psicologia terapêutica, no sentido indicado. Em pri­meiro lugar, tive que me convencer profundamente de que a “análise”, na medida em que se restringe à decomposição, deve ser necessariamente seguida por uma síntese. Em segundo lu­gar, tive de me convencer da existência de um material psí­quico praticamente desprovido de significado quando simples­mente decomposto, mas que encerra uma plenitude de sentido ao ser confirmado e ampliado por todos os meios conscientes (é a chamada amplificação).3 Os valores das imagens ou sím­bolos do inconsciente coletivo só aparecem quando submetidos a um tratamento sintético. Como a análise decompõe o mate­rial simbólico da fantasia em seus componentes, o processo sintético integra-o numa expressão conjunta e coerente. Este processo não é simples. Por isso resolvi ilustrá-lo com um exemplo.

3-Definição em Psychologie und Alchemie, 2ª edição, 1952, p. 397s. Obras Completas, p. 132ssTambém J. Jacobi, Die Psychologie von C. G. Jung, 2ª edição, 1945,

Uma cliente que se encontrava exatamente no ponto crí­tico do limite entre a análise do inconsciente pessoal e o des­pontar dos conteúdos do inconsciente coletivo teve o seguinte sonho: quer passar para a outra margem de um rio. Não há ponte por perto. Mas ela encontra um lugar onde a passagem é possível. No momento de atravessar, um caranguejo enorme, antes escondido dentro da água, agarra seu pé e não a solta mais. Amedrontada, ela acorda.

Associações

Rio: constitui uma fronteira difícil de. atravessar; preciso transpor um obstáculo; refere-se provavelmente ao fato de eu só avançar lentamente; seria necessário que eu chegasse do outro lado.

Vau: uma oportunidade de atravessar em segurança; um caminho possível; caso contrário, o rio seria largo demais; na terapia existe a possibilidade de superar o obstáculo.

Caranguejo: estava bem escondido dentro da água e não o tinha visto antes; o câncer (caranguejo) é uma doença terrível, incurável (lembra-se do caso de X, que morreu de um carcinoma); tenho medo dessa doença; o caranguejo é um animal que anda para trás; e, pelo visto, quer me puxar para dentro do rio; ele me agarrava com tanta força que fiquei terrivel­mente apavorada; o que é que me impede de atravessar?; ah, é! tive de novo uma briga tremenda com minha amiga.

Essa amiga tem muito a ver com o caso. Trata-se de uma amizade de muitos anos, arrebatada, nas raias do homossexualismo. A amiga é parecida com a paciente em muitos pontos, e também é nervosa. Têm, manifestamente, interesses artísticos em comum. Das duas, a minha cliente tem a personalidade mais forte. Como a relação entre elas é de excessiva intimidade e exclui em demasia outras possibilidades de vida, ambas são nervosas. Apesar de uma amizade ideal, suas brigas são vio­lentas, devido à irritabilidade recíproca. Com isso, o incons­ciente quer distanciá-las uma da outra. Mas elas não querem perceber isso. Em geral o escândalo começa quando uma delas acha que ainda não se compreendem o suficiente, que é pre­ciso um entendimento mais profundo, e tentam abrir-se uma à outra, muito entusiasmadas. Como é óbvio, o desentendimen­to não tarda. E isso provoca outra cena, bem pior do que a anterior. “Faute de mieux”, durante muito tempo a briga era para ambas um sucedâneo do prazer a que não estavam dis­postas a renunciar. Minha paciente não conseguia prescindir da doce dor de ser incompreendida pela melhor amiga, muito embora dissesse que cada uma dessas brigas a “matava” de exaustão. Também já tinha reconhecido há muito tempo que essa amizade estava superada e que só uma falsa ambição ali­mentava a idéia de que ela pudesse se transformar numa re­lação ideal. A cliente já tinha tido com a mãe um relaciona­mento efusivo e fantasioso. Depois da morte da mãe, transfe­rira seus sentimentos para a amiga.

Interpretação analítica (causal-redutiva)

Essa interpretação pode ser resumida numa única frase: “Vejo muito bem que eu deveria transpor o rio e passar para o lado de lá (isto é, desistir da relação com a amiga); mas eu quero que as pinças (abraços) da amiga não me larguem, o que corresponde ao desejo infantil do abraço da mãe, naquele seu jeito conhecido e efusivo de me apertar contra o peito”. O que há de incompatível no desejo é a ligação homossexual subterrânea, da qual os fatos dão sobejas provas. O caran­guejo fisga-lhe o pé. A paciente tem pés grandes, “masculinos” Na relação com a amiga é ela que desempenha o papel do homem, e tem fantasias sexuais a respeito. Como é sabido, o pé tem um significado fálico.5 A interpretação global é essa: não quer separar-se da amiga por causa dos desejos homosse­xuais reprimidos que tem em relação a ela. Como esses desejos são moral e esteticamente incompatíveis com a tendência cons­ciente da personalidade, são reprimidos e, por isso, mais ou menos inconscientes. O medo corresponde ao desejo reprimido. É óbvio que esta interpretação desvaloriza gravemente o supremo ideal de amizade da paciente. No momento presente da análise, ela já não teria levado a mal essa interpretação. Algum tempo atrás, certos fatos já a haviam convencido, pra­ticamente, da existência de uma tendência homossexual, de tal modo que já lhe era possível reconhecê-lo francamente, apesar de isso não lhe ser muito agradável. Se eu lhe tivesse comu­nicado a interpretação no atual estágio do tratamento, já não teria encontrado nela resquícios de resistência. O mais doído dessa tendência importuna já estava superado pelo reconheci­mento. Mas ela teria me interpelado assim: “Por que perder tempo ainda com análise desse sonho? Só repete as mesmas coisas que já sei há muito tempo”. Na realidade, essa inter­pretação nada acrescenta à paciente; por isso, não é interes­sante nem eficaz. No início do tratamento teria sido simples­mente impossível fazer tal interpretação, pois em hipótese al­guma o excessivo pudor da paciente a teria, aceito. O “veneno” do reconhecimento tinha que ser instilado com a maior cautela, em doses mínimas, pouco a pouco, até penetrar sua razão.

4. O enfoque análogo é dado a esses dois tipos de interpretação, no livro que recomendo , de Herbert Silberer, Probleme der Mystik und ihrer Symbolik, 1914, 2ª edição, 1961.

5. Dr. Aigremont (Pseudônimo de Siegmar, Barão von Schultze-Galléra), Fuss und schuh-Symbolik und-Erotik..

No momento em que a interpretação analítica ou causal-redutiva não trouxer novidades, tornando-se repetitiva, torna-se oportu­no modificar o método interpretativo. No caso em questão, o processo causal-redutivo apresenta certos inconvenientes. Em primeiro lugar, não leva em exata consideração as idéias da paciente. Por exemplo, a associação da doença com “câncer” é ignorada. Em segundo lugar, o fato específico da escolha do símbolo não é esclarecido. Por que a amiga-mãe tem que se apresentar justamente como caranguejo? Teria sido muito mais plástico e estético se fosse uma ninfa (“em parte ela o atraía, em parte ele submergia…”) ou então um pólipo, um dragão, peixe ou cobra teriam servido do mesmo jeito. Em terceiro lu­gar, o processo causal-redutivo esquece que o sonho é um fe­nômeno subjetivo. Conseqüentemente, uma interpretação exaus­tiva nunca poderá relacionar o caranguejo apenas com a amiga ou com a mãe, mas tem que atribuí-lo também ao sujeito, à pró­pria sonhadora. Esta é o sonho todo: ela é o rio, a travessia e o caranguejo, isto é, esses elementos específicos são expressões de condições e tendências existentes no inconsciente do sujeito.

Por isso introduzi a seguinte terminologia: a interpretação em que as expressões oníricas podem ser identificadas com objetos reais é por mim denominada interpretação ao nível do objeto. A esta interpretação contrapõe-se a que refere ao pró­prio sonhador cada um dos componentes do sonho; por exem­plo, todas as pessoas que nele aparecem. A este procedimento dei o nome de interpretação ao nível do sujeito. A interpreta­ção ao nível do objeto é analítica, pois decompõe o conteúdo do sonho em complexos de reminiscências que se referem a situações externas. A interpretação ao nível do sujeito, ao invés, é sintética, pois desliga das circunstâncias externas os comple­xos de reminiscências em que se baseia e os interpreta como tendências ou partes do sujeito, incorporando-os novamente ao sujeito. (Numa vivência eu não experimento apenas o objeto, mas a mim mesmo, em primeiro lugar; mas isso só quando tomo consciência da minha experiência). Neste caso todos os conteúdos do sonho são concebidos como símbolos de conteú­dos subjetivos.

131O processo de interpretação sintético ou construtivo 6 consiste, portanto, na interpretação ao nível do sujeito.

6. Cf. Der Inhalt der Psychose, 2ª edição, 1914, aditamento. Obras Completas, Vol. 3. Em outra parte, chamei esse processo de método “hermenêutico”. Ver: Die Struktur des Unbewussten, anexo a este volume.

A interpretação sintética (construtiva)

A paciente não tem consciência de que o obstáculo a ser su­perado está dentro dela mesma: é uma zona limítrofe, difícil de transpor, que se interpõe à continuidade do processo. No entanto, é possível transpor a fronteira. Mas nesse exato mo­mento surge a iminência de um perigo inesperado e muito peculiar: algo de “animal” (desumano ou sobre-humano) que anda para trás e vai para o fundo, ameaçando puxar para baixo também a sonhadora e sua personalidade. Esse perigo assemelha-se a uma doença mortal que se forma em algum lugar, secretamente, e é incurável (prepotente). Segundo a ima­ginação da cliente, o empecilho é a amiga; é ela que a puxa para baixo. Enquanto não se livrar dessa crença, ela vai ter que influenciar a amiga: “puxá-la para cima”, ensinar a me­lhorá-la; vai ter de fazer o esforço inútil e ineficaz de ideali­zar meios de impedir que seja puxada para baixo. É evidente que a amiga faz esforços idênticos do seu lado, porque se en­contra na mesma situação que a paciente. Como galos de briga, as duas se atacam na tentativa de voar uma por cima da cabeça da outra. Quanto mais alto uma pula, tanto mais a outra pre­cisa atormentar-se para acompanhá-la. Por quê? Porque ambas pensam que o problema está na outra, no objeto. A interpre­tação ao nível do sujeito é a salvação nessa loucura completa. O sonho está mostrando à paciente que há algo dentro dela que a impede de transpor a fronteira, isto é, de passar de uma situação ou atitude para outra. A interpretação da mu­dança de lugar como correspondendo a uma mudança de ati­tude ampara-se em certas línguas primitivas, que para dizerem, por exemplo, “estou a ponto de ir”, empregam a expressão “estou no lugar da ida”. A compreensão da linguagem onírica requer naturalmente abundantes paralelos extraídos da psicologia da simbologia primitiva e histórica, porque os sonhos pro­vêm essencialmente do inconsciente e este contém as possibi­lidades residuais das funções de todas as épocas anteriores da história da evolução. Neste sentido, temos o clássico exemplo da “passagem da grande água” nos oráculos do I Ging.7

7– Richard Wilhelm, I Ging, Das Buch der Wandlungen, 1924.

É evidente que tudo depende agora do que se entender figura do caranguejo. Antes de mais nada, sabemos que é algo que se manifesta na amiga (porque relaciona o caranguejo com a amiga) e que também se manifestava na mãe. Saber se essa qualidade é real na mãe e na amiga é irrelevante no que diz respeito à paciente. A situação só se modificará se ela própria se modificar. A mãe não pode mais mudar, pois está morta. Nem se pode exigir que a amiga mude; se quiser mu­dar, o problema é dela. O fato de que a qualidade em questão já se manifestava na mãe é indício de que são coisas da in­fância. Qual o segredo da relação da paciente com a mãe e com a amiga? Pois bem, o que têm em comum é uma exi­gência veemente e exuberante de amor, uma paixão que a subjuga inteiramente. Essa exigência tem a característica do desejo infantil dominador, que é cego, como se sabe. Trata-se aqui de uma parte da libido não educada, não diferenciada e não humanizada, de caráter ainda impulsivo, coercitivo; logo, ainda não domesticado. O símbolo do animal é o mais apro­priado para essa parte da libido. Mas por que o animal tem que ser justamente um caranguejo? A paciente o associa com o câncer, enfermidade (razão da morte de X, que morreu mais ou menos na idade atual da paciente). Logo, poderia tratar-se vagamente de uma identificação com X. Por isso precisamos investigar. A paciente contou o seguinte a respeito de X: enviuvou cedo, era extremamente jovial e cheia de vivacidade. Teve uma série de aventuras amorosas, sobretudo com um homem estranhíssimo, um artista de grande talento que a pa­ciente conhecia pessoalmente e que lhe causava uma impressão ao mesmo tempo esquisita, fascinante e sinistra.

Uma identificação só pode produzir-se quando for baseada numa semelhança inconsciente, não realizada. Qual seria então a semelhança da nossa paciente com X? Neste ponto pude lembrá-la de uma série de fantasias antigas e sonhos que ti­vera. Estes haviam mostrado nitidamente que ela também tinha uma veia muito leviana, mas sempre temerosamente reprimida pelo receio de que essa tendência (sentida como tenebrosa) a seduzisse para uma vida dissoluta. Ganhamos assim mais uma contribuição fundamental para o conhecimento do elemen­to “animal”. Trata-se novamente da mesma ânsia não domesticada, impulsiva, visando neste caso os homens. Isso nos leva a compreender mais uma razão por que não pode largar a amiga: precisa agarrar-se a ela para não sucumbir a essa outra tendência, que lhe parece bem mais perigosa. Isso a retém num nível homossexual infantil, que, no entanto, lhe serve de defesa, (A experiência nos ensina que este é um dos motivos mais fortes que impedem o rompimento de relações inade­quadas e infantis). Mas nisso também está sua saúde, o germe de sua personalidade futura e sadia, que não se intimida diante das iniciativas a tomar na vida.

Mas foi outra a conclusão que a cliente tirou do destino ia de X. A doença fatal e súbita e sua morte prematura repre­sentam para ela um castigo do destino pela vida leviana dessa mulher (que a paciente, embora sem reconhecê-lo, invejara). A atitude moralizante assumida pela paciente quando X mor­reu escondia uma satisfação malévola, muito “humana”, “de­masiado humana”. Como castigo, o exemplo de X a fazia recuar agora, medrosamente, diante da vida e do seu desenvolvimento evolutivo, torturando-a com a sobrecarga de uma amizade ina­dequada. Evidentemente, todas essas conexões não estavam cla­ras para ela, pois, se assim não fosse, nunca teria agido dessa forma. Com base no material, foi fácil provar o acerto dessa constatação.

Mas com isso não estava encerrada a história dessa identificação. A paciente só mais tarde salientou que X tinha no­táveis dons artísticos, somente desenvolvidos após a morte do marido, que também a tinham conduzido à amizade com o artista. Ao que parece, as causas essenciais da identificação ligam-se a esta passagem, se nos lembrarmos daquilo que a paciente contara: o grande e estranho fascínio que sobre ela exercia o artista. Um tal fascínio nunca parte exclusivamente de uma pessoa para a outra, mas é um fenômeno de relação para o qual são necessárias duas pessoas, já que a pessoa fas­cinada precisa ter em si uma disposição correspondente. Mas a disposição tem que ser inconsciente, porque, se assim não for, não se produz o efeito fascinador. O fascínio é um fenô­meno compulsivo, desprovido de motivação consciente, isto é, não é um processo volitivo, mas um fenômeno que surge do inconsciente e se impõe à consciência, compulsivamente.

Logo, é de se supor que a paciente possui uma disposição 12 semelhante (inconsciente) à do artista. Portanto, também se identifica com um homem.8 Lembramo-nos da análise do sonho, do trecho em que há uma insinuação ao “masculino” (o Pé). Na realidade, a paciente desempenha um papel masculino em relação à amiga: é ela a ativa, a que sempre dá o tom e manda na amiga e de vez em quando também a obriga a fazer coisas que só ela está desejando. A amiga é declaradamente feminina, inclusive na aparência, ao passo que a paciente tem um tipo um tanto masculino. Sua voz também é mais forte e mais grossa do que a da amiga. X é descrita como uma mulher muito feminina, comparável à amiga em suavidade e amabilidade, na opinião da paciente. Isso nos leva a uma nova pista. A paciente representa, sem dúvida, o papel do artista em rela­ção a X, mas o transfere à amiga. Assim se realiza, inconscien­temente, a identificação com X e sua amante. Desta forma, tem uma chance de viver sua veia leviana, tão medrosamente reprimida. Mas não a vive conscientemente: ela é representada por essa tendência inconsciente, isto é, é possuída pelo papel de intérprete inconsciente de seu complexo.

8 Não ignoro que a razão mais profunda da identificação com o artista é um certo talento criativo da cliente.

Assim ficamos sabendo muito mais a respeito do caranguejo. Ele representa a psicologia interior dessa parte não do­mada da libido. As identificações inconscientes sempre a com­prometem de novo. Elas têm esse poder porque são incons­cientes, e assim não são passíveis de compreensão e coração. O caranguejo é, portanto, o símbolo dos conteúdos inconscien­tes. Estes fazem tudo para que a paciente não desista da re­lação com a amiga (o caranguejo anda para trás). Mas a relação com a amiga significa doença, pois foi ela que a tornou nervosa.

Para ser exato, esta passagem ainda pertencia à análise ao nível do objeto. Mas não devemos esquecer que só chegamos a este conhecimento através da aplicação ao nível do sujeito. Isto prova que se trata de um importante princípio heurístico.9 Poderíamos ficar satisfeitos com o resultado obtido, mas é preciso submeter-se às exigências da teoria. Nem todas as associações da cliente foram levadas em conta, nem a significação da escolha do símbolo suficientemente esclarecida.

