JORNALISMO DE INVESTIGAÇÃO
O cão de guarda da sociedade

Por Eliamara Fontoura Brun em 15/3/2011

A relação de amizade entre o homem e os canídeos, segundo os especialistas, é datada de mais de 15 mil anos. Desde a domesticação dos lobos, os cães possuem um importante papel na evolução humana. No inicio, eram primordiais no auxílio da caça e da protecção das tribos. Hoje, são praticamente membros da família.

Grandes ou pequenos, não importa a raça, o instinto protector desses animais para com os seus donos tornaram os cães importantes defensores do ser humano. A famosa frase: "O cão é o melhor amigo do homem" representa a dimensão da forte e duradoura afeição entre essas espécies tão diferentes.

O surgimento da Imprensa Watchdog, um dos conceitos mais divulgados no estudo da comunicação, baseia-se exactamente nessa noção de fidelidade e de protecção dos cães. É a representação do profissional de jornalismo como um verdadeiro cão de guarda da sociedade perante os desvios, as prepotências e as injustiças.

A afirmação do conceito Watchdog, no imaginário popular, provém justamente da crise no sistema político mundial. Em uma sociedade confrontada diariamente por escândalos, corrupção e desvios de valor, nada mais natural, que a imprensa se posicione ou seja posicionada como uma instituição vigilante da máquina pública. Uma verdadeira uma ponte entre os abusos, a cobrança por justiça e o julgamento dos "culpados".

Nesta perspectiva, conforme Mesquita (2006), as instituições da imprensa são encaradas como parte integrante dos sistemas de pesos e contrapesos característicos dos sistemas democráticos. A concepção de contrapoder se define através do ideal de que somente o poder tem a força necessária para barrar o poder, ou seja, a imprensa é a força existente para impedir os excessos públicos.

Os deveres do jornalista

Traquina (2007) resume bem esse ethos jornalístico ao explicitar que o jornalismo é o próprio veículo de comunicação para equipar os cidadãos com instrumentos vitais para o exercício dos seus direitos e a expressão de suas preocupações. Para o autor, esta prerrogativa de ser a "voz do povo" acompanha a actividade jornalística desde os seus primórdios, quando conceitos como: a liberdade de imprensa ou a capacidade de informar a todos norteavam a ideologia da burguesia francesa.

O conceito da Imprensa Watchdog, sem dúvida, faz parte do processo de idealização da profissão jornalística, o que confere credibilidade aos veículos de comunicação. Quanto mais actuante for a imprensa na denúncia e na investigação dos escândalos, maior o seu enaltecimento e a aceitação do seu discurso por parte das audiências.

Muitos estudiosos definem que o posicionamento da imprensa como "protectora da sociedade" serve para alimentar o ego dos jornalistas e enaltecer a profissão perante as demais.

De acordo com Safire (cit. in Mesquita, 2006), a expressão Watchdog foi muito empregada pelas profissões dos media no debate político, com vista a reforçar ainda mais a respectiva legitimidade no espaço público. "No século 20, foi adoptada por muitos directores nas suas descrições da importância do jornalismo."

A dualidade da questão está exactamente no facto da imprensa Watchdog ser benéfica tanto para a sociedade como um todo, que é favorecida pela verdade e a cobrança por justiça, quanto para a profissão jornalística que ganha notoriedade.

Deve-se elucidar, porém, que a imprensa quando se coloca como "protectora da sociedade" está simplesmente a cumprir com a sua função. O Estatuto do Jornalista (Lei n.º 1/99 de 13 de Janeiro/ Portugal – artigo 14) define que é dever do jornalista: exercer a actividade com respeito pela ética profissional, informando com rigor e isenção; abster-se de formular acusações sem provas e respeitar a presunção de inocência; respeitar a privacidade de acordo com a natureza do caso e a condição das pessoas; não falsificar ou encenar situações com intuitos de abusar da boa fé do público.

O dia-a-dia nas redações

Porém, como em qualquer profissão, existem bons e maus jornalistas, aqueles que seguem as normas de conduta e outros, os interesses próprios. Alguns veículos de comunicação são considerados imprensa de referência; outros, sensacionalismo. Precisa-se sim separar o joio do trigo e valorizar aqueles jornalistas e veículos de comunicação pautados nos princípios da verdade e do esclarecimento da população.