9. Heurístico = de grande valor para descobrir a verdade.

Retomemos a observação da paciente de que o caranguejo estava escondido debaixo da água, sem que o tivesse visto antes. Isto porque antes ela não via as relações inconscientes que acabam de ser esclarecidas; estavam ocultas debaixo da água. No entanto, ~b rio é o obstáculo que a impede de atravessar. Pois eram justamente essas relações inconscientes, que a pren­diam à amiga, que a impediam. O obstáculo era o inconsciente. A água significa, portanto, o inconsciente, ou melhor, a inconsciência, o estar oculto. O caranguejo também é algo de incons­ciente, mas na qualidade de conteúdo dinâmico oculto no in­consciente.

VII

Os arquétipos do inconsciente coletivo

O trabalho que agora temos pela frente é elevar as relações já compreendidas ao nível do objeto para o nível do su­jeito. Com essa finalidade, temos que libertá-las do objeto e considerá-las como representações simbólicas de complexos sub­jetivos da paciente. Logo, ao tentarmos interpretar a figura de X ao nível do sujeito, temos que concebê-la de certa forma como personificação de uma parte da alma, ou seja, de um determinado aspecto da sonhadora. X torna-se nesse caso uma imagem daquilo que a paciente gostaria de ser e ao mesmo tempo rejeita. X representa, portanto, uma futura imagem uni­lateral do caráter da paciente. O artista de qualidades sinistras se deixa elevar de imediato ao nível do sujeito, já que o ele­mento dom artístico, adormecido na paciente, está preenchido por X. Teríamos razão em dizer que o artista é a imagem do masculino, não conscientizado pela paciente, e que, por este motivo, fica no inconsciente.1 Tanto isto é verdade que a cliente realmente equivocada em relação a si mesma a esse respeito. Acha-se uma pessoa particularmente delicada, sensível e feminina; nem um pouco masculina. Por isso reagiu com irritação e surpresa, quando pela primeira vez lhe chamei a atenção para os seus traços masculinos. Todavia, o fator as­sombro fascínio não condiz com os traços masculinos que encontramos nela. A primeira vista este aspecto está completamente ausente. Mas, a despeito disso, tem que estar em algum lugar, pois foi ela mesma que produziu essa sensação.

1 Denominei esse aspecto masculino na mulher Animus, e o aspecto feminino correspondente no homem, Anima. Ver parágrafo 296ss deste Volume. Veja também Emma Jung, Ein Beitrag zum Problem des Animus, em Wirklichkeit der Seele, 1947,

Quando o aspecto procurado não pode ser encontrado diretamente no sonhador, então (diz a experiência), sempre é projetado. Mas em quem? Estará no artista? A cliente não o via há muito tempo. É improvável que ele tenha levado a pro­jeção consigo, uma vez que a mesma está ancorada no incons­ciente da paciente. Além do mais, não tivera nenhuma relação pessoal com esse homem, apesar do fascínio que ele exercia sobre ela. No caso, tratava-se mais de uma fantasia. Não, se­melhante projeção é sempre atual, quer dizer, é preciso que haja alguém, em algum lugar, que esteja recebendo a projeção desse conteúdo. Caso contrário, ela o sentiria dentro de si.

Retornamos ao nível do objeto; pois não há outro jeito de encontrar essa projeção. A paciente não conhece homem algum que seja importante para ela, afora eu mesmo, que, sendo seu médico, muito significo. Logo, supõe-se que tenha projetado esse conteúdo em mim. No entanto, até esse mo­mento, eu nada percebera. Mas os elementos sofisticados nunca aparecem às claras. Sempre vêm à tona fora dos horários da sessão. Por isso, perguntei com toda cautela: “Diga-me, como é que a senhora me vê, quando não estou a seu lado? Sou sempre o mesmo?” Ela: “Quando estou aqui com o senhor, acho-o bem agradável, mas quando estou sozinha, ou quando deixo de vê-lo por algum tempo, a sua imagem se modifica; às vezes torna-se estranho. Ora vejo-o inteiramente idealizado, ora, bem diferente”. Neste ponto, interrompeu-se. Ajudei: “Sei; como é que é”.Ela: “Às vezes o senhor me parece perigoso, sinistro, como um feiticeiro mau, ou um demônio. Nem sei como posso pensar essas coisas! O senhor não é assim…”

Pronto. Aí estava a transferência. O conteúdo estava em mim, e por isso, ausente do inventário de sua alma. Assim fizemos o reconhecimento de mais um ponto essencial. Eu es­tava contaminado (identificado) com o artista. Em sua fanta­sia inconsciente, ela estava diante de mim, no papel de X. Foi fácil provar-lhe, recorrendo aos materiais previamente des­cobertos (fantasias sexuais). Mas, nesse caso, eu também sou o obstáculo — o caranguejo que a impede de atravessar. Se nos limitássemos ao nível do objeto, seria difícil encontrar uma solução. De que adiantaria, se eu declarasse: “Mas não tenho nada a ver com esse artista; não sou sinistro, nem bruxo, nem nada?” A paciente não ligaria a mínima, pois sabe disso tão bem quanto eu. A projeção não se alteraria; o verdadeiro obstáculo ao prosseguimento da análise era eu.

Chegado a este ponto, muito tratamento empaca. Pois não há outro modo de escapar das garras do inconsciente, a não ser que o médico se coloque pessoalmente ao nível do sujeito, isto é, se decida por uma imagem. Uma imagem do quê? Ai é que está a maior dificuldade. “Ora”, dirá o médico, “uma imagem de alguma coisa que está no inconsciente da paciente” e ela responderá: “O quê? Homem? Eu? E ainda mais um homem tenebroso, mal assombrado, bruxo perverso, demônio? Nunca, jamais! ah! não, essa não! Que grande asneira! Quem pode ser tudo isso, é o senhor!” E com razão reagirá assim. Seria um absurdo grande demais querer transferir tais coisas para a sua pessoa. Não pode permitir que a transformem em demônio; nem tampouco o médico. Nos seus olhos perpassa uma faísca; no rosto, uma expressão zangada, num lampejo de resistência desconhecida, nunca vista. Por um instante chego a recear um lamentável desencontro. Que será? Uma decepção amorosa? Sente-se ofendida, desvalorizada? Por trás de seu olhar espreita a fera, algo de realmente demoníaco. Será mes­mo um demônio? Ou sou eu essa fera ou demônio diante da vítima aterrorizada, que procura defender-se do meu feitiço mau, com todas as forças animais do desespero? Quem sabe tudo isso é uma tolice, uma fantástica obsessão. Em que fui mexer? Há uma nova corda a vibrar? Mas tudo não passa de um momento. O rosto da paciente readquire sua expressão tranqüila e, como que aliviada, ela diz: “É estranho — tive agora a sensação de que o senhor tocou no ponto; naquilo que nunca consegui superar em relação a minha amiga. É uma sensação terrível, uma coisa desumana, má, perversa. Uma sen­sação difícil de descrever de tão medonha e que, no momento, me enche de ódio e desprezo pela minha amiga, e que não consigo evitar, apesar do enorme esforço que faço”.

Essas palavras dão sentido ao que se passou. Assumi o lugar da amiga. A amiga está superada. O gelo da repressão foi rompido. A paciente entrou numa nova fase de sua exis­tência, sem saber. Sei perfeitamente que agora tudo o que havia de doloroso e ruim na relação com a amiga vai cair em cima de mim; o que havia de bom, também, certamente, mas mais violento conflito com a misteriosa incógnita que a Paciente nunca conseguira superar. Entramos numa nova fase da transferência. Ainda não transparecem indícios claros do que poderia ser o X projetado em mim.

Uma coisa está certa: se a cliente empacar nessa forma detransferência, corre-se o risco dos piores desentendimentos, terá que tratar-me como tratava a amiga, e o X vai estar sempre por aí, pondo equívocos em tudo. E vai acontecer o seguinte: vai ver o demônio em mim, porque não será capas de aceitar que a coisa está nela. Assim são produzidos todos os conflitos insolúveis. Um conflito insolúvel significa, antes de mais nada, estancamento da vida.

Haveria ainda outra possibilidade: a paciente aplica seus velhos meios de defesa contra essa nova dificuldade, sem fazer caso do X misterioso, isto é, reprime de novo, em vez de manter-se consciente, o que é condição básica, indispensável ao método. Nada se ganha com isso. Muito pelo contrário, pois agora a ameaça vem do inconsciente, e isso é bem pior.

Cada vez que surgir uma rejeição desse tipo, é preciso verificar se se trata realmente de uma qualidade pessoal ou não. “Feiticeiro” e “demônio” poderiam representar qualidades que, logo se vê, não caracterizam qualidades humanas, pessoais, mas mitológicas. “Feiticeiros” e “demônios” são figuras mitológicas, que exprimem a sensação desconhecida, “desumana” que se apoderou da paciente. Logo, esses atributos não são imputáveis a uma pessoa humana, apesar de geralmente serem pro­jetados em outras pessoas, na forma de juízos intuitivos, sem comprovação crítica e sempre em prejuízo da relação humana.

Tais atributos sempre indicam que são conteúdos projetados do inconsciente suprapessoal ou coletivo. Porque “demô­nios” não são reminiscências pessoais, nem tampouco “maus feiticeiros”, muito embora todo mundo já tenha lido ou ouvido estórias a respeito. O fato de se ter ouvido falar de cascavéis não vai afetar-nos a ponto de pensarmos imediatamente em cascavéis, quando uma lagartixa nos assustar com seu ruído. Da mesma forma, não podemos dizer de qualquer pessoa que ela é um demônio, a não ser que coisas maléficas estejam ligadas a ela. Mas se isso fosse um aspecto real do caráter da pessoa, ele seria mostrado abertamente, e essa pessoa seria verdadeiramente um demônio, uma espécie de lobisomem. Mas isso é mitologia-psique coletiva e não individual. Na medida em que fazemos parte da psique coletiva histórica, através do nosso inconsciente, é natural que vivamos inconscientemente num mundo de lobisomens, demônios, feiticeiros e tudo mais, porque, antes de nós, em todos os tempos, essas coisas afe­taram o mundo violentamente. É assim que também temos parte com os deuses e os demônios, com os santos e os fací­noras. No entanto, seria a maior insensatez atribuir-se essas potencialidades, existentes no inconsciente. Por isso é de rigor estabelecer-se a separação mais aguda possível entre o que de responsabilidade pessoal e o impessoal. É óbvio que isso não significa, em absoluto, negar a existência, talvez extrema­mente ativa, dos conteúdos do inconsciente coletivo. Mas na qualidade de conteúdos do inconsciente coletivo, confrontam-se com a psique individual e diferenciam-se dela. Naturalmente, essas coisas nunca foram separadas na consciência individual do homem ingênuo porque os deuses, os demônios, etc. não eram compreendidos por ele como projeções da alma, como conteúdos do inconsciente, mas como realidades indiscutíveis. Só a partir do Iluminismo é que se passou a negar a existên­cia real dos deuses e a considerá-los como projeções. Foi o fim dos deuses, mas não da função psíquica correspondente, que ficou reprimida no inconsciente. Isso fez com que o pró­prio homem ficasse intoxicado por um excesso de libido, antes aplicada ao culto da imagem divina. A desvalorização e repres­são de uma função tão importante como a religiosa tem, na­turalmente, enormes repercussões na psicologia do indivíduo. Pelo refluxo dessa libido, o inconsciente se fortalece extraordi­nariamente, passando a exercer uma influência colossal sobre a consciência, através dos seus conteúdos arcaicos coletivos. O período do Iluminismo encerrou-se, como é sabido, com os hor­rores da Revolução Francesa. Nos dias de hoje, estamos pre­senciando novamente ao levante das forças destrutivas incons­cientes da psique coletiva. O resultado foi um morticínio em massa, sem precedentes.2 Pois o que o inconsciente buscava era exatamente isso. Na fase precedente, a posição do incons­ciente tinha sido indevidamente fortalecida pelo racionalismo da vida moderna, que desvalorizava tudo quanto era irracional, e submergindo, assim, a função do irracional no inconsciente. Uma vez que esta função passe para o inconsciente, sua ação torna-se tão devastadora e irresistível como uma doença in­curável, cujo foco não pode ser extirpado, porque é invisível. E isso compele o indivíduo ou o povo a viver a irracionalidade. Não só a vivê-la, como a aplicar todo o seu idealismo, todo o seu engenho para tornar a loucura da irracionalidade tão per­ita quanto possível. Em escala menor, é o que podemos observar na nossa paciente, que fugia da opção de vida que lhe parecia irracional (a amiga X), para viver o mesmo, patologicamente, na relação conflituada com a amiga.

2. Isso foi escrito em 1916. Inútil observar que ainda hoje é válido.

Não há outra solução a não ser reconhecer o irracional como função psíquica necessária, porque sempre presente, e considerar os seus conteúdos, não como realidades concretas (o que seria um retrocesso!), mas como realidades psíquicas — realidades, uma vez que são atuantes, isto é, verdadeiras. O inconsciente coletivo é uma figuração do mundo, represen­tando a um só tempo a sedimentação multimilenar da expe­riência. Com o correr do tempo, foram-se definindo certos tra­ços nessa figuração. São os denominados arquétipos ou domi­nantes — os dominadores, os deuses, isto é, configurações das leis dominantes e dos princípios que se repetem com regula­ridade à medida que se sucedem as figurações, as quais são continuamente revividas pela alma.3 Na medida em que essas figurações são retratos relativamente fiéis dos acontecimentos psíquicos, os seus arquétipos, ou melhor, as características ge­rais que se destacam no conjunto das repetições de experiên­cias semelhantes, também correspondem a certas característi­cas gerais de ordem física. Este é o motivo pelo qual é possível transferir figurações arquetípicas, como conceitos ilustrativos da experiência diretamente ao fenômeno físico — ao éter, o elemento arcaico do sopro ou da alma, representado na ima­ginação geral, ou à energia, a força mágica — outra idéia uni­versalmente difundida.

3. Como já indicamos acima, os arquétipos podem ser interpretados como efeito e sedimento de experiências realizadas, mas também se manifestam como fatores que provocam tais experiências..

Devido ao seu parentesco com as coisas físicas,4 os arquétipos quase sempre se apresentam em forma de projeções, e j quando estas são inconscientes, manifestam-se nas pessoas com quem se convive, subestimando ou sobre-estimando-as, provo­cando desentendimentos, discórdias, fanatismos e loucuras de todo tipo. Não é outra a razão pela qual se diz que “fulano endeusou sicrano” ou “fulano de tal é a ‘bete noire’ de X”. Esta é a origem dos mitos modernos, em outras palavras, dos boatos fantásticos, das mil e uma desconfianças e preconceitos.! Os arquétipos são, portanto, coisas extremamente importantes, de efeito considerável, e que merecem toda a nossa atenção.! Não devem ser simplesmente reprimidos, mas, devido ao perigo! de contaminação psíquica, convém levá-los muito a sério. Como quase sempre se apresentam sob a forma de projeções, e estas só são possíveis quando alguém as recebe, avaliar e julgá-las é extremamente difícil. Pois bem, se alguém projeta o diabo no outro, é porque essa pessoa tem algo em si que possibilitar a fixação da imagem. Mas nem por isso essa pessoa tem que ser um diabo. Muito pelo contrário. Pode até ser uma pessoa boníssima, mas é incompatível com a pessoa que projeta, o que tem sobre elas um efeito “diabólico” (isto é, separador). Nem a pessoa que projeta precisa ser diabo (embora deva re­conhecer que dentro dela o diabólico também existe) como ainda por cima foi enganada por ele, uma vez que o projeta. Mas nem por isso é “diabólica”; pode ser uma pessoa tão correta quanto a outra. Surgindo o diabo, isso significa que essas duas pessoas são incompatíveis (pelo menos agora e num futuro próximo), razão pela qual o inconsciente provoca uma ruptura, afastando-as uma da outra. O diabo é uma va­riante do arquétipo da sombra, isto é, do aspecto perigoso da metade obscura, não reconhecida pela pessoa.

4. Ver: Die Struktur der Seele em: Seelenprobleme der Gegenwart, 1950, P- 149ss,Obras Completas, Vol. 8, § 331ss.

Outro arquétipo, com o qual deparamos quase que regu­larmente nas projeções de conteúdos coletivos do inconsciente, é o “demônio mágico”, de efeito predominantemente sinistro Bons exemplos são os personagens de Meyrink: o Golem, ou o feiticeiro tibetano de Fledermäusen (Morcegos), que desen­cadeia a guerra mundial pela magia. Evidentemente, Meyrink não aprendeu isso comigo. Foi uma produção espontânea do seu inconsciente, que deu forma e palavra a uma sensação se­melhante à que a minha paciente projetara em mim. O tipo feiticeiro também aparece no Zaratustra; no Fausto, é o pró­prio herói.

A imagem desse demônio deve pertencer a um dos estágios mais elementares e arcaicos do conceito de deus. É o tipo do primitivo feiticeiro da tribo ou xamã, personalidade dotada de poderes excepcionais, carregada de força mágica.5 Freqüen­temente aparece como uma figura de pele escura, de tipo mongolóide, quando representa um aspecto negativo, eventualmente Perigoso. Às vezes é difícil, quase impossível, diferenciar essa figura da sombra; mas quanto mais dominante for a nota mágica, mais fácil a diferenciação. Isso não é de pouca importância, visto que pode revestir-se do aspecto muito positivo dovelho sábio.6

5 A idéia do xamã, que freqüentaos espíritos e é dotado de forças mágicas, está tão profundamente arraizada entremuitos primitivos, que chegam até a supor que também há “doutores” no meio dosanimais. Os Aschumawis do norte da Califórnia falam de coites comuns e de “coiotes doutores”.

6. Cf. Über die Archetypen des kollektiven unbewussten 1934. Obras Completas, ver, também C. G. Jung, Bewusstes und Unbewusstes, Fischer Bücherei, 1957.

O conhecimento dos arquétipos significa um avanço importante. O efeito mágico ou demoníaco sobre a pessoa do outro desaparece, porque a sensação perturbadora é restituída a uma dimensão definitiva do inconsciente coletivo. Em compensação, é-nos proposta uma tarefa totalmente nova: a questão de como e de que maneira o eu deve lidar com esse não-eu psicológico. Será que basta constatar a existência atuante dos arquétipos, abandonando o resto à própria sorte?