Esse patamar é sem dúvida primordial para se compreender a importância do jornalismo como um importante actor social. Segundo Karam (1997), é a comunicação social que possibilita a interacção humana e faz com que a população tome consciência da realidade que a rodeia. Para ele, "a complexidade da sociedade faz com que os indivíduos precisem se apropriar no movimento quotidiano do mundo, ampliando assim a sua visão, pois é o acesso à produção diária da humanidade que possibilita que o sujeito interfira na sociedade".

Se o jornalismo investiga, denuncia e cobra por justiça, a sociedade caminha para um futuro mais consciente e igualitário. Caso contrário, quando os interesses principais estão baseados somente na conquista das audiências e do lucro, os abusos, o poder-soberania e a opressão ganham espaço.

A mídia quando se afasta da concepção Watchdog, se afasta da sua responsabilidade social e glorifica o seu lado mais pernicioso: a instauração de tribunais paralelos.

O dia-a-dia nas redacções é definido pelo deadline, pelo impacto das notícias produzidas e pela cobertura que a concorrência está fazer. Por isso, o cumprimento dos prazos pré-estabelecidos e a publicação dos factos em primeira mão são decisivos para o sucesso ou não de uma organização midiática.

Uma linha tênue é responsável pela credibilização

O anseio pelo "furo" jornalístico" pode trazer sérias consequências na apuração de todos os meandro envolvidos nos acontecimentos a serem divulgados. A rápida produção em escala das notícias pode ocasionar erros na precisão das informações e uma preciptação no julgamento do ocorrido.

Não são raros os casos em que o jornal publica, sem a devida confirmação, informações que são corrigidas a posteriori. A consequência deste acto pode ser uma simples errata na página inicial ou a destruição completa da vida de muitas pessoas.

Na década de 90, o Brasil assistiu a um dos maiores erros midiáticos, pela falta de comprovação dos factos por parte dos jornalistas, de toda a sua história: o caso da Escola Base. Os veículos de comunicação da época culparam literalmente os proprietários de uma escola, em São Paulo, pelo abuso sexual de várias crianças. Depois do escândalo e da acusação desenfreada, os laudos periciais desmentiram as denúncias, comprovando que os acusados, que já tinha sido considerados culpados pela opinião pública, eram inocentes.

Em situações desta natureza, os escândalos tornam-se muito mais do que notícias, transformam-se em verdadeiros espectáculos semelhantes aos dos julgamentos medievais em praça pública, onde os acusados tornam-se culpados sem o devido direito de defesa.

Segundo Bonetti (2005), os principais erros da imprensa ocorrem porque o segredo é uma característica avessa ao jornalismo. O jornalista não quer guardar segredos, ele quer transmitir o que sabe antes dos outros, quer exercer do poder da velocidade da informação, mostrar que descobriu primeiro, que foi mais esperto, mais sagaz, conseguiu o furo, conseguiu a reportagem premiada que ninguém mais fez, de preferência, uma reportagem investigativa.

A linha ténue que separa a imprensa de referência da imprensa cor-de-rosa é a responsável pela credibilização ou não da mídia como Watchdog.

O cão só pode ser considerado o melhor amigo do homem se estiver sempre ao lado dono. A imprensa, da mesma forma, quando deixa de lutar pelo interesse dos comuns e passa a se preocupar exclusivamente com os seus ganhos, deixa de ser amiga da sociedade e do seu próprio legado.

Jornalismo Investigativo x Jornalismo de Actualidade

Outra grande controvérsia da Imprensa Watchdog é a própria classificação do que é ou não jornalismo investigativo. As grandes reportagens e denúncias produzidas, geralmente provêm de uma área especializada do jornalismo. Contudo, alguns profissionais consideram que toda prática jornalística precise de alguma investigação, por tanto toda matéria é investigativa.