Assim criaríamos um estado de dissociação permanente, isto é, uma cisão entre a psique individual e a psique coletiva. De um lado, teríamos o eu diferenciado e moderno, de outro, uma espécie de cultura negra, um estado primitivo. O estado real e atual das coisas ficaria assim exposto a uma nítida se­paração: por cima, a crosta da civilização, por baixo a besta de pele escura. Tal dissociação exige contudo uma síntese ime­diata, e o desenvolvimento daquilo que não está desenvolvido. É imprescindível reunificar essas duas partes; em caso con­trário, não haveria dúvida quanto ao resultado: o inevitável aniquilamento do primitivo, pela repressão. O único meio de evitá-lo é que uma religião válida, ainda viva, proporcione con­dições satisfatórias para que o homem primitivo se exprima através de uma simbologia fartamente desenvolvida. Em seus dogmas e ritos, essa religião necessita de imaginação e ação, inspiradas no que há de mais arcaico. Isso se dá no catolicis­mo: é sua maior força, mas também o seu maior perigo.

Antes de entrar na nova questão da reunificação, voltemos ao sonho que nos serviu de base. Essa explanação deu-nos uma melhor compreensão do mesmo, sobretudo de uma de suas partes essenciais: o medo. Esse medo é um medo arcaico dos conteúdos do inconsciente coletivo. Vimos que a identifi­cação da cliente com X revela simultaneamente sua relação com o artista que a perturba. Ficou demonstrado que o médico foi identificado com o artista e, além disso, passando ao nível do sujeito, eu era uma imagem da figura do feiticeiro em seu inconsciente.

O símbolo do caranguejo abrange tudo isso no sonho: o símbolo daquele que retrocede. O caranguejo é o conteúdo vivo do inconsciente, que não pode ser simplesmente esgotado ou anulado por uma análise ao nível do objeto. O que pudemos conseguir foi o desmembramento dos conteúdos mitológicos da psique coletiva dos objetivos da consciência e sua consoli­dação como realidades psíquicas exteriores à psique individual Através do ato do reconhecimento, “estabelecemos” a realidade dos arquétipos, ou mais exatamente, postulamos a existência psíquica desses conteúdos, com base no reconhecimento. É pre­ciso constatar, expressamente, que não se trata unicamente de conteúdos reconhecíveis, mas de sistemas psíquicos trans-subjetivos, amplamente autônomos, e portanto submetidos só muito condicionalmente ao controle do consciente e provavelmente até lhe escapando, em grande medida.

Enquanto o inconsciente coletivo, indiferenciado, ficar aco­plado à psique individual, nenhum progresso se fará, nem a fronteira será transposta — para usar a linguagem do sonho. Mas se a sonhadora se dispõe a atravessar a linha fronteiriça, o que antes era inconsciente se agita, agarra-a e a retém. O sonho e seu material caracterizam o inconsciente coletivo, por um lado, como um animal rasteiro que vive escondido no fundo da água, e por outro, como uma doença perigosa que, quando operada a tempo, pode ser curada. Já foi visto a que ponto essa caracterização é exata. Principalmente o símbolo do animal aponta, como já dissemos, para o extra-humano, para o suprapessoal; pois os conteúdos do inconsciente coletivo são, não só os resíduos de modos arcaicos de funções especifica­mente humanas, como também os resíduos das funções da su­cessão de antepassados animais do homem, cuja duração foi infinitamente maior do que a época relativamente curta do existir especificamente humano.7 Tais resíduos, ou — para usar a expressão de Semon — os engramas, quando ativos, têm a propriedade não só de interromper o desenvolvimento, como também de fazê-lo regredir, enquanto não estiver consu­mida toda a energia ativada pelo inconsciente coletivo. Mas a energia será recuperada, quando pudermos tomar consciência dela pela confrontação consciente com o inconsciente coletivo. As religiões estabeleceram de modo concretístico esse circuito energético, através da relação cultuai com os deuses. Mas esta solução fica fora de cogitação para nós por ser grande demais a sua contradição com o intelecto e sua moral de reconheci­mento; além disso foi, historicamente, totalmente superada pelo cristianismo. Mas quando concebemos as figuras do inconsciente como fenômenos ou funções da psique coletiva, não entramos em contradição com a consciência intelectual. É uma solução racionalmente aceitável. Com isso adquirimos também a possi­bilidade de lidar com os resíduos ativados da nossa história antropológica, o que permitirá que se transponha a linha divi­sória anteriormente existente. Por isso, chamei-lhe função trans­cendente (ver número 121), porque equivale a uma evolução progressiva para uma nova atitude.

7. HansGanz, em sua dissertação filosófica sobre o inconsciente em Leibniz, Das unbelwuste bei Leibniz in Beziehung su modernen Theorien, Zürich, 1917, recorreu à Semon da “mneme”, para explicar o inconsciente coletivo. O conceito de Semon da “mneme” antropológica cobre apenas parcialmente o conceito por mim elaborado do inconsciente coletivo. (Ver Semon, Die Mneme als erhaltendes Prinzip im Welchsel des organischen Geschehens, Leipzig, 1904).

São nítidos os paralelos com o mito dos heróis. O típico combate do herói contra o monstro (o conteúdo inconsciente) trava-se, não raro, à margem da água, ou também num vau, que é o caso dos mitos dos pele-vermelha, conhecidos através do Hiawatha de Longfellow. O herói sempre é engolido pelo monstro (tal como Jonas) na batalha decisiva. Isto foi mos­trado por Frobenius, que coligiu considerável material a res­peito. No interior do monstro, o herói começa a ajustar contas com ele. Enquanto o animal nada em direção ao Nascente, le­vando-o em seu bojo, o herói corta fora uma parte essencial das vísceras do monstro, como o coração, indispensável à vida (a energia, essencial à ativação do inconsciente). Depois de ma­tar o monstro, este é levado à deriva, até a terra firme; o herói sai, renascido depois da viagem noturna pelo mar 8 (função transcendente), freqüentemente acompanhado por todos aque­les que o monstro já havia devorado antes. Restabelece-se o estado normal anterior, pois o inconsciente, privado de sua energia, não ocupa mais uma posição preponderante. O mito ilustra, visualmente, o problema que preocupa a nossa paciente.9

8. Como é formulado por Frobenius, Das Zeitalter des Sonnengottes, 1904.

9. Os leitores interessados em aprofundar o problema dos contrários e sua bem como a atividade mitológica do inconsciente, queiram referir-se ao meu Wandlungen und Symbole der Libido, nova edição 1952: Symbole der Wandlung, Completas, Vol. 5; além de Psychologische Typen, Obras Completas, Vol. 6, e die Archetypen des kollektiven Unbewussten (ver acima Nota de rodapé 6).

Aqui tenho que salientar um fato importante, que o leitor já deve ter notado: neste sonho, o inconsciente coletivo apre­senta-se sob um aspecto negativo, como algo perigoso, preju­dicial. O motivo é a vida da paciente, tumultuada de fantasias, que a sufocam de tanta exuberância, o que deve estar relacio­nado com seus dons de escritora. O exagero da fantasia, con­tudo, é sintoma de doença: a paciente se detém excessivamente no fantástico, deixando a vida real passar ao largo. Um acrés­cimo de mitologia até seria perigoso para ela, porque ainda não viveu uma boa parte da vida exterior. Ainda não viveu su­ficientemente a vida real para poder arriscar-se a uma inversão do ponto de vista. O inconsciente coletivo tomou-a de assalto e ameaçava retirá-la de uma realidade insatisfatoriamente preenchida. Em conformidade com o sentido do sonho, o incons­ciente coletivo devia ser-lhe apresentado como algo de perigoso pois, caso contrário, de bom grado ela o teria escolhido como refúgio contra as exigências da vida.

Na apreciação de um sonho é importantíssimo notar como as figuras são introduzidas. Assim, por exemplo, o caranguejo que personifica o inconsciente é negativo, na medida em que “nada para trás”, além de prender a sonhadora no momento decisivo. Iludidos pelos “mecanismos do sonho” imaginados por Freud, como se fossem transposições, inversões e coisas seme­lhantes, acreditava-se que poderia ser o sonho interpretado in­dependentemente de sua “fachada”, já que ela encobria os seus verdadeiros pensamentos. Há muito tempo venho contra­pondo a esta posição o meu ponto de vista, de que não tem cabimento acusar o sonho de manobras como que para mistificar deliberadamente. Muitas vezes, a natureza é obscura, sem transparência, mas ela não usa de artimanhas, como o homem. Por isso devemos acreditar que o sonho é exatamente o que deve ser, nem mais, nem menos10: Quando representa alguma coisa em seu aspecto negativo, não há motivo para acreditar-se que isso deva ser interpretado no sentido positivo, ou coisa que o valha. O perigo representado pelo arquétipo no vau está tão claro, que gostaríamos de dar ao sonho quase que um caráter de advertência. Mas não posso aconselhar tais inter­pretações antropomórficas: o sonho em si não tem intenção alguma. Não passa de um conteúdo que se auto-representa, de uma simples coisa da natureza, como o açúcar no sangue do diabético, ou a febre num doente atacado de tifo. Nós é que fazemos dele uma advertência, quando somos capazes de in­terpretar inteligente e corretamente os sinais da natureza.

10. Cf. Allgemeine Gesichtspunkte zur Psychologie des Träumes, em Über psychische und das Wesen der Träume, Obras Completas, Vol. 8.

Mas advertência de quê? Parece que o perigo seria, no mo­mento de atravessar, que o inconsciente tomasse conta da so­nhadora. Mas o que significa isso? Nos momentos de modifi­cações e decisões importantes, é fácil haver uma irrupção do inconsciente. A margem em que a sonhadora está, e pela qual 3 aproxima do riacho, representa sua situação atual, como a conhecemos. Esta situação levou-a a um impasse neurótico, como se houvesse atingido um obstáculo invencível, mas o obstáculo é configurado no córrego transponível. Logo, não pareceser tão grave assim. Dentro do córrego, sem ser visto, espreita o caranguejo, representando o perigo propriamente dito, o perigo que faz com que o córrego seja, ou pareça ser intransponível. Caso houvesse um aviso de que o caranguejo ameaçador se encontrava naquele lugar, eventualmente pode­ria ter sido tentada a passagem em outro lugar, ou coisa pa­recida. Atravessar teria sido a coisa mais desejável naquela si­tuação precisa. Atravessar significa, por ora, transferir a situa­ção antiga para o médico. A novidade é esta. Não seria um risco muito grande, não fosse a imprevisibilidade do incons­ciente. Mas como vimos, a transferência ameaçava acionar fi­guras arquetípicas, imprevistas. “Fizemos a conta do restaurante sem o patrão” — para metaforizar — já que nos “esquecemos dos deuses”.

Nossa sonhadora não é religiosa. É moderna. Da religião que lhe haviam ensinado quando menina, não restava mais nada. Ignora que há momentos em que os deuses interferem, ou que, desde os primórdios, certas situações penetram nas mais insondáveis profundezas. O amor pertence a esse tipo de situação, com toda sua paixão e perigo. O amor pode suscitar forças insuspeitadas na alma, contra as quais seria melhor nos precavermos. O problema que se coloca aqui é o da “religio”, que se propõe a “levar na maior consideração” os perigos e poderes desconhecidos. De uma simples projeção pode nascer o amor, com todo o peso da fatalidade: uma ilu­são, um deslumbramento que poderiam arrancá-la do ritmo normal de sua vida. A sonhadora é colhida pelo bem ou pelo mal, por um deus ou por um diabo? Sem o saber, ela já se sente entregue às mãos do destino. E quem garante que ela agüentará a complicação? Até o momento, tudo fez para evitá-la, mas agora está prestes a agarrá-la. Deveríamos fugir desse risco, mas se tivermos que enfrentá-lo só nos resta “confiar em Deus” ou “ter fé” em que tudo corra bem. Assim se colo­cou, sem que se quisesse ou esperasse, a questão da atitude religiosa, frente ao destino.

Da maneira pela qual se configurou o sonho, não resta outra alternativa à sonhadora, senão tirar o pé com todo o cuidado; pois seria fatal, se continuasse por esse caminho. Ainda não está em condições de abandonar a situação neurótica, uma vez que o sonho não contém indícios positivos que lhe permi­tam confiar em qualquer tipo de ajuda do inconsciente. Asforças do inconsciente, pelo visto, ainda são pouco favoráveis e esperam que a sonhadora prossiga no trabalho de aprofun­dar seu conhecimento, antes de tentar atravessar realmente.

Com esse exemplo negativo, não pretendo dar a impressão de que o inconsciente sempre desempenha um papel negativo, por isso, acrescento mais dois sonhos de um rapaz 10a que projetam sua luz sobre um lado diferente e mais favorável do inconsciente. Faço-o com redobrado prazer, porque só é possí­vel resolver o problema dos contrários, seguindo pelo caminho irracional, apontado pelas contribuições do inconsciente através dos sonhos.

10a. Estes sonhos também são comentados no livro Bedeutung des Unbewussten für e Erziehung. Obras Completas, Vol. 17, § 266ss

Primeiro, quero familiarizar o leitor com a pessoa do so­nhador, sem o que seria difícil entrar na atmosfera peculiar dos sonhos. Existem sonhos que são pura poesia; portanto, só podem ser compreendidos dentro do seu clima geral. O sonha­dor é um rapaz de pouco mais de 20 anos e de aspecto bem infantil. Tem até mesmo um jeito de menina, tanto na apa­rência quanto nas expressões, e que deixam transparecer a esmerada educação e cultura recebidas. É inteligente e são grandes os seus interesses intelectuais e estéticos. O estético coloca-se indiscutivelmente em primeiro plano. Percebemos ime­diatamente seu bom gosto e uma acurada compreensão por todas as formas de arte. Sensível, sentimental, arrebatado de­vido ao seu caráter adolescente e um tanto feminino. Nenhum sinal da grosseria própria da puberdade. É incontestavelmente infantil para a sua idade; portanto, um caso de desenvolvi­mento retardado. Isso explica o homossexualismo, razão pela qual veio procurar-me. Na véspera da primeira consulta, teve o seguinte sonho: Estou numa catedral enorme; dizem que é a basílica de Lourdes. Uma penumbra misteriosa espalha-se por todo o santuário. No centro, um poço profundo. Deveria descer dentro dele.

Como se vê, o sonho exprime um clima coerente. O sonha­dor faz os seguintes comentários a respeito: “Lourdes é fonte dística de curas. É claro que ontem eu estava pensando no tratamento que vou fazer com o senhor, no intuito de sarar. Parece que em Lourdes existe um poço assim. Provavelmente e desagradável descer até essa água. Mas o poço da igreja era fundo”.

Pois bem, qual a mensagem do sonho? Aparentemente, é perfeita clareza. Poderíamos contentar-nos com sua interpretação como uma forma poética de exprimir a disposição do rapaz naquele dia. Mas nunca seria o bastante. Sabemos por experiência que os sonhos são muito mais profundos e significativos. Poderíamos até pensar que o cliente procurou o médico numa disposição poética e que iniciou o tratamento como quem entra num lugar sacrossanto, cheio de mistério e misericórdia, para assistir a um ofício divino. Mas isso não corresponde em absoluto à realidade dos fatos; tanto é que o cliente veio procurar o médico única e exclusivamente para tratar-se de uma coisa bem desagradável, ou seja, do homossexualismo. Nada menos poético. Na hipótese de uma causalidade tão direta para explicar a origem do sonho, o estado de espí­rito real da véspera não justificaria, em todo caso, um sonho tão poético. Mas mesmo assim poderíamos imaginar que foi por reação ao assunto extremamente antipoético que levou o rapaz a procurar a terapia, que ele teve tal sonho. Assim, o sonho mencionado seria tão carregado de poesia, justamente devido à carência poética da sua disposição da véspera; mais ou menos como alguém que sonha com fartas refeições à noite, depois de ter jejuado o dia inteiro. Não se pode negar que o sonho evoca o pensamento do tratamento, da cura, dos dissa­bores do processo — mas transfigurado em poesia, numa for­ma efetivamente condizente com a ardente necessidade esté­tica e emocional do sonhador. Ele será inevitavelmente atraído por esse quadro convidativo, apesar da escuridão e da gélida profundidade do poço. Alguns vestígios da atmosfera desse so­nho sobreviverão ao sono e perdurarão até a manhã do fami­gerado dia de cumprir um dever tão antipoético. As sensações do sonho talvez dêem um toque dourado à triste realidade, noSerá esta a finalidade do sonho? Não seria impossível, pois, de acordo com a minha experiência, a grande maioria dos sonhos é de natureza compensatória.11 Eles sempre acentuam o outro lado, a fim de conservar o equilíbrio da alma. A com­pensação do clima, porém, não é a única finalidade da imagem do sonho. Ele também retifica a concepção do paciente. As idéias que ele tem a respeito do tratamento são insuficientes. Mas o sonho dá-lhe uma imagem que caracteriza, numa metá­fora poética, a natureza do tratamento a que vai submeter-se. Isso se torna evidente, à medida em que acompanhamos as associações e observações que ele faz a respeito da catedral.

11 O conceito da compensação já foi amplamente utilizado por Alfred Adler.

“A catedral”, diz ele, “me lembra a catedral de Colônia. Na minha infância, essa catedral já me impressionava muito. Re­cordo-me que foi minha mãe quem primeiro me contou coisas a respeito. Lembro muito bem que, naquela época, quando via uma igreja de aldeia, perguntava se era a catedral de Co­lônia. Queria ser padre numa catedral dessas”.