A separação do Jornalismo Investigativo do Jornalismo de Actualidade é um dos pilares de sustentação da imprensa Watchdog, partindo do princípio de que a mídia só consegue "defender" a sociedade, se desempenhar o seu papel com comprometimento e respeitando os pormenores da rotina produtiva.

Muitos dos textos estampados nas primeiras páginas dos jornais e revistas já chegaram praticamente prontos às redacções através dos press-releases enviados pelas assessorias de imprensa e agências de notícias. A investigação, quando existe, fica presa ao primeiro nível de informações, através de meras entrevistas e checagem dos acontecimentos.

O simples facto de um texto jornalístico conter cifras, estatísticas e percentagens económicas, documentação e declarações não o definem como jornalismo investigativo. Os dados numéricos são simples referências para as matérias jornalísticas, não mais do que isso.

O repórter diário só transforma-se em um repórter de investigação quando o profissional passa a utilizar técnicas e estratégias peculiares, que vão muito além das fontes oficiais e das documentações entregues pelas relações públicas.

O escândalo de Watergate, na década de 70

Lage (cit. Sequeira, 2005) explica que o grande diferencial entre ambos é que: o jornalista de actualidade dependente das fontes e não tem o acesso às "fontes das fontes", ou seja, aquele profissional sem acesso aos documentos primários dos quais se originam as notícias. Já o investigativo caracteriza-se por ser um profissional que busca os documentos originais.

Para Sequeira (2005), a palavra-chave quanto a busca dos temas a serem averiguados é a sensibilidade. "É só disso que o repórter investigativo precisa para descobrir enfoques inéditos, por trás das notas, acontecimentos rotineiros e notícias que passam despercebidas pelos veículos de comunicação, para torná-los o gancho de novas histórias". Por isso, cabe ao repórter investigativo estar atento a tudo que acontece a seu redor, no seu país, no mundo e ter ainda uma visão histórica com relação aos acontecimentos.

Essa dissemelhança entre as matérias diárias de um veículo de comunicação, como um buraco na rua ou uma sessão parlamentar, e as grandes reportagens, de denúncias de corrupção e escândalos no poder, definem o posicionamento de uma mídia como Imprensa Watchdog.

O jornalismo da actualidade cumpre a função de informar a sociedade, já o jornalismo investigativo Watchdog, de denunciar e tornar público aquilo que muitos insistem em esconder. A preocupação principal, neste caso, é de divulgar os desvios cometidos e cobrar os devidos esclarecimentos através da ética e dos meios legais.

Talvez o caso mais emblemático de toda a história do jornalismo investigativo seja o escândalo americano do Watergate, na década de 70. As denúncias feitas neste episódio redefiniram os padrões de fazer jornalismo e materializaram definitivamente o conceito da Imprensa Watchdog.

Um olhar mais crítico

As investigações feitas pelos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, do Washington Post, comprovaram a estreita ligação do presidente republicano Nixon, candidato à reeleição, à espionagem feita no comité do Partido Democrata. Na época, cinco pessoas foram detidas enquanto tentavam fotografar documentos e instalar aparelhos de escuta no escritório. Devido ao exercício contínuo e incansável de ambos os jornalistas, Nixon renunciou à presidência dos Estados Unidos, em 1974.

Sem dúvida, Watergate é o exemplo da Imprensa Watchdog na sua forma mais plena: do jornalismo no papel de contrapoder na derrocada do homem mais poderoso do mundo. Conforme Kovach & Rosenstiel (2003), depois deste episódio, "a reportagem investigativa ficava de repente famosa, redefinindo a imagem da profissão de repórter, a ela atribuindo até um certo sex appeal".

A sociedade e a imprensa, sem dúvida, não foram mais as mesmas depois de Watergate. Ficou uma importante herança política quanto a crença nas instituições governamentais. Talvez o principal legado tenha sido uma iniciante transição do cepticismo incorporado à opinião pública para uma postura um pouco mais crítica em relação ao governo.

Watergate instigou a fiscalização dos poderes nas modernas sociedades democráticas ao mesmo tempo que contribuiu para a mentalidade midiática da manutenção das engrenagens do poder político através de um olhar especializadamente mais crítico.