Essas associações referem-se a uma experiência infantil ex­tremamente importante para o paciente. Como em quase todos os casos desse tipo, ele tem uma profunda ligação afetiva com a mãe; não necessariamente uma relação consciente, boa e intensa, mas sim uma espécie de ligação secreta, subterrânea, que, em nível consciente, se exterioriza apenas no desenvolvi­mento retardado do caráter e num relativo infantilismo. O de­senvolvimento da personalidade naturalmente faz pressão con­tra a ligação inconsciente, infantil do jovem, pois não há obstá­culo maior ao desenvolvimento do que a permanência num estado inconsciente, psiquicamente embrionário. Por isso, o instinto aproveita a primeira oportunidade para substituir a mãe por outro objeto. Em certo sentido, esse objeto precisa ter alguma analogia com a mãe, para que sirva realmente de substituto. É o que acontece com o nosso cliente, sem tirar nem pôr. A intensidade com que o símbolo da catedral de Co­lônia foi captada por sua fantasia infantil, corresponde a uma necessidade inconsciente, muito forte, de encontrar um substi­tuto para a mãe. Nos casos em que a ligação infantil repre­senta um risco prejudicial, esta necessidade é maior. Daí o en­tusiasmo com que sua fantasia infantil acolhe a idéia da igreja — igreja é mãe, em todos os sentidos, plenamente. A Santa “Madre” Igreja, o “seio” da Igreja, são expressões usuais. Na cerimônia da “benedictio fontis” da Igreja Católica, a pia batismal é invocada como “immaculatus divini fontis uterus” (útero imaculado da fonte divina). Talvez se acredite que é preciso conhecer conscientemente tal significado para que ele se manifeste na fantasia, e que é impossível, para uma criança ignorante, ser tomada por ele. Mas essas analogias não atuam Por vias conscientes, seus canais são outros.

A igreja representa um substituto espiritual mais elevado para a ligação com os pais, que é apenas uma ligação natural, carnal”, por assim dizer. Sua função é libertar os indivíduos de uma relação inconsciente, natural; para sermos exatos, não trata propriamente de uma relação, mas de um estado de identidade inconsciente, inicial, arcaico. A inconsciência impregna este estado de uma preguiça sem igual, que opõe grande resistência a qualquer desenvolvimento espiritual mais elevado. Seria difícil dizer em que consiste a diferença fundamental entre um tal estado e a alma animal. Ora, não é prerrogativa e intenção da igreja cristã libertar o indivíduo desse seu pri­mitivo estágio animalesco, mas ela é a forma moderna, espe­cificamente ocidental, que responde a uma aspiração instintiva, tão antiga, talvez, quanto a própria humanidade. Essa aspira­ção se exprime das mais variadas formas, entre quase todos os primitivos, inclusive entre aqueles que, embora um pouco desenvolvidos, ainda não tornaram a degenerar: trata-se da ins­tituição da iniciação ou sagração do homem. O jovem que atinge a puberdade é conduzido à casa dos homens ou a qual­quer outro local destinado à consagração. Lá, é sitematicamente alienado da família. É iniciado ao mesmo tempo nos segredos da religião, numa relação totalmente nova, revestido de uma personalidade nova e diferente, é introduzido num mundo novo, como um “quasi modo genitus” (como que re­nascido). A iniciação freqüentemente implica toda uma gama de torturas, circuncisão ou coisas do gênero. Esses costumes são, sem dúvida, antiqüíssimos. Já se tornaram quase que um mecanismo instintivo, tanto é que encontram formas sempre novas de se reproduzirem, sem qualquer exigência formalmente prescrita. Refiro-me aos “batismos” estudantis, aos “trotes de calouros”, e a todos os excessos praticados pelos veteranos dos grêmios estudantis americanos contra os novatos. Esses hábi­tos estão soterrados no inconsciente, em forma de imagem primordial.

A história da catedral de Colônia, que a mãe contou ao garoto, tocou nessa imagem primordial, despertando-a para a vida. Mas não apareceu um sacerdote educador, que tivesse dado continuidade ao processo recém-iniciado. Este permane­ceu nas mãos da mãe. O anseio pelo homem orientador deve *ter desabrochado no menino, porém sob a forma de uma ten­dência homossexual. Eventualmente, esta falha poderia ter sido evitada, se um homem tivesse cuidado do desenvolvimento de sua fantasia infantil. Ora, o desvio para o homossexualismo tem, na história, numerosos exemplos. Na Grécia antiga, como em outras sociedades primitivas, homossexualismo e educação eram, por assim dizer, idênticos. Neste sentido, a homossexua­lidade da adolescência é uma aspiração pelo homem, mal interpretada, mas nem por isso menos oportuna. Talvez também se possa afirmar que o medo do incesto, que se origina no complexo materno, torna-se extensivo a todas as mulheres. Con­tudo, na minha opinião, um homem imaturo tem toda a razão de temer as mulheres, pois, em geral, as suas relações com elas são um fracasso.

Segundo o sonho, começar o tratamento significa, para o paciente, realizar o verdadeiro sentido da sua homossexualida­de, isto é, introduzir-se no mundo do homem adulto. O sonho resumiu, em poucas e expressivas metáforas, aquilo sobre o que estamos refletindo penosamente, demoradamente, numa ten­tativa de compreensão plena; e criou uma imagem atuante so­bre a fantasia, sobre o sentimento e a compreensão do so­nhador, incomparavelmente mais rica do que o tratado mais erudito. O sonho preparou o paciente para o tratamento me­lhor e com mais sentido do que a mais completa coleção de ensaios médicos e educativos do mundo. (Por isso considero o sonho não só como uma fonte preciosa de informações, mas também como um instrumento educativo e terapêutico eficientíssimo).

Logo em seguida, meu cliente teve um segundo sonho. An­tes de continuar, quero deixar claro que o sonho que acaba­mos de comentar não foi analisado na primeira consulta. Nem sequer foi mencionado. Nada foi dito que tivesse a mais re­mota relação com o que acabamos de dizer. O segundo sonho foi o seguinte: Estou dentro de uma enorme catedral gótica. No altar, está um padre, eu de pé, diante dele. Tenho a meu lado um amigo, e nas mãos, uma estatueta japonesa de mar­fim; tenho a sensação de que essa estatueta deve ser batizada. De repente aparece uma senhora de certa idade, tira o anel do grêmio acadêmico da mão de meu amigo e coloca-o em seu próprio dedo. Meu amigo tem medo de que isso o com­prometa. Mas nesse momento ressoa o som maravilhoso de um órgão.

Só quero salientar aqui, rapidamente, os pontos que con­tinuam e complementam o sonho anterior. Este segundo sonho – inegavelmente a continuação do primeiro. O sonhador en­contra-se novamente dentro da igreja; logo, no estado propício sagração do homem. Juntou-se-lhe uma nova figura: a do Padre, cuja ausência observamos na situação anterior. O sonho foi o seguinte: O sentido inconsciente da sua homossexualidade foi preenchido; agora pode iniciar-se uma nova etapa de seu desenvolvimento. A cerimônia da iniciação propriamente dita, quer dizer, o batismo, pode ser iniciado. No simbolismo do sonho está confirmado o que eu dizia anteriormente: a reali­zação de tais transições e transformações de alma não é prer­rogativa da igreja cristã, mas por detrás está uma imagem viva, arcaica, capaz de operar tais mutações à força.

O sonho indicava que o que devia ser batizado era uma estatueta japonesa de marfim. O paciente faz a seguinte obser­vação a respeito: “Era um homenzinho grotesco, que me lem­bra o órgão genital masculino. É estranho que esse membro tivesse que ser batizado. Mas entre os judeus a circuncisão é uma espécie de batismo. Deve ter alguma relação com o meu homossexualismo; pois o amigo que está comigo, ao pé do altar, é aquele com quem tenho a ligação homossexual. Ele está na mesma corporação acadêmica que eu. O anel representa provavelmente essa ligação”.

Na vida cotidiana, o anel é um sinal de união ou de rela­ção; todos sabem disso: basta pensar na aliança. Portanto, esse anel pode ser interpretado tranqüilamente como uma metáfora da relação homossexual; o fato do sonhador apresentar-se ao lado do amigo deve significar o mesmo.

Ora, o mal que se quer tratar é o homossexualismo. Com a ajuda do sacerdote, e por meio de uma espécie de cerimônia de circuncisão, o sonhador há de transferir-se desse estado de relativa infantilidade para um estado adulto. Tais pensamentos correspondem exatamente às minhas reflexões acerca do sonho anterior. Até aí, com o recurso das imagens arquetípicas, o de­senvolvimento estaria se processando, com lógica e sentido. Mas neste ponto algo vem atrapalhar, aparentemente. Uma senhora de certa idade apropria-se subitamente do anel da cor­poração. Em outras palavras, a partir deste incidente tudo que até então era relação homossexual fica polarizado por ela. Isto faz com que o sonhador tenha medo de uma nova relação comprometedora. O anel passa para um dedo de mulher, o que significaria uma espécie de casamento, ou melhor, a rela­ção homossexual teria evoluído para uma relação heterossexual, mas uma relação heterossexual um tanto estranha, pois trata-se de uma senhora de certa idade. “É uma amiga da minha mãe”, diz o paciente. “Gosto muito dela; para dizer a verdade, ela é para mim uma amiga-mãe”.

Por aí podemos deduzir o que acontece no sonho. A sagra­ção faz com que a ligação homossexual seja desfeita, e em seu lugar se estabeleça uma relação heterossexual; primeiro, uma amizade platônica com uma mulher de tipo maternal. Apesar da semelhança materna, essa mulher já não é a mãe. A rela­ção significa, portanto, deixar a mãe para trás. Logo, uma superação parcial da homossexualidade adolescente.

O medo da nova ligação é compreensível. Primeiro, o medo da semelhança com a mãe poderia significar devido à disso­lução da relação homossexual uma total regressão à mãe; se­gundo, o medo do novo e do desconhecido, inerente ao estado adulto heterossexual, poderia acarretar conseqüências e res­ponsabilidades, como casamento, etc. A música do fim do so­nho parece confirmar que não se trata de um retrocesso, mas de um avanço. Pois o paciente é dotado de grande sentido musical e a solenidade do órgão o emociona fortemente. A música tem uma conotação muito positiva para ele, logo o fim do sonho é reconciliador, e essa sensação de beleza e sole­nidade se estende pela manhã do dia seguinte.

Se levarmos em consideração que até o momento desse sonho o meu cliente tinha tido uma única sessão, e que essa consulta não passou de uma simples anamnese médica geral, todos hão de reconhecer que esses dois sonhos foram anteci­pações surpreendentes. A situação do paciente é iluminada por uma luz estranha, alheia à consciência, por um lado, e por outro, empresta à situação médica, banal, um aspecto tão ajus­tado às características espirituais do sonhador, a ponto de ser­vir de vetor aos seus interesses estéticos, intelectuais e religio­sos. Isto criou as melhores perspectivas imagináveis para o tratamento. A significação desses sonhos nos dá quase a im­pressão de que o paciente começou o tratamento com a maior disponibilidade, esperançoso, e pronto para desembaraçar-se de sua infantilidade e transformar-se num homem. Na realidade, Porém, não foi assim. O consciente estava cheio de hesitações e resistências; à medida em que prosseguia o tratamento, re­velou-se rebelde e difícil, sempre pronto a reincidir na infanti­lidade antiga. Portanto, os sonhos estavam em estrita oposi­ção ao comportamento consciente. Os sonhos são progressistas * tomam o partido do educador. Deixam transparecer clara­mente sua função específica. Esta função foi por mim definida como compensação. A progressividade inconsciente e o atraso consciente formam um par de contrários, que equilibram, por assim dizer, os pratos da balança. O educador funciona como o fiel da balança.

As imagens do inconsciente coletivo desempenham um pa­pel extremamente positivo, no caso desse rapaz. Provavelmente devido ao fato de não apresentar a tendência perigosa de re­gredir a um substitutivo fantástico para a realidade, dele fa­zendo uma trincheira contra a vida. Há um quê de fatalidade no efeito das imagens inconscientes. Talvez — quem sabe! — esses quadros são o que chamamos de destino.

Naturalmente o arquétipo está agindo sempre e em toda parte. Mas o tratamento prático nem sempre exige o aprofun­damento desse aspecto, principalmente quando o paciente é jovem. No entanto, no momento da transição para a segunda metade da vida, é necessário dar uma atenção toda especial às imagens do inconsciente coletivo; pois são elas que forne­cem as pistas para a solução do problema dos contrários. Da elaboração consciente desses dados resulta a função transcen­dente, enquanto formação de uma concepção que integra os contrários, socorrendo-se dos arquétipos. Por “concepção” não pretendo designar apenas a compreensão intelectual, mas um compreender pela experiência. Como já dissemos, um arquétipo é um quadro dinâmico, uma parte da psique objetiva, que só conseguimos entender corretamente quando vivenciada como uma coisa autônoma colocada fora de nós e à nossa frente.

Não tem sentido teorizar a respeito desse processo, que pode ser muito demorado e mesmo que fosse possível descre­vê-lo é bom saber que ele pode assumir formas que variam enormemente de caso para caso. A única coisa que eles têm em comum é o aparecimento de determinados arquétipos. Men­ciono especialmente a sombra, o animal, o velho sábio, a Ani­ma, o Animus, a mãe, a criança, além de um número indefinido de arquétipos que representam situações. Destacam-se os ar­quétipos que representam a meta ou as metas do processo evolutivo. O leitor interessado encontrará as necessárias infor­mações no capítulo Traumsymbolen des Individuationsprozesses12(Símbolos oníricos do processo de individuação), bem como em Psychologie und Religion (Psicologia e Religião), e no trabalho que publiquei juntamente com Richard Wilhelm. Das Geheimnis der goldenen Blüte13(O Segredo da Flor de Ouro).

12. Em Psychologie und Alchemie, 1952 — Obras Completas, Vol. 12.

13. Obras Completas, Vols. 11 e 13.

A função transcendente não se desenvolve sem meta, mas conduz à revelação do essencial no homem. No início não passa de um processo natural. Há casos em que ela se desen­volve sem que tomemos consciência, sem a nossa contribuição, e pode até impor-se à força, contrariando a resistência do in­divíduo. O sentido e a meta do processo são a realização da personalidade originária, presente no germe embrionário, em todos os seus aspectos. É o estabelecimento e o desabrochar da totalidade originária, potencial. Os símbolos utilizados pelo inconsciente para exprimi-la são os mesmos que a humanidade sempre empregou para exprimir a totalidade, a integridade e a perfeição; em geral, esses símbolos são formas quaternárias e círculos. Chamei a esse processo de processo de individuação. Tomei o processo natural de individuação como modelo e diretriz para o meu método de tratamento. A compensação inconsciente de um estado neurótico da consciência contém todos os elementos que, quando conscientes, isto é, quando compreendidos e integrados como realidades na consciência, são capazes de corrigir eficaz e salutarmente a unilateralidade da consciência. É extremamente raro que um sonho atinja uma intensidade tal, que seu impacto derrote a consciência. Geral­mente, os sonhos são fracos e incompreensíveis demais para exercerem uma influência radical sobre a consciência. Logo, a compensação passa-se no inconsciente, sem efeito imediato. Apesar disso, produz efeito, mas um efeito indireto: a oposi­ção inconsciente, numa constante infração, vai arranjando sin­tomas e situações, que finalmente se contrapõem sem cessar às intenções conscientes. No tratamento esforçamo-nos, por con­seguinte, por compreender e respeitar, na medida do possível, os sonhos e demais manifestações do inconsciente; por um lado, para evitar a formação de uma oposição inconsciente, que, com o passar do tempo, pode tornar-se perigosa, e por outro, para utilizar, na medida do possível, o fator curativo da compensação.

Esse processo parte naturalmente do pressuposto de que o : homem é capaz de atingir sua totalidade, isto é, de que pode curar-se. Menciono esse pressuposto porque existem indivíduos que, indubitavelmente, no fundo, não são inteiramente aptos para viver e se aniquilam rapidamente, quando porventura se chocam com sua totalidade. Mas, quando isso não ocorre, sua vida transcorre até idade avançada, fragmentariamente, a modo de personalidades parciais, auxiliados pelo parasitismo social ou psíquico. Para a infelicidade dos seus semelhantes, tais indivíduos não passam freqüentemente de grandes impostores, que encobrem o seu vazio mortal com uma bela apa­rência. Querer tratá-los pelo método aqui descrito seria, desde o início, uma tentativa vã. O que “ajuda” nesses casos é man­ter as aparências; pois a verdade seria insuportável ou inútil.

No caso de um tratamento pelo método aqui indicado, a orientação vem do inconsciente. A crítica, a escolha e a decisão ficam reservadas ao consciente. Se a decisão foi certa, a con­firmação vem através dos sonhos que indicam progresso; se não foi, vem uma correção por parte do inconsciente. Assim sendo, o processa do tratamento é como que um diálogo inin­terrupto com o inconsciente. Está implícito em tudo o que foi dito antes, que o papel principal cabe à interpretação correta dos sonhos. Mas quando é que podemos estar seguros de que acertamos na interpretação? Existe — ainda que de modo aproximativo — um critério para sabermos se acertamos ou não? Felizmente podemos responder afirmativamente a esta pergunta. Quando erramos numa interpretação, ou quando a mesma ficou incompleta, já podemos percebê-lo, eventualmente, no sonho seguinte. Por exemplo, pela repetição mais nítida do tema anterior, ou por uma paráfrase cheia de ironia, que des­virtua a nossa interpretação, ou então, por uma oposição di­reta e vigorosa manifestada contra ela. Caso estas novas in­terpretações também sejam falhas, a ausência total de resul­tados e a inutilidade do nosso proceder serão logo sentidas no esvaziamento, na esterilidade e no absurdo do empreendimento. Tanto é que paciente e médico vão sufocando de tédio, ou dú­vida. Assim como a interpretação certa é recompensada pela renovação da vitalidade, a errada é condenada pela detenção, pela resistência, pela dúvida e, principalmente, pela obstrução de ambos os lados. É óbvio que também podem ocorrer inter­rupções no processo, devido à resistência do cliente, por exem­plo, que insiste e persevera em ilusões ultrapassadas ou em exigências infantis. Às vezes acontece que o próprio médico carece da necessária compreensão. Isso aconteceu-me certa vez com uma cliente muito inteligente. Por diversos motivos, ela me deixava na dúvida. Depois de um começo satisfatório, foi crescendo em mim a sensação de que a interpretação que eu estava dando aos seus sonhos não estava certa. Mas não con­seguia descobrir a origem do erro, e por isso tentava persua­dir-me de que não havia motivos para duvidar. Nas sessões, fui observando que a conversa ia perdendo o interesse, e pouco a pouco foi-se instalando a mais estéril monotonia. Por fim resolvi comunicá-lo à minha cliente, na primeira oportunidade. Segundo me pareceu, ela já o percebera. Na noite anterior, tive o seguinte sonho: Eu caminhava por uma estrada que corria por um vale iluminado pelo sol da tarde. À direita, um castelo, no topo de um rochedo íngreme. Em sua torre mais alta, havia uma mulher, sentada numa espécie de balaustrada. Para poder divisá-la, tive que inclinar a cabeça para trás, a tal ponto que acordei com uma sensação de cãibra no pescoço. No próprio sonho, reconheci que essa mulher era a minha cliente.

Tirei a seguinte conclusão: se no sonho era obrigado a fa­zer um tal esforço para poder vê-la lá no alto, na realidade, provavelmente, eu tinha olhado para ela muito em baixo. Quan­do lhe comuniquei o sonho com a interpretação, imediata­mente a situação se modificou e houve um progresso no tra­tamento que ultrapassou todas as expectativas. Experiências desse tipo ajudam-nos, afinal, a confiar plenamente na serie­dade das compensações nos sonhos. Mas não antes de termos pago, e a bom preço, a aprendizagem.

Todos os meus trabalhos e pesquisas das últimas décadas foram consagrados à rica problemática deste método de tra­tamento. Mas nesta apresentação da Psicologia complexa 14 — gostaria de intitular assim os meus ensaios teóricos — não pre­tendo dar mais do que uma orientação sumária, não entrarei aqui em pormenores sobre as implicações filosóficas e religio­sas, em todas as suas extensas ramificações científicas. Ao lei­tor interessado em ampliar os seus conhecimentos, só me resta recomendar a literatura já indicada.

14. Hoje designada como Psicologia Analítica. Ver T. Wolff, Einführung in die Grundlagen komplexen Psychologie, em Studien zu C. G. Jungs Psychologie, 1959.

VIII

A interpretação do inconsciente noções gerais da terapia

É um engano acreditar que o inconsciente é inofensivo e pode ser utilizado como objeto de jogos sociais. Não é em toda e qualquer circunstância que o inconsciente se mostra peri­goso, não resta dúvida, mas cada vez que se manifesta uma neurose, é sinal de que há no inconsciente um acúmulo espe­cial de energia, uma espécie de carga, que pode explodir. Aí todo cuidado é pouco. Para começar, não se sabe que tipo de reação provocamos, quando iniciamos uma análise dos so­nhos. Algo de invisível, de interior, pode ser acionado; algo mais tarde provavelmente teria vindo à tona, de uma forma ou de outra, mas que talvez também nunca se manifestaria. É como se, na perfuração de um poço artesiano, corrêssemos o risco de topar com um vulcão. Na presença de sintomas neu­róticos, é preciso proceder com o máximo cuidado / Mas os casos de neurose, nem de longe, são os mais perigosos. Existem pessoas, aparentemente normais, que não apresentam sintomas neuróticos específicos, e que até se vangloriam de sua norma­lidade (muitas vezes trata-se dos próprios médicos e educadores, exemplos de boa educação), que têm opiniões e hábitos de vida extremamente normais, mas cuja normalidade é uma compensa­ção artificial de uma psicose latente (oculta). Os próprios inte­ressados não desconfiam do seu estado. Seu pressentimento tal­vez só se exprima indiretamente pelo fato de demonstrarem um interesse acentuado pela psicologia e pela psiquiatria, sendo atraí­dos por essas coisas, como a mariposa pela luz. Como a técnica analítica aciona o inconsciente e o traz à luz do dia, ela destrói nestes casos a compensação salutar, e o inconsciente irrompe em forma de fantasias que não podem mais ser contidas; acarretando conseqüentemente estados de excitação. Elas podem conduzir, eventualmente, direto à doença mental, ou, antes que isso aconteça, provocar o suicídio. Estas psicoses latentes, infelizmente, não são tão raras como pode parecer,

O perigo de casos desse tipo é uma ameaça constante para a pessoa que lida com a análise do inconsciente, mesmo que disponha de grande experiência e habilidade. A inabilidade, as interpretações falsas ou arbitrárias, etc, podem pôr a perder casos que não teriam necessariamente uma conclusão trágica. Tal risco, aliás, não é exclusivo da análise do inconsciente, mas é inerente a qualquer intervenção médica, na medida em que esta for errada. A afirmação de que a análise deixa as pessoas transtornadas é obviamente tão tola quanto a idéia bastante difundida de que o psiquiatra inevitavelmente enloqueçerá de­vido ao seu contínuo contato com doentes mentais.

Abstração feita dos riscos do tratamento, o inconsciente em si já pode representar um perigo. Uma das formas mais comuns desse perigo é provocar acidentes. Acidentes de todo tipo — em número bem maior do que o público possa ima­ginar — são causados por fatores de ordem psíquica. A co­meçar por pequenos acidentes, como tropeçar, esbarrar, quei­mar os dedos, etc. até os acidentes automobilísticos e catás­trofes alpinistas: tudo pode ter origem psíquica e, às vezes, já está programado semanas ou até meses antes. Examinei grande número de casos dessa ordem, e pude comprovar que muitas vezes, semanas antes, os sonhos já revelaram uma ten­dência autodestrutiva. Todos os acidentes provocados por des­cuido, como se diz, deveriam ser investigados, sob este enfo­que. Sabemos muito bem que não só tolices de maior ou me­nor importância podem suceder-nos quando, por qualquer mo­tivo, não estamos bem, mas também estamos expostos a peri­gos que, em dados momentos psicológicos, podem até compro­meter a vida. O ditado popular: “Fulano ou sicrano morreu na hora certa”, exprime uma certeza intuitiva quanto à cau­salidade psicológica secreta do caso. Da mesma forma, podem ser provocadas ou prolongadas as doenças físicas. Um funcio­namento inadequado da psique pode causar tremendos pre­juízos ao corpo, da mesma forma que, inversamente, um so­frimento corporal consegue afetar a alma, pois alma e corpo ao são separados, mas animados por uma mesma vida. Assim sendo, é rara a doença do corpo, ainda que não seja de origem Psíquica, que não tenha implicações na alma.

Mas não seria justo salientar unicamente o lado negativo do inconsciente. É comum o inconsciente ser desfavorável, ou perigoso, por não concordarmos e, portanto, nos opormos a ele. A atitude negativa em relação ao inconsciente, isto é, a ruptura com o mesmo, é prejudicial, na medida em que a sua dinâmica é idêntica à energia dos instintos. 1A falta de solida­riedade com o inconsciente significa ausência de instinto, au­sência de raízes.

1. Ver Instinkt und Unbewusstes, em Über psychische Energetik und das Wesen der Träume, 1948, p. 261ss. Obras Completas, Vol. 8, § 263ss.

Quando conseguimos estabelecer a função denominada fun­ção transcendente, suprime-se a desunião com o inconsciente e então o seu lado favorável nos sorri. A partir desse momento, o inconsciente nos dá todo o apoio e estímulo que uma natu­reza bondosa pode dar ao homem em generosa abundância. O inconsciente encerra possibilidades inacessíveis ao conscien­te, pois dispõe de todos os conteúdos subliminais (que estão no limiar da consciência), de tudo quanto foi esquecido, tudo o que passou despercebido, além de contar com a sabedoria da experiência de incontáveis milênios, depositada em suas estruturas arquetípicas.

O inconsciente está em constante atividade, e vai combi­nando os seus conteúdos de forma a determinar o futuro. Pro­duz combinações subliminais prospectivas, tanto quanto o nosso consciente; só que elas superam de longe, em finura e alcance, as combinações conscientes. Podemos confiar ao inconsciente a condução do homem quando este é capaz de resistir à sua sedução.

O tratamento prático orienta-se pelo resultado terapêutico alcançado. O resultado pode sobreviver em qualquer etapa do tratamento, independentemente da gravidade ou da duração do mal. E, inversamente, o tratamento de um caso grave pode estender-se por muito tempo, sem atingir graus mais elevados de desenvolvimento, ou sem que os mesmos precisem ser atin­gidos. Existem “relativamente muitas pessoas que, mesmo de­pois de receber alta na terapia, percorrem etapas mais avan­çadas de transformação, por amor ao próprio desenvolvimento. Logo, não é verdade que é preciso ser um caso grave, para percorrer todo o desenvolvimento. Em todo caso, só os pre­destinados, os que são chamados desde o berço, os que têm capacidade e impulso para uma diferenciação maior, é que atingem um grau mais elevado de consciência. Como é sabido, as pessoas divergem enormemente neste aspecto. São compará­veis às espécies animais, que se distinguem em espécies con­servadoras e evolutivas. A natureza é aristocrática, mas não no sentido de reservar a possibilidade da diferenciação exclusiva­mente a espécies de alta categoria. O mesmo se dá com a pos­sibilidade do desenvolvimento psíquico: ela não é reservada apenas a uma elite de indivíduos particularmente bem dotados. Em outras palavras, para se completarem extensas etapas da evolução, não é preciso ter inteligência especial, nem outros talentos; pois neste desenvolvimento as qualidades morais po­dem suprir as lacunas da inteligência. O único que não se pode pensar é que o tratamento consista em inculcar fórmu­las gerais e teses complicadas nas pessoas. Não se trata disso. Cada qual pode conquistar o que necessita, à sua maneira e em sua própria linguagem. As explicações que dei neste traba­lho são formulações intelectuais; mas não é bem assim que conversamos durante a sessão de terapia. Os pequenos inci­dentes casuísticos que fui intercalando no texto já dão uma idéia mais aproximada do que seja o trabalho, na práxis.

Mas se o leitor, depois de todas as explanações dos capí­tulos precedentes, disser que ainda não conseguiu ter uma idéia clara sobre o que seja a teoria e a práxis da psicologia médica moderna, isso não seria de espantar. Eu atribuiria a culpa à precariedade dos meus recursos descritivos, insuficien­tes para englobar num quadro concreto e plástico todo aquele conjunto imenso de pensamentos e experiências que é o objeto da psicologia médica. A interpretação de um sonho, colocada no papel, pode parecer arbitrária, confusa e artificial, mas na realidade pode ser um drama de incomparável realismo. Viver um sonho e sua interpretação é algo bem diverso de uma morna infusão sobre o papel. No fundo, tudo é experiência nessa psicologia. Mesmo a teoria — até em suas elaborações mais abstratas — resulta diretamente de uma experiência. Por exemplo, quando faço restrições à unilateralidade da teoria se­xual de Freud, não quero dizer que ela se baseie numa espe­culação sem fundamento; muito pelo contrário, ela também I um retrato fiel de fatos reais, observados na práxis, forço­samente. Se estas observações deram ensejo ao desenvolvimento P teorias unilaterais, isso mostra apenas o enorme poder de persuasão, objetiva e subjetiva, dos fatos observados. É quase impossível exigir que o estudioso isolado se eleve acima das suas impressões pessoais mais profundas e de sua formulação abstrata; pois a aquisição dessas experiências, bem como a elaboração racional das mesmas, por si só já constituem tarefas para toda uma vida. Eu, pessoalmente, tive a grande vantagem em relação a Freud e Adler, de que a minha formação não veio da psicologia das neuroses e suas unilateralidades. Vim da psiquiatria, bem preparado por Nietzsche, para a psicologia moderna. Pude observar a interpretação freudiana e a con­cepção adleriana. Fui colocado, logo de início, no meio do conflito e vi-me obrigado a levar em conta a relatividade de todas as opiniões já existentes, bem como a dos meus pró­prios pontos de vista, isto é, a considerá-los como expressões de um determinado tipo psicológico. Como vimos, o caso de Breuer foi decisivo para Freud; assim também, uma experiên­cia decisiva está na origem das minhas próprias interpretações: o caso de uma jovem sonâmbula, que pude observar durante muito tempo, enquanto estagiava numa clínica, quando estu­dante. Tornou-se o tema da minha tese de doutoramento.2 Para um conhecedor da minha produção científica, a compa­ração desse estudo — feito 40 anos atrás — com as minhas idéias ulteriores não deixará de ter algum interesse.

2. Zur Psychologie und Pathologie sogenannter occulter Phänomene, 1902. Obras Completas, Vol. 1.

O trabalho neste campo é pioneiro. Muitas vezes me enga­nei e não raro tive que aprender tudo de novo. Mas sei — e por isso me conformei — que é só da noite que se faz o dia, e que a verdade sai do erro. As palavras de Guillaume Ferreros sobre a “misérable vanité du savant”3 serviram-me de advertência. Por isso nunca tive medo do erro, nem dele me arrependi seriamente. Porque, para mim, a atividade científica da pesquisa nunca foi uma vaca de leite, ou um meio de pres­tígio, mas um debate amargo, forçado pela experiência psi­cológica diária junto ao doente. Por este motivo, nem tudo o que exponho foi escrito com a cabeça; muita coisa também saiu do coração. Peço que isso seja levado em conta pela ge­nerosidade do leitor; quando ele, ao buscar a correção inte­lectual, deparar com trechos um tanto descosidos. Uma com­posição só pode ter fluência e harmonia, quando se escreve sobre coisas bem sabidas. Mas quando a necessidade de ajudar e de curar nos impele a sair à procura de novos caminhos, é inevitável que se fale de coisas que ainda não estão bem assimiladas.

3. Les lois psychologiques du symbolisme, 1895, p. VIII: “Cest donc un devoir moral de 1’homme de science de s’exposer à commettre des erreurs et à subir des critiques pour que la science avance toujours… Ceux qui sont doués d’un esprit assez sérieux pour ne pas croire que tout ce qu’ils écrivent est 1’expression de Ia vérité absolute et éternelle, approuveront cette théorie qui place les raisons de Ia science bien au-dessus de Ia misérable vanité et du mesquin amour propre du savant”. (É, pois, um dever moral do cientista arriscar-se a cometer erros e a sofrer críticas, para que a ciência continue avançando… os que forem dotados de suficiente seriedade de espírito para não acreditarem que tudo quanto escrevem é expressão da verdade absoluta e eterna, aprovarão esta teoria que coloca as razões da ciência bem acima da miserável vaidade e do mesquinho amor-próprio do homem erudito”.

Palavras finais

PARA finalizar, quero desculpar-me junto ao leitor, por ter ousado dizer, em tão poucas páginas, tantas coisas novas e de compreensão difícil. Estou pronto a receber sua crítica, porque considero que todo aquele que, afastando-se do cami­nho comum, se dispuser a abrir trilhas próprias, tem o dever de comunicar à sociedade tudo quanto encontrou em suas via­gens de exploração: se foi água fresca para o alívio dos seden­tos, ou apenas os desertos de areia do equívoco estéril. O primeiro serve para ajudar, o segundo, para prevenir. Mas não é a crítica particular de cada um dos contemporâneos, mas os tempos vindouros, que vão decidir se é verdade, ou não, tudo isso que acaba de ser descoberto. Existem coisas que ainda não são verdade, ou que hoje ainda não podem ser aceitas como verdade, mas amanhã talvez possam sê-lo. Quem for assim conduzido pelo destino, terá que trilhar esses caminhos próprios, apenas apoiado pela esperança e pelo olhar atento daquele que está consciente do seu isolamento e dos abismos que o ameaçam. O que singulariza o caminho aqui descrito é em grande parte a certeza de não podermos continuar recor­rendo unicamente ao ponto de vista científico-intelectual, mas de que o nosso compromisso também compreende todo o lado do sentimento, isto é, a totalidade das realidades contidas na alma — já que lidamos com uma psicologia fundada na vida real e que age sobre a vida real. Nesta psicologia prática, não se trata da alma humana universal, mas de homens e mulheres individualizados, cada qual com uma variedade de problemas que os afligem diretamente. Uma psicologia que satisfaz uni­camente ao intelecto, jamais é praticável; pois o intelecto por si só nunca será capaz de abranger a totalidade da alma. Quer queiramos, quer não, mais cedo ou mais tarde o fator cosmo-visão terá que ser levado em conta, porque a alma está em busca da expressão de sua totalidade.

APÊNDICE

Novos caminhos da psicologia1

1. Primeira versão de: Über die Psychologie des Unbewussten. Aparecida em: Raschers jahrbuch für Schweizer Art und Kunst. Zürich 1912. Este trabalho foi novamente refundido pelo prof. Jung e acrescido de alguns capítulos, em 1917, e publicado sob o título de. Die Psychologie der unbewussten Prozesse. Depois de outra elaboração resultou cortes feitos na versão definitiva, tal como figura na parte principal deste volume. Os seguir cortes feitos na primeira versão são colocados entre parênteses para que o leitor possa seguir o desenvolvimento deste primeiro ensaio

1. OS PRIMÓRDIOS DA PSICANÁLISE

COMO todas as ciências, a psicologia também teve sua época escolástica, que perdura em parte até nossos dias. Pode-se objetar a este tipo de psicologia o fato de decidir ex-cathedra como a psique deve constituir-se e quais as qualidades que lhe cabem neste mundo e no outro. O espírito da moderna ciência natural acabou com tais fantasias, estabelecendo em seu lugar um método empírico exato. Daí surgiu a psicologia experimental hodierna, ou “psicofisiologia” como a chamam os franceses. O pai deste movimento foi Fechner, espírito contestador que, com sua Psychophysik2, ousou introduzir o ponto de vista físico na concepção dos fenômenos psíquicos. Esta idéia e não o erro admirável desta obra representou uma ver­dadeira força fecundante. Contemporâneo de Fechner e mais jovem do que ele, Wundt foi, por assim dizer, o aperfeiçoador da obra do primeiro. Sua grande erudição, capacidade de trabalho e gênio no campo da investigação de novos métodos experimentais criaram a tendência dominante da psicologia moderna.

2. Leipzig 1860.

Há pouco tempo ainda a psicologia experimental era essen­cialmente acadêmica. A primeira tentativa digna de nota no sentido de aproveitar, pelo menos alguns dos numerosos mé­todos na prática psicológica, partiu dos psiquiatras da antiga escola de Heidelberg (Kraepelin, Aschaffenburg, e outros); os médicos dos processos mentais sentiram pela primeira vez, tal como se pode supor, a necessidade premente de um conheci­mento exato dos fenômenos psíquicos. Em segundo lugar, a Pädagogik apareceu com suas próprias exigências no campo da psicologia. Daí surgiu recentemente uma “pedagogia expe­rimental”, em cujo campo Meumann, na Alemanha e Binet, na França, prestaram uma contribuição importante.

Para ajudar realmente seus pacientes, o médico “especia­lista em moléstias nervosas” precisa forçosamente dispor de conhecimentos psicológicos. Tudo que é designado pelo termo de “estado nervoso”: a histeria, etc, tem uma origem psíquica e requer, portanto, logicamente, um tratamento psíquico. Água fria, luz, ar, eletricidade, magnetismo, etc, tem um efeito tran­sitório e na maior parte dos casos são absolutamente inúteis. Representam às vezes artifícios de má reputação, no sentido de sugestionar o paciente. A doença, no entanto, radica na psique e assim na mais alta e complexa das funções, que difi­cilmente podemos incluir no campo da medicina. Aqui o médico deve ser também um psicólogo e isto significa que precisa ser conhecedor da psique humana. Ele não pode esquivar-se a esta necessidade. Assim pois terá de recorrer naturalmente à psicologia, uma vez que seus livros de psiquiatria nada lhe ensinam. A psicologia experimental hodierna está longe, porém, de poder comunicar-lhe uma visão articulada daquilo que cons­titui, praticamente, os processos mais importantes da psique, pois sua meta é outra. Ela procura isolar os processos mais simples e elementares, que ficam nos limites da fisiologia, a fim de estudá-los separadamente. É pouco amiga da infinita variedade e mobilidade da vida psíquica individual e por isso seu conhecimento da realidade e dos detalhes essenciais dessa vida carece de conexão orgânica. Portanto, quem quiser conhe­cer a psique humana infelizmente pouco receberá da psicologia experimental. O melhor a fazer seria [pendurar no cabide as ciências exatas, despir-se da beca professoral, despedir-se do gabinete de estudos e caminhar pelo mundo com um coração de homem: no horror das prisões, nos asilos de alienados e hospitais, nas tabernas dos subúrbios, nos bordéis e casas de jogo, nos salões elegantes, na Bolsa de Valores, nos “meetings” socialistas, nas igrejas, nas seitas predicantes e extáticas, no amor e no ódio, em todas as formas de paixão vividas no pró­prio corpo, enfim, em todas essas experiências, ele encontraria uma carga mais rica de saber do que nos grossos compêndios.

Então, como verdadeiro conhecedor da alma humana, tomar-se-ia um médico apto para ajudar seus doentes. Poder-se-ia perdoar-lhe o pouco respeito pelas assim chamadas “pedras angulares” da psicologia experimental. Pois entre o que a ciência chama de “psicologia” e o que a práxis da vida diária espera da “psicologia” “há um abismo profundo”.

Tal deficiência tornou-se o ponto de partida de uma nova psicologia. Em primeiro lugar devemos sua criação a Sigmund Freud, de Viena, o médico genial e investigador das doenças nervosas funcionais. Pode-se designar a psicologia inaugurada por ele como uma psicologia analítica. Bleuler sugeriu o nome de “psicologia profunda”3 a fim de indicar que a psicologia freudiana trata das regiões profundas, ou do interior da psique que também se designa pelo nome de inconsciente. O próprio Freud chamava o método de sua investigação de psicanálise. É este o nome pelo qual sua posição psicológica é geralmente conhecida.

3. E Bleuler, die Psychoanalyse Freuds. Jahrbuch für psychoanalytische Forschungen.

Antes de entrar na exposição dos fatos propriamente ditos, queremos dizer algo sobre suas relações com a ciência até então reconhecida. Aqui deparamos com um espetáculo curioso, que confirma a verdade desta observação de Anatole France: “Les savants ne sont pas curieux”. O aparecimento da primeira obra de vulto 4 neste campo despertou apenas um fraco inte­resse, apesar de sua concepção fundamental e totalmente nova das neuroses. Alguns autores escreveram elogiosamente sobre ela, continuando na página seguinte a explicar os casos de his­teria segundo a velha maneira. Agiram mais ou menos como alguém que tendo louvado a idéia ou o fato da terra ser esfé­rica, continuasse calmamente a representá-la como se fosse plana. Depois desta publicação Freud publicou um ensaio 5 que passou quase completamente despercebido, embora contivesse, Por exemplo, observações de uma importância inestimável no campo da psiquiatria. Quando, em 1899, Freud escreveu a pri­meira verdadeira psicologia dos sonhos 6 (reinara até então na obscuridade noturna nesse domínio), as pessoas começa­ram a rir. Mas quando em meados da última década ele co­meçou a trazer à luz a psicologia da sexualidade 7, puseram-se insultá-lo, às vezes do modo mais obsceno e isto perdurou até recentemente.

4. J. Breuer und S. Freud, Studien über Hysterie, 1895.

5. Sammlung kleiner Schriften zur Neurosenlehre, 2 Bände. 1906.

6. Die Traaumdeutung. 1900.

7.Die Abbandlungen zur Sexualtheorie, 1905.

O cuidado com que essas obras foram estu­dadas pode ser reconhecido na ingênua observação de um dos mais eminentes neurologistas de Paris, por ocasião do Congres­so Internacional de 1907, durante o qual ouvi com meus pró­prios ouvidos: “Eu não li as obras de Freud” (ele não conhecia a língua alemã). “Mas quanto às suas teorias, acho que não passam de uma “mauvaise plaisanterie”. [Freud, o digno e velho mestre, disse-me certa vez: “Para falar a verdade, só cheguei à clara consciência da minha descoberta, quando se manifestaram por todos os lados as resistências e a indigna­ção; desde então aprendi a julgar o valor da minha obra se­gundo o grau da resistência oposta a ela. Houve uma enorme onda de indignação contra a teoria sexual, parecia que o me­lhor era escondê-la. Os verdadeiros benfeitores da humanidade parecem ser os corruptores: a resistência contra os ensinamen­tos falsos incita o homem à verdade. Mas aquele que diz a ver­dade é, na opinião geral, um ser nocivo que incita o homem ao erro”.

O leitor poderá supor tranqüilamente que se trata, nesta psicologia, de algo inédito, mas que nada tem de racional, de uma sabedoria oculta ou sectária; pois quem poderia impedir todas as autoridades científicas de recusarem as coisas a limine?]

Olhemos no entanto mais de perto esta nova psicologia. Já nos tempos de Charcot sabia-se que o sintoma neuró­tico era “psicogênico”, isto é, proveniente da psique. Sabia-se também, graças aos trabalhos da escola de Nancy, que todo sintoma histérico pode ser produzido exatamente do mesmo modo pela sugestão. Mas não se sabia como um sintoma his­térico se origina na psique, uma vez que as conexões causais do psiquismo eram totalmente desconhecidas. No começo do século XVIII, o Dr. Breuer, um velho clínico de Viena, fez uma descoberta 8, que se tornou o verdadeiro ponto de partida da nova psicologia. Tinha uma jovem paciente de inteligência no­tável, que sofria de histerismo. Entre outros, manifestavam-se os seguintes sintomas: paralisia espástica (rigidez) do braço direito, e de vez em quando “ausências” ou estados crepusculares; ela perdera também o domínio da linguagem, isto é, não conseguia mais expressar-se na língua materna, mas somente falava o inglês (afasia sistemática). Propôs-se naquela época e ainda hoje são propostas teorias anatômicas para explicar esse distúrbio, apesar de que o centro cortical correspondente à fun­ção do braço apresente aqui um transtorno tão discreto como o que se manifesta no centro correspondente de uma pessoa normal [quando esta dá uma bofetada na outra]. A sintoma­tologia da histeria é cheia de impossibilidades anatômicas. Uma senhora que perdera completamente a audição por causa de uma afecção histérica, costumava cantar freqüentemente. Certa vez, enquanto cantava, seu médico sentou-se disfarçadamente a0 piano e começou a acompanhá-la, tocando de leve; ao passar de uma estrofe para outra, ele mudou de repente a tonalidade e a paciente, sem perceber, continuou a cantar na nova tona­lidade. Portanto, ela ouvia e não ouvia. As várias formas de cegueira sistemática apresentam fenômenos semelhantes. Um homem sofria de uma cegueira histérica total. No correr do tratamento recuperou a vista, a princípio só parcialmente e por um longo período de tempo; podia ver tudo, exceto as cabeças das pessoas. Via todos que o cercavam, mas sem as cabeças. Portanto, via e não via. Depois de um grande número de ex­periências dessa espécie concluiu-se, há muito, que só a cons­ciência dos doentes não vê e não ouve; as funções sensoriais, porém, nada apresentam de irregular. Tal fato contradiz dire­tamente o caráter orgânico da perturbação que sempre afeta a função, de um modo ou de outro.

8. V. Breuer und Freud, Studien über Hysterie. 1895.

Depois desta digressão, voltemos ao caso de Breuer. Não havia causas orgânicas que justificassem a perturbação, de mo­do que esta devia ser considerada como histérica, isto é, psicogênica. Breuer havia observado que, se durante os estados crepusculares da paciente (fossem eles espontâneos ou induzi­dos), conseguisse fazê-la narrar as reminiscências e fantasias que a pressionavam, isto a aliviava durante algumas horas. Ele utilizou sistematicamente esta observação no tratamento ulterior. A paciente inventou um nome que se aplicasse ao trata­mento, chamando-o de “talking cure” e também, por brincadeira, de “chimney-sweeping”.

Essa paciente adoecera ao tratar do pai, acometido de uma doença mortal. Naturalmente, suas fantasias se relacionavam de um modo geral com esse período de aflição. As reminiscências desses dias afloravam em seus estados crepusculares comi uma fidelidade fotográfica; eram tão vividas, em seus menores detalhes, a ponto de ser difícil acreditar que a melhoria desperta fosse capaz de uma reprodução de tal modo plástica e exata. (Dá-se o nome de hipermnesia a essa intensificação dos poderes da memória, que podem ocorrer facilmente em certos estados de consciência). Emergem então coisas sin­gulares. Uma dentre as muitas narrativas é mais ou menos esta:

“Numa noite de vigília, angustiada, à cabeceira do doente que estava muito febril, ela se sentia tensa, esperando um cirurgião de Viena que devia chegar para a operação. Sua mãe saíra do quarto por instantes e Ana (a paciente) sentou-se perto da cama do doente, o braço direito pen­dente por sobre o espaldar da cadeira. Ela mergulhou numa espécie de sono acordado e viu uma serpente negra sair da parede, aproximando-se do doente, como que para mordê-lo (provavelmente havia serpentes no campo, atrás da casa, que já haviam assustado a jovem e forneciam agora o material da alucinação). Ela queria afugentar o réptil, mas estava como que paralisada: o braço direito que pendia no espaldar da cadeira parecia “adormecido”, anestesiado, parético e como olhasse os dedos, ela os viu transformados em pequenas serpentes com caveirinhas [unhas]. Provavel­mente ela esforçou-se por afugentar a serpente com a mão direita para­lisada; assim o sentimento de anestesia e paralisia ficou associado à alu­cinação com a serpente. Quando, afinal, esta desapareceu, a jovem quis orar em meio à angústia, mas não conseguiu pronunciar uma só palavra. Lembrou-se finalmente de um versinho infantil, em inglês, e foi assim que continuou a pensar e a orar nesta língua”. 9

9. Breuer und Freud, Studien über Hysterie, p. 30.

Foi esta a cena que motivou a paralisia e a perturbação da linguagem e mediante a narração da mesma cena a pertur­bação desapareceu. Desta forma o caso foi resolvido satisfa­toriamente.

Contento-me em citar aqui este único exemplo. No livro já mencionado de Breuer e Freud encontramos numerosíssimos exemplos desta espécie. Compreendemos facilmente que cenas desta natureza são muito fortes o impressionantes; por isso há uma tendência a atribuir-lhes um significado causal no apa­recimento dos sintomas. A concepção corrente da histeria, nessa época, derivada na teoria inglesa do “nervous shock”, energicamente defendida por Charcot, era apropriada para ex­plicar a descoberta de Breuer. Daí originou-se a assim chamada teoria do trauma, a qual afirma que o sintoma histérico (e na medida em que os sintomas constituem a doença, a histeria em geral) deriva dos golpes psíquicos (traumas), cuja marca per­dura inconscientemente através dos anos. Freud, que começou colaborando com Breuer, confirmou exaustivamente tal desco­berta. Tornou-se claro que nenhum, dentre centenas de sinto­mas histéricos, surgia por acaso, mas que decorria de aconte­cimentos psíquicos. A nova concepção abriu um amplo campo para o trabalho empírico. Mas a mente investigadora de Freud não podia permanecer muito tempo neste nível superficial, uma vezque problemas mais difíceis e profundos começavam a aparecer. É óbvio que esses momentos de extrema ansiedade, tais como a paciente de Breuer experimentou, podem deixar uma impressão duradoura. Mas como ela poderia escapar a tais experiências se já trazia em si a marca da doença? Pode­ria ter sido a tensão de cuidar do doente o fator decisivo? Se assim fosse, deveria haver um número muito maior de acontecimentos dessa espécie, pois são muitos, infelizmente, os casos exaustivos de tal cuidado e a saúde nervosa da enfermei­ra nem sempre é excelente. A medicina deu uma ótima res­posta a esta questão: “O x do problema é a predisposição”. O indivíduo é portador de uma predisposição. Mas o problema, para Freud, consistia em saber o que constitui tal predisposição. Esta pergunta conduz logicamente ao exame da história ante­rior ao trauma psíquico. É um fato conhecido que cenas exci­tantes podem ter efeitos muito diferentes sobre as pessoas que delas participam. Sabe-se também que a visão de certas coisas é indiferente, ou mesmo agradável para algumas, despertando em outras, só em pensar, o maior horror: rãs, serpentes, ratos, gatos, etc. Há casos de mulheres que assistem tranqüilamente operações sangrentas, mas que tremem de medo ao contato de um gato. Conheço o caso de uma jovem senhora que sofria de uma histeria aguda, em conseqüência de um susto repentino. À meia-noite, depois de uma reunião, estava a caminho de sua casa em companhia de vários conhecidos, quando um coche apareceu atrás deles, em disparada. Todos se desviaram mas ela, como que fascinada pelo terror, ficou no meio da rua e começou a correr adiante dos cavalos. O cocheiro estalou o chicote, praguejou; foi inútil, ela continuava a correr rua abai­xo, até que esta desembocou numa ponte. Lá chegando, ela perdeu as forças e para não ficar sob as patas dos cavalos teria, em seu desespero, se atirado ao rio, se os transeuntes não a tivessem impedido. Pois bem, esta mesma senhora esti­vera no sangrento 22 de janeiro em São Petersburg, na mesma rua que foi “limpa” pelo fogo de artilharia. Em torno dela, à direita e à esquerda, caíam pessoas mortas ou feridas; ela po­rem com a maior calma e lucidez espreitava um portão pelo qual conseguiu escapar para outra rua. Este momento terrível não lhe causou qualquer dificuldade. Ela sentia-se depois perfeitamente bem — melhor do que seria o normal.

Reações semelhantes são freqüentemente observadas. Disto decorre o fato de que a intensidade do trauma em si mesmo tem pouco significado patogênico; tudo depende das circuns­tâncias particulares que o cercam. E aqui temos a chave da predisposição. Devemos portanto indagar: quais são as circuns­tâncias particulares da cena com o coche? O medo da paciente começou com o ruído dos cavalos galopando; por um instante isto lhe pareceu como que o presságio de algo terrível — sua morte ou qualquer coisa de espantoso. Depois, perdeu com­pletamente a consciência do que estava fazendo.

O efeito momentâneo proveio evidentemente dos cavalos. A predisposição da paciente para reagir de um modo tão es­tranho a este acontecimento banal residia no significado par­ticular de que os cavalos se revestiam para ela. Poder-se-ia conjeturar, por exemplo, que já lhe tivesse ocorrido algum acidente perigoso com cavalos. Era este realmente o caso. Apro­ximadamente aos sete anos de idade, durante um passeio com o cocheiro, os cavalos se espantaram de repente e, numa corrida desabalada, se aproximaram da margem abrupta de um rio que corria numa garganta profunda. O cocheiro pulou fora e lhe gritou para fazer o mesmo, mas ela se sentia imobilizada por um pavor mortal. Entretanto, no momento exato em que coche e cavalos se precipitavam no fundo, conseguiu saltar. Não há necessidade de provas para que se compreenda a im­pressão marcante causada por um fato desta espécie. Ele não esclarece, no entanto, por que mais tarde um sinal aparente­mente tão inofensivo desencadeou uma reação de tal modo insensata. Até agora só sabemos que o sintoma tardio teve um prelúdio na infância. Mas o aspecto patológico permanece obscuro. Para penetrar tal mistério, precisamos recorrer a ou­tras experiências. Tornou-se claro, com o enriquecimento da experiência que, em todos os casos analisados até agora, existe ao lado da experiência vital traumática uma espécie particular de perturbação, que só pode ser descrita como uma pertur­bação no domínio do amor. É certo que o “amor” constitui um conceito algo elástico, que vai do céu ao inferno, abrangendo o bem e o mal, o alto e o baixo.10 Mediante tal descoberta, a concepção de Freud operou uma transformação notável. Se mais ou menos sob o fascínio da teoria do trauma de Charcot ele buscara a origem da neurose nas experiências traumática deslocou agora o centro de gravidade do problema para um ponto inteiramente diverso. O nosso exemplo ilustra isto da melhor maneira possível. Podemos compreender que os cavalos tivessem desempenhado um papel especial na vida da paciente, mas não compreendemos sua reação tardia, tão exagerada e inoportuna. A peculiaridade patológica desta história não reside no fato de que ela se tenha apavorado com os cavalos. Lem­bremo-nos da descoberta empírica mencionada acima de que, ao lado dos acontecimentos vitais traumáticos, há geralmente uma perturbação no domínio do amor; neste caso, devemos pesquisar o que não vai bem em relação a este aspecto.

10. A antiga frase mística é válida também para o amor: “O céu em cima, o céu embaixo, o éter em cima, o éter embaixo, compreende isto e alegra-te”.

A paciente em questão conhecera um jovem e pensara em casar-se com ele; ela o amava e esperava ser feliz nessa união. A princípio, nada mais claro. Entretanto, nenhum elemento deve ser omitido devido à insignificância do aspecto superficial da questão. Há caminhos indiretos para alcançar a meta, quan­do falha a via direta. Voltemos, portanto, ao momento par­ticular em que a jovem senhora corria impensadamente à frente dos cavalos. Perguntamos acerca de seus companheiros e que espécie de reunião festiva fora aquela, da qual participara. Fora uma festa de despedida de sua melhor amiga que partia para longe, a fim de fazer uma estação de cura, por causa dos ner­vos abalados. Essa amiga é casada e, segundo dizem, feliz; é mãe de uma criança. Devemos, no entanto, desconfiar dessa informação, pois se ela fosse verdadeiramente feliz não teria razão alguma de ser “nervosa”, nem precisaria de uma cura. Perguntando acerca de outros pontos, fiquei sabendo que de­pois de ter sido socorrida pelos amigos, estes a levaram de volta à casa da amiga, por ser o refúgio mais próximo. Lá che­gando, exausta, foi recebida com hospitalidade. Neste ponto a paciente interrompeu a narrativa, ficou embaraçada, confusa e procurou mudar de assunto. Evidentemente tratava-se de algu­ma reminiscência desagradável, que viera à tona. Depois da mais obstinada resistência de sua parte, ficou bem claro que ocorrera naquela noite algo de muito singular: o amigo que a hospedava fez-lhe uma ardente declaração de amor, precipitando uma situação que devido a ausência da dona da casa deve ter sido difícil e penosa. Parece que essa declaração de amor caiu como um raio. Mas coisas deste tipo têm normalmente sua estória. Em algumas semanas desenterrei, peça por peça, uma longa história de amor, até que finalmente disso resultou um Quadro completo que tentarei esboçar aqui: quando criança, a paciente tinha sido um “Joãozinho” pueril, gostava só de brin­cadeiras selvagens de menino, zombava de seu próprio sexo e fugia a todas as ocupações femininas. Depois da puberdade, quando o problema erótico se acentuou, ela começou a evitar toda espécie de companhia e a odiar tudo aquilo que lembras-se, mesmo de longe, a disposição biológica do ser humano, vi­vendo num mundo de fantasias, que nada tinha em comum com a realidade brutal. Assim, até os vinte e quatro anos, evi­tou todas as pequenas aventuras, esperanças e expectativas que geralmente motivam as mulheres dessa idade. (Estas, no que se refere a este aspecto, são muitas vezes insinceras consigo mesmas e com o médico). Ela conheceu então, mais de perto, dois homens que deveriam quebrar a cerca de arame farpado que pusera em torno de si. A. era o marido de sua melhor amiga e B., seu amigo solteiro. Ela gostava de ambos. Logo, porém, pensou preferir muito mais B. Assim, logo se estabele­ceu entre ambos uma relação íntima e se falava de um possí­vel noivado. Através de suas relações com B. e através de sua amiga, ela pôs-se de novo em contato com A., cuja presença a perturbava muitas vezes inexplicavelmente, irritando-a. Nessa ocasião a paciente foi a uma reunião muito concorrida e lá encontrou seus amigos. Num certo momento, perdida em pen­samentos, brincava distraidamente com o anel, que de’ repente escapou de seu dedo, caindo sob a mesa. Seus dois amigos procuraram-no e foi B. que o encontrou. Colocando-o no dedo da jovem, disse-lhe com um sorriso significativo: “Você sabe o que isto significa!” Tomada por um sentimento estranho e irresistível, ela arrancou o anel do dedo e o jogou pela janela aberta. Seguiu-se um momento penoso e pouco depois ela aban­donou a reunião, extremamente abatida. Apos este incidente aconteceu o assim chamado acaso: ela passou as férias de verão numa estação de cura, onde sua amiga e A. também estavam. A amiga começou a ficar visivelmente nervosa e muitas vezes não saía. As circunstâncias eram favoráveis para que a paciente e A. saíssem juntos. Certa vez, passeavam num pequeno bote. Ela estava de tal modo alegre e agitada, que acabou caindo no mar. Como não soubesse nadar, A. conseguiu salvá-la com di­ficuldade, puxando-a quase sem sentidos para dentro do bote. Então ele a beijou. Com este episódio romântico, o vínculo foi consolidado. Para desculpar-se diante de si mesma, ela con­tinuou energicamente o noivado com B., tentando persuadir-se de que era ele a quem amava. É claro que este jogo curioso não escapou ao olhar perspicaz da esposa ciumenta. Sua amiga adivinhou-lhe o segredo, atormentou-se, ficando com os nervos abalados. Precisou, então, partir para o estrangeiro a fim de curar-se. Na festa de despedida, o mau espírito soprou ao ou­vido da nossa paciente: “Esta noite ele está só. Deve acontecer alguma coisa para que você vá à casa dele”. E foi isto o que aconteceu: devido ao seu estranho comportamento ela voltou a casa de A., tal como desejara.

Depois deste esclarecimento provavelmente todos se incli­narão a afirmar que só um refinamento diabólico inventaria um tal encadeamento de circunstâncias, pondo-o a funcionar. Não há dúvida quanto ao refinamento, mas sua avaliação moral não é tão segura; devo sublinhar que os motivos que levaram a esse dénouement dramático não eram de forma alguma cons­cientes. Para a paciente, a história parecia desenrolar-se por si mesma, sem que ela tivesse consciência de qualquer motivo. Mas a história prévia torna claro que tudo estava inconscien­temente dirigido para este fim, enquanto o consciente lutava por efetivar o noivado com B. O impulso inconsciente na di­reção oposta foi mais forte.

Voltamos aqui de novo à questão inicial, à pergunta acerca da proveniência da natureza patológica (isto é, peculiar, exces­siva) da reação ao trauma. À base de uma conclusão extraída de experiências, conjeturamos que neste caso também deve ha­ver, além do trauma, uma perturbação no domínio erótico. Esta conjetura foi inteiramente confirmada e aprendemos que o trauma, causa manifesta da doença, não é mais do que uma ocasião para que se manifeste algo que de início não é cons­ciente, a saber, um forte conflito erótico. Com isso, o trauma perde seu significado patogênico e é substituído por uma com­preensão muito mais profunda e abarcante, que vê o agente patogênico como um conflito erótico.

Muitas vezes me perguntam: Por que o conflito erótico é | principal causa das neuroses? A isso só podemos responder: Ninguém afirma que deve ser assim, mas que simplesmente é assim. Apesar de todos os protestos indignados em contrário, o fato é que o amor11, seus problemas e conflitos, se mostra de uma importância fundamental na vida humana e, como revela uma pesquisa cuidadosa, tem um significado muito maior do o indivíduo imagina.

11. O amor tomado aqui, naturalmente, em seu sentido mais amplo, que não ve apenas a sexualidade.

A teoria do trauma foi deixada de lado por ser antiquada; a descoberta de que não é o trauma, mas sim um conflito erótico escondido, que está à raiz da neurose, fez com que o trauma perdesse completamente seu significado patogênico.

2. A TEORIA SEXUAL

Com esta descoberta, a teoria do trauma foi resolvida e encer­rada; em seu lugar, porém, ficou a pergunta acerca do con­flito erótico, o qual, como o nosso exemplo mostra, contém uma multiplicidade de elementos anormais, não podendo ser comparado, à primeira vista, com um conflito erótico habitual. O que é peculiarmente espantoso e quase inacreditável é que, na paciente, só a atitude era consciente, enquanto que a paixão real permanecia oculta a seus próprios olhos. Neste caso, por certo, é fora de dúvida que a relação erótica real permanecia obscura, ao passo que a atitude dominava amplamente o campo da consciência. Se formularmos teoricamente tais fatos, che­garemos ao seguinte princípio: há, numa neurose, duas ten­dências em rigorosa oposição, sendo que uma delas, pelo me­nos, é inconsciente.

[Contra esta formulação pode-se argumentar que ela parece talhada para este caso individual, não possuindo portanto uma validez geral. Talvez haja uma tendência de aceitar-se tal obje­ção, porque ninguém pode concordar facilmente com o fato de que o conflito erótico constitua algo de mais amplo. A ten­dência será de considerá-lo como um tema que pertence ao romance, a algo de aleatório.12 Mas isto não corresponde à ver­dade, uma vez que os dramas mais impressionantes, e os mais excêntricos, não são desempenhados no teatro, mas no coração dos homens comuns, pelos quais passamos sem prestar atenção e que, no máximo, mostram ao mundo, através de um colapso nervoso, as batalhas que se desferem em seu íntimo. Além disso, o que é mais difícil para a compreensão dos leigos é que, em geral, os doentes não têm qualquer pressentimento da batalha que se trava em seu inconsciente. Se considerarmos, no entanto, o número de homens que nada sabem acerca de si mesmos, não devemos nos admirar de que também haja os que nada pressintam acerca de seus verdadeiros conflitos. Se leitor estiver inclinado a admitir a possível resistência de conflitos patogênicos, eventualmente oriundos do inconsciente, então protestará contra o fato de que se trata de um conflito erótico. E se for propenso ao nervosismo, poderá irritar-se contra este absurdo aparente; pois fomos acostumados pela educação recebida em casa e na escola a persignar-nos três vezes diante de palavras tais como “erótico” e “sexual”. Conse­qüentemente pensamos que não há nada disso ou que, pelo menos, se trata de algo raro ou longínquo. E no entanto os conflitos neuróticos daí procedem, em primeiro lugar].

12. Ver o romance de Karin Machaelis: Eheirrung; ver também Forels: Die sexuelle Frage.

O processo da cultura consiste, como se sabe, numa subjugação progressiva do animal no homem. É um processo de domesticação que não pode ser levado a cabo sem que haja revolta por parte da natureza animal, que tem sede de liber­dade. De vez em quando ocorre como que um estado de furor na humanidade constrangida pela atuação da cultura: a Anti­güidade experimentou-o nas ondas de orgias dionisíacas que vinham do Oriente e que se tornaram um ingrediente essencial e característico da cultura antiga. Esse espírito contribuiu apreciavelmente para o desenvolvimento do ideal estóico do ascetismo, nas inúmeras seitas e escolas filosóficas do último sé­culo antes de Cristo. Foi ele que produziu, a partir do caos politeístico dessa época, as religiões gêmeas do mitraísmo e do cristianismo. Uma segunda onda de furor dionisíaco varreu o Ocidente no Renascimento. É difícil julgar o espírito do tempo a que pertencemos. Mas se observarmos os caminhos da arte, do estilo e do gosto geral e também o que os homens lêem e escrevem, que sociedades fundam, quais as “questões” que es­tão na ordem do dia e contra o que combatem os filisteus, então encontraremos no longo catálogo de nossas questões so­ciais presentes, e não em último lugar, a chamada “questão sexual”. Esta é discutida por homens e mulheres que debatem a moral sexual vigente e que procuram anular o peso da culpa moral acumulada sobre Eros pelos séculos passados. É impossível negar simplesmente a existência de tais esforços, ou condená-los como injustificáveis; eles existem e têm por isso mesmo um motivo suficiente. É mais interessante e proveitoso investigar lentamente os fundamentos deste movimento contemporâneo do que engrossar o coro das carpideiras da moralidade, que pro­fetizam [num êxtase histérico] a decadência moral da humani­dade. Os moralistas têm o privilégio de não confiar em Deus, como se acreditassem que as esplêndida árvore da humanidade só pudesse prosperar graças ao cuidado de serem podadas, atadas e dispostas em fileiras, ignorando que o Pai-Sol e a Mãe-Terra permitem que ela cresça para a sua alegria, segundo leis mais profundas e sábias.

As pessoas mais lúcidas sabem que atualmente se propõe uma questão sexual. O desenvolvimento rápido das cidades, com a especialização da mão-de-obra, acarretou uma extraor­dinária divisão de trabalho; a industrialização crescente da re­gião rural, o sentimento cada vez maior de insegurança, privam os homens de «muitas oportunidades de descarregar suas ener­gias afetivas. A atividade periódica e rítmica do camponês lhe proporciona satisfações inconscientes, por causa de seu con­teúdo simbólico; o operário fabril e o empregado de escritório não conhecem e jamais poderão desfrutar de tais satisfações; a vida mergulhada na natureza, os belos momentos em que o camponês, como o senhor que faz frutificar a terra, mergulha o arado no solo e com um gesto de rei espalha as sementes para a futura colheita; o medo legítimo do poder destrutivo dos elementos, a alegria pela fecundidade de sua esposa, geran­do filhos e filhas que também significam um acréscimo da força de trabalho e um bem-estar maior, de tudo isto fomos privados, nós, homens da cidade, trabalhadores mecanizados. Não começa a faltar-nos a mais natural e bela das satisfações: a colheita de nossa própria semeadura e a “bênção” dos filhos, que olhamos com uma alegria simples? [Os casamentos onde não florescem todas as artes da alcova podem ser contados nos dedos. Não representará isto uma primeira despedida das ale­grias que a Mãe Natureza ofereceu a seus filhos primogênitos?]. Onde poderá prosperar a alegria? E os homens se esgueiram rumo ao trabalho (observe-se os rostos dos homens no ônibus às sete e trinta da manhã. Um fabrica a sua rodinha, outro es­creve coisas que não o interessam. Não admira que quase todos pertençam a tantos clubes quantos são os dias da se­mana, ou que haja pequenas sociedades para mulheres, onde elas podem dedicar-se ao herói do momento; há também aquela vaga nostalgia que os homens afogam no restaurante “Zum Frohsinn”, com muito palavrório e uns goles de cerveja). A estas fontes de descontentamento acrescenta-se uma dificul­dade interior e mais grave) A natureza abasteceu os homens indefesos e desarmados com uma grande reserva de energia, a fim de torná-los capazes não só de suportar passivamente os perigos da existência, mas também de vencê-los. A Mãe-Natureza equipou seu filho para enfrentar tremendas privações (e estabeleceu o delicioso prêmio para os vencedores, prêmio ao qual Schopenhauer se refere ao afirmar que a felicidade não é mais do que a extinção da infelicidade). Via de regra, somos protegidos eventualmente contra essas necessidades vitais ime­diatas que nos afligem e por isso somos tentados todos os dias; o animal humano sempre viceja quando não é premido pela dura necessidade. Seremos realmente atrevidos? Em que festas orgiásticas gastamos o superávit de nossa força vital? Nossas concepções morais não permitem uma tal escapatória.

[Enumeramos as diversas fontes das quais mana a insa­tisfação que nos atinge: a renúncia de gerar e dar à luz, tendo sido providos pela natureza de uma grande quantidade de energia; a monotonia do trabalho especializado, que exclui o inte­resse pelo seu conteúdo e finalmente a poupança de energia por causa da segurança de nossa vida contra a guerra, a anar­quia, o roubo, as epidemias, a mortalidade de crianças e mu­lheres, tudo isto resulta numa soma de energias livres, que devem necessariamente ser desafogadas. De que modo, porém? São relativamente poucos os que, através de esportes arrisca­dos, criam para si mesmos os perigos quase naturais da vida. A maioria é compelida a criar para si mesma um equivalente das dificuldades da existência através do álcool, da caça ao dinheiro, da embriagues mórbida de cumprir o dever, do esgo­tamento pelo trabalho, a fim de escapar a um represamento ameaçador da energia, que poderia forçar uma saída insensata. Tudo isto faz com que se coloque hoje a questão sexual. A energia poderia ser liberada por este caminho como o foi, desde a Antigüidade, para fins de segurança e sustento. Nestas cir­cunstâncias se reproduzem não só os coelhos, como também os homens, mediante a pilhéria destes caprichos da natureza. Eles têm que sofrer tal pilhéria, uma vez que por causa de suas concepções moralistas se encurralaram numa gaiola es­treita, cuja perigosa exigüidade não é sentida até que a neces­sidade amarga a torne ainda mais estreita. Para o homem da cidade o espaço já se tornou muito restrito. A tentação o cerca, seduzindo-o como um cáften invisível que sussurra os segredos 3°s preservativos que protegem ou evitam as conseqüências]. Mas por que deve haver restrição moral? Será por alguma coisa que ultrapassa a consideração religiosa de um Deus ran­coroso? Deixando de lado o fato da descrença cada vez maior, um homem de fé deveria perguntar a si mesmo, tranqüilamente, se, no caso de ser Deus, puniria, uma diabrura [erótica] de Joãozinho e Maria com a danação eterna. Tais ideais não são mais compatíveis com nossa concepção decente de Deus. Nosso Deus é demasiado tolerante para fazer um estardalhaço por isso. [Patifaria e hipocrisia são mil vezes mais graves]. Assim é que a moralidade sexual13 algo ascética e principal­mente dissimulada de nosso tempo é desprovida de qualquer fundamento real. Será que poderíamos afirmar que estamos protegidos contra todas as diabruras por nossa sabedoria su­perior, ou pela visão da nulidade do comportamento humano? Infelizmente, estamos longe disso. [Pelo contrário, a sugestão tradicional mantém-nos agrilhoados e a covardia e a irreflexão fazem o rebanho continuar o trote nessa vereda]. O incons­ciente do homem possui um faro apurado para o espírito do tempo; ele adivinha suas possibilidades e sente no íntimo a insegurança dos fundamentos da moral presente, que não é mais apoiada por uma convicção religiosa viva. Aqui se origina grande parte dos conflitos éticos de nosso tempo. O impulso de liberdade colide com as barreiras frouxas da moralidade: os homens estão em tentação, eles querem e não querem. E porque não querem e não podem imaginar o que na realidade desejam, o conflito é principalmente inconsciente e daí pro­cede a neurose. Esta, como podemos ver, é intimamente liga­da ao problema de nosso tempo, representando verdadeira­mente a tentativa malograda do indivíduo resolver em si mesmo o problema geral. A neurose é um estado de desunião consigo mesmo. O motivo desta desunião, na maioria das pessoas, con­siste no fato de que a consciência deseja manter seu ideal moral, enquanto o inconsciente luta por um ideal imoral — no sentido convencional — que a consciência constantemente tenta negar. Indivíduos deste tipo pretendem ser mais decentes do que realmente são. O conflito, no entanto, pode ser o opos­to: há pessoas aparentemente muito indecorosas, que não opõem a menor restrição a si mesmas, sendo isto, no entanto, uma pose de perversidade, uma vez que abrigam no fundo o lado moral, que caiu no inconsciente. Analogamente há o caso do indivíduo decente, que abriga no inconsciente o lado indecente (os extremos devem, por isso, ser evitados tanto quanto possí­vel, pois sempre despertam a suspeita de seu oposto).

[13. A abolição dos bordéis é outro sinal nocivo e hipócrita de nossa famosa moral sexual. De qualquer maneira há prostituição; quanto menos organizada e protegida, ma» vergonhosa e perigosa se torna. Este mal existe e sempre existiu; assim pois se^e necessário uma tolerância maior a fim de que houvesse a maior higiene possível. » os homens não usassem antolhos moralistas, a sífilis já teria desaparecido há muito tempo].

Esta discussão geral foi necessária para o esclarecimento do conceito de “conflito erótico”. [Este é o ponto nodal de toda concepção da neurose]. Podemos agora discutir, em pri­meiro lugar, a técnica da psicanálise e, em segundo, o proble­ma da terapia. [Esta última questão leva-nos ao exame de uma série de particularidades e de uma casuística difícil, que ultrapassa os limites desta breve introdução. Contentemo-nos por ora com este olhar lançado sobre a técnica da psicanálise].

A questão acerca desta técnica propõe-se do seguinte modo: de que maneira é possível chegar ao inconsciente do paciente pelo caminho mais curto e que também seja o melhor? O mé­todo inicial foi o hipnotismo. Interrogava-se o paciente em es­tado de concentração hipnótica, ou então se estudava á produ­ção espontânea de suas fantasias durante esse estado; tal mé­todo ainda é empregado ocasionalmente. Comparado, porém, com a técnica atual é demasiado primitivo e portanto insatis­fatório. Um segundo método foi criado na Clínica Psiquiátrica de Zurique: o chamado método de associação 14, cujo valor é principalmente teórico-experimental. Ele proporciona uma com­preensão extensa, mas superficial, do conflito inconsciente (“complexo”).15 O método mais penetrante é o da análise do sonho, descoberto por Freud.16

14. Ver Jung. Diagnostische Assoziationsstudien; 2 Bände. 1906-1909.

15 A exposição da teoria do complexo encontra em Jung, Psychologie der Dementia

16. Freud, Die Traumdeutung, 1900.

Pode-se dizer do sonho, que é a pedra rejeitada pelos cons­trutores, que se tornou a pedra angular. O sonho, esse produto fugaz e modesto da nossa psique, desfruta, em nossa época, de um profundo desprezo. Antigamente, era considerado como um sinal anunciador do destino, como um portador de presságios, um mensageiro dos deuses, cujo caráter podia ser consolador. Agora o encaramos como um mensageiro do inconsciente, que deve revelar-nos os segredos escondidos pela consciência, o que ele realiza com surpreendente eficiência. Através da pes­quisa analítica do sonho verificou-se que este último, tal como se apresenta, é apenas a fachada que oculta o interior da casa. Entretanto, se observarmos determinadas regras técnicas, per­mitindo que o sonhador fale sobre as particularidades de seu sonho, logo suas idéias se centrarão num certo sentido, con­figurando determinados temas. Estes parecem ter um signifi­cado pessoal que não se presumira inicialmente atrás do sonho; mas, como mostra uma cuidadosa comparação, ele mantém uma relação [simbólica] extremamente delicada e minuciosa com a fachada do sonho.17 Este complexo particular de idéias, no qual se unem todos os elos do sonho, é o conflito buscado, ou melhor, uma variação do mesmo condicionado pelas cir­cunstâncias. Os elementos penosos do conflito são assim de tal modo escondidos ou dissolvidos, que se pode falar de uma realização de desejo; devemos porém acrescentar que os dese­jos realizados no sonho não parecem ser nossos; pelo contrário, parecem justamente opor-se a eles. Assim, por exemplo, uma filha ama ternamente a mãe e sonha — com grande angústia — que esta morreu. Em tais sonhos não parece haver qualquer realização de desejo; eles são inumeráveis, representando uma pedra de tropeço à nossa crítica erudita, uma vez que não faculta [—incredibile dictu—] a distinção entre o conteúdo la­tente do sonho e o declarado. Devemos precaver-nos contra este erro: o conflito armado no sonho é inconsciente, assim como o desejo de uma solução. A sonhadora deseja efetiva­mente que sua mãe se afaste; na linguagem do inconsciente isto significa o desejo de sua morte. Sabemos então que há no inconsciente um certo compartimento que contém tudo que se passa além das reminiscências e lembranças, inclusive todos os impulsos instintivos da infância, que não encontraram apli­cação na vida adulta, isto é, uma série de desejos egoístas infantis. Pode-se dizer que a maioria dos elementos provenien­tes do inconsciente possui, em primeiro lugar, um caráter in­fantil. Assim, por exemplo, este desejo particularmente ingê­nuo: “Quando mamãe morrer você vai casar comigo, não é, papai?” A expressão deste desejo infantil é um substitutivo (neste caso de um desejo recente de casar-se da sonhadora, desejo penoso cujos motivos ainda estão por ser descobertos). A idéia do casamento, ou melhor, a seriedade da intenção correspondente a ela foi “reprimida no inconsciente”, como se costuma dizer, exprimindo-se depois de um modo necessaria­mente infantil, uma vez que o material disponível do incons­ciente consiste? em grande parte, de reminiscências infantis. [As novas pesquisas da Escola de Zurique constataram18 que tais reminiscências não são apenas infantis. Elas ultrapassam também o limites do indivíduo como “memórias da raça”.

[17. As regras da análise do sonho, as leis da estrutura deste último e sua simbó­lica formam, conjuntamente, uma ciência; em todo o caso, correspondem a um_ dos mais importantes capítulos da psicologia do inconsciente, para cuja compreensão e necessário um estudo especial e meticuloso].

18. Ver Jung, Wandlungen und Symbole der Libido. 1912.

Não é este o lugar adequado para esclarecer através de muitos exemplos o domínio extraordinariamente complicado da análise do sonho; devemos contentar-nos, portanto, com os re­sultados da pesquisa: os sonhos são o substitutivo simbólico dos desejos importantes para o indivíduo, que não foram sa­tisfeitos durante o dia, sendo então “reprimidos”. Em contra­posição à atitude moral dominante estão os desejos insuficien­temente reconhecidos, realizados simbolicamente no sonho e que, via de regra, são eróticos. Por isso não é aconselhável contar os sonhos para alguém que deles tem um conhecimento adequado, pois sua simbólica é muitas vezes transparente para os que conhecem suas regras. Os mais claros quanto a isso são os sonhos freqüentes de medo que, em geral, simbolizam fortes desejos eróticos].

O sonho é feito de detalhes aparentemente pueris, que des­pertam uma impressão de algo ridículo, ou então é de tal modo incompreensível em sua superfície, a ponto de deixar-nos de­sorientados. Por isso devemos sempre superar em nós mesmos uma certa resistência antes de conseguirmos desatar seu enredo complicado, através de um trabalho paciente. Quando penetra­mos no verdadeiro sentido de um sonho, mergulhamos profun­damente no segredo do sonhador e descobrimos com espanto que seu aparente absurdo é significativo ao mais alto grau e sua linguagem fala apenas das coisas extraordinariamente im­portantes e sérias da alma. Tal descoberta faz-nos sentir mais respeito pela velha superstição de que os sonhos têm um signi­ficado desconhecido, até agora, pela corrente racionalística do nosso tempo.

Como diz Freud, a análise do sonho é a via regia que leva ao inconsciente. Ela conduz-nos aos segredos mais profundos da personalidade, sendo portanto um instrumento inestimável nas mãos do médico e educador da alma. Os opositores deste método baseiam-se em argumentos que, em geral (deixando de lado as correntes subterrâneas dos pressupostos pessoais), derivam principalmente da tendência escolástica do pensamen­to erudito, ainda bastante forte em nossos dias. A análise dos sonhos descobre impiedosamente a falsa moral e as pretensões hipócritas do homem, revelando-lhe o outro lado de seu cará­ter sob uma luz crua; não admira, pois, que muitos se sintam apanhados de boca na botija. Lembro-me sempre, relativamente a isto, da admirável estátua do prazer da Catedral de Basiléia, exibindo seu doce sorriso arcaico, mas com o traseiro coberto de sapos e serpentes. A análise do sonho dá volta às coisas, revelando o outro lado. É difícil contestar o valor ético desta correção da realidade. A operação é extremamente penosa, mas também é útil, exigindo muito do médico e do paciente. A psicanálise, enquanto técnica terapêutica, consiste principalmen­te em reunir inúmeras análises de sonhos. No decorrer do tra­tamento, os sonhos fazem emergir a imundície do inconsciente, a fim de expô-la à força curativa da luz diurna e deste modo muita coisa valiosa, que se acreditava perdida, é recuperada. Trata-se de uma catarse especial, semelhante à “arte da parteira” da maiêutica socrática. É claro que, em tais circunstân­cias, a psicanálise parece uma tortura para muitos indivíduos que assumem diante de si próprios uma atitude na qual acre­ditam com veemência. Pois de acordo com o velho dito mís­tico “Dá o que tens e então receberás!” eles são chamados a abandonar em primeiro lugar suas ilusões mais íntimas è ama­das, a fim de que algo superiormente profundo e belo possa ressurgir dentro deles, em toda a sua amplitude. Só através do mistério do auto-sacrifício um homem pode encontrar-se no­vamente. É realmente uma velha sabedoria que vem à luz atra­vés do tratamento psicanalítico e é particularmente curioso o fato de que tal espécie de educação psíquica se mostre neces­sária no ápice de nossa cultura moderna. Esta forma pedagó­gica pode ser comparada à técnica de Sócrates sob vários as­pectos, se bem que a psicanálise penetre em profundidades bem maiores.

Sempre encontramos nos doentes um conflito que se liga, num determinado ponto, aos grandes problemas da sociedade; quando a análise chega a esse ponto, o conflito aparentemente individual revela-se um conflito universal de seu ambiente e de sua época. A neurose, portanto, é uma tentativa individual e malograda de resolver um problema geral; mas este problema geral, esta questão não é um ens per se, existindo apenas no coração dos indivíduos. [A questão que mobiliza os doentes é I can’t help it — a “questão sexual” ou mais exatamente o problema da moral sexual moderna. Sua exigência crescente sobre a vida e a alegria vital, sobre o colorido da realidade, suporta os limites necessários que a realidade lhe impõe, mas não as barreiras arbitrárias e mal fundadas da moral presente. Esta, das profundidades da escuridão animal, estiola o espírito criador que ascende. Pois] o neurótico tem a alma de uma criança, que suporta com dificuldade as restrições arbitrárias, cujo sentido ele não reconhece. Embora procure concordar cora essa moral, acaba sucumbindo a um dilaceramento pro­fundo, a um estado de desunião consigo mesmo. Por um lado, ele quer suprimir-se e por outro, libertar-se: a esta luta dá-se o nome de neurose. Se tal conflito fosse claramente conscien­tizado, os sintomas neuróticos não se formariam; estes apare­cem quando não encaramos o outro lado da nossa natureza e a urgência de seus problemas. Nestas circunstâncias os sintomas se manifestam e ajudam a exprimir o lado não reconhecido da psique. O sintoma é pois uma expressão indireta de um desejo que não se reconhece; quando este se torna consciente, entra em conflito violento com nossas convicções morais. Como já dissemos, se este lado sombrio da psique for subtraído da compreensão consciente, o doente não poderá confrontar-se com ele, corrigi-lo, conformar-se com ele, ou então renunciá-lo; pois na realidade ele não possui de forma alguma os impulsos in­conscientes. Expulsos da hierarquia da psique consciente, eles se tornam complexos autônomos, que podem ser postos de novo sob o controle consciente, através da análise do inconsciente. Isto não se dá sem grandes resistências. Há muitos pacientes que se vangloriam, dizendo que o conflito erótico não existe para eles; afirmam que a questão sexual é absurda, pois não possuem qualquer sexualidade. Não percebem que outras coisas de origem desconhecida lhes impedem o caminho: caprichos histéricos, enredos que fazem em relação a si mesmos e a ou­tros, um catarro estomacal de fundo nervoso, dores aqui e acolá, irritabilidade sem motivo e todo um exército de sinto­mas nervosos. [Aqui está o engano, pois o grande conflito dos homens cultos de hoje passa relativamente despercebido só a poucos dentre os particularmente favorecidos pela sorte; a gran­de maioria toma necessariamente parte neste conflito geral].

A psicanálise já foi acusada de liberar no homem (feliz­mente) os instintos animais reprimidos, causando deste modo um dano incalculável. Esta apreensão evidencia a pouca con­fiança que o homem deposita na eficácia dos princípios morais modernos. Pretende-se, aparentemente, que só a moral possa impedir o homem de entregar-se ao desregramento; no entanto, instância reguladora muito mais atuante é a necessidade, estabelece limites reais, muito mais persuasivos do que os Preceitos morais. É certo que a análise libera os instintos animais, mas não, como alguns pretendem, no sentido de dar-lhes um curso desenfreado. A análise tenta conduzir esses instintos a uma aplicação superior, na medida em que isto é possível para a pessoa em questão e uma vez que haja uma exigência de (“sublimação”). Conseqüentemente, em todas as circunstân­cias há vantagem em ter plena posse da própria personalidade. Se assim não for suas partes reprimidas perturbarão outras etapas do caminho, e não em pontos sem importância; pertur­barão justamente os pontos em que se for mais sensitivo. Tal verme sempre rói o cerne. [Portanto em lugar de combater-se a si próprio, é melhor aprender a carregar o próprio fardo, não apenas tentando elaborar inutilmente as dificuldades in­ternas sob a forma de fantasias, mas colocando-as nas vivên­cias reais. Deste modo o indivíduo evitará viver e consumir-se somente em lutas inúteis]. Se os homens fossem educados no sentido de ver o lado sombrio de sua natureza, provavelmente aprenderiam a compreender e a amar verdadeiramente os seus semelhantes. Um pouco menos de hipocrisia e um pouco mais de tolerância em relação a si mesmo só podem dar bons resul­tados em relação ao próximo; pois o homem tem uma inclina­ção nítida para transferir aos seus semelhantes a injustiça e a violência que exerce sobre a sua própria natureza.

[[A ligação do conflito individual com o problema geral coletivo estende o âmbito da psicanálise além do círculo restrito de uma simples terapia médica; a psicanálise proporciona ao paciente uma sabedoria de vida baseada num conhecimento empírico que lhe dá, ao lado do conhecimento do seu próprio ser, as possibilidades de adaptar-se a esta ordem de coisas. Não podemos detalhar aqui em que consistem estas diversas formas de conhecimento. É difícil também, a partir da litera­tura até agora apresentada, construir uma imagem adequada da análise, uma vez que ainda não foi publicado nada de sufi­cientemente satisfatório no tocante a uma técnica de análise mais profunda. Neste domínio grandes problemas estão ainda à espera de uma solução satisfatória. Infelizmente é pequeno o número de pesquisadores científicos, pois a maioria conserva ainda muitos preconceitos para que possam colaborar nessa importante obra.

Todas estas manifestações estranhas e maravilhosas que se agrupam em torno da psicanálise — segundo os princípios psicanalíticos — fazem supor que ocorrerá algo de muito signi­ficativo neste campo, trazendo ao público letrado (como habi­tualmente) em primeiro lugar a defesa dos mais vivos afetos]].

PSICOLOGIA INCONSCIENTE

OBRAS COMPLETAS DE C. G. JUNG VIl/1 — Psicologia do Inconsciente

Um livro de especial interesse para os profissionais em Psi­cologia e para os leigos que apreciam estudos dessa natu­reza. No decorrer dos anos foram feitas diversas novas edi­ções, submetidas a um contínuo processo de aperfeiçoamen­to e desenvolvimento, pelo próprio autor. Sua intenção é simplesmente dar alguma orientação sobre as mais recentes interpretações da essência da psicologia do inconsciente. Por considerar o problema do inconsciente de extrema importância e utilidade e por saber que diz res­peito intimamente a todos e a cada um de nós, julgou opor­tuno colocá-lo ao alcance do público leigo e culto. Este estudo surgiu durante a guerra mundial e deve sua exis­tência principalmente à repercussão psicológica dessa gran­de conflagração. A guerra terminou, mas os grandes proble­mas psíquicos levantados por ela continuam preocupando a sensibilidade dos que pensam e pesquisam. O autoconhecimento de cada indivíduo, a volta do ser hu­mano às suas origens, ao seu próprio ser e à sua verdade individual e social, eis o começo da cura da cegueira que domina o mundo de hoje. O interesse pelo problema da al­ma humana é um sintoma, segundo o autor do livro, dessa volta instintiva a si mesmo.

As informações contidas neste livro não pretendem abranger a totalidade da psicologia analítica. Muitos pontos são ape­nas esboçados e outros nem são mencionados. O autor re­comenda o estudo das principais obras sobre psicologia mé­dica e psicopatologia, além de uma revisão cuidadosa dos compêndios de psicologia existentes.

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