Imprensa Watchdog na actualidade

Muito tempo se passou deste o escândalo de Watergate, a imprensa broadcasting assistiu à ascensão dos novos mídias e de uma nova forma de se comunicar. Se antes, o estudo do jornalismo se baseava nas teorias da comunicação de massa, da relação do emissor para várias receptores, do Quarto Poder e da Imprensa Watchdog. Hoje, prioriza-se o conhecimento em relação a teoria das redes e das redes sociais, da extinção ou não do jornal impresso e da continuidade da profissão jornalística.

Pode parecer retrógrado abordar a temática da imprensa Watchdog em um momento em que as novas tecnologias dominam definitivamente a realidade midiática. Porém, justamente por se tratar de uma época com tantas mudanças nos paradigmas do jornalismo, é que a Imprensa Watchdog precisa fortalecer as raízes e os princípios primordiais da profissão.

De nada adianta a evolução tecnológica e da forma de se comunicar, se a força motriz do jornalismo está deturpada. O pensamento da actualidade, quanto à comunicação, está tão focado nas novidades e nas transformações vividas, que os profissionais e estudiosos esqueceram de enfatizar a importância do jornalismo para a sociedade e para si próprios.

De acordo com Marshall (2007), foi a linguagem jornalística, uma das principais ferramentas intelectuais que sustentaram a dinâmica e a lógica da sociedade contemporânea. Para o autor, "sem o jornalismo, a sociedade da modernidade não conseguiria estabelecer os princípios do nacionalismo, das identidades culturais, das fronteiras estéticas, da massa crítica, da formação da chamada opinião pública e dos signos da sociedade da informação".

A partir do momento em que todos os profissionais da comunicação começarem a compreender o vital papel do jornalismo na manutenção da democracia e do respeito aos direitos do cidadão, não haverá tecnologia ou forma de interacção capaz de substituir o seu ofício.

Quanto mais especializada e correcta for a actuação do jornalista, maior a sua importância na esfera global. O temor e o anseio pela extinção do jornalismo se dá justamente pelo enfraquecimento dos princípios da profissão e não somente pela nova ciber-mediação. Se a jornalismo se mantiver forte e activo, o seu futuro estará garantido.

A visão romanceada da Imprensa Watchdog representa o que há de melhor no jornalismo, devendo ser um guia de cabeceira de todo e qualquer profissional. O poder midiático focado no bem-estar social é a maior máquina de mudança social existente. Basta observar que as primeiras medidas tomadas pelos regimes autoritários são: a censura e a restrição da liberdade de expressão.

Da mesma forma que é impossível observar a destituição da relação cão-homem, é fundamental demonstrar que a sociedade e a Imprensa Watchdog andam sempre de mãos dadas. Como já dizia Che Guevara: "Sonha e serás livre de espírito… luta e serás livre na vida!"

Referências Bibliográficas

BONETTI, Marco A. C. Complexidades da relação entre o poder da imprensa e o segredo [Online] Disponível em http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/resumos/R0937-1.pdf Publicada em: 07/12/2005. Acesso em: 13.12.2010

BURGH, Hugo de. Jornalismo Investigativo. Contexto e Prática. São Paulo: Editora Roca, 2008.

KARAM, Francisco. Jornalismo, Ética e Liberdade. São Paulo: Summus, 1997

KOVACH, Bill & ROSENSTIEL, Tom. Os Elementos do Jornalismo. São Paulo: Geração Editorial, 2003

MARSHALL, Leandro. A estética da mercadoria jornalística. [Online] Disponível em http://www.bocc.ubi.pt/pag/marshall-leandro-estetica-mercadoria-jornalistica.pdfPublicada em: 2007. Acesso em: 15.12.2010

MESQUITA, Mário. O quarto equívoco: o poder dos media na sociedade contemporânea. Coimbra: Minerva Coimbra, 2006.

RODRIGUES, Cunha. Comunicar e Julgar. Coimbra: Minerva Coimbra, 1999.

SEQUEIRA, Cleofe M. de. Jornalismo Investigativo. O fato por trás da notícia. São Paulo: Summus, 2005.

TRAQUINA, Nelson. O que é o Jornalismo. Lisboa: Quimera, 2007

fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=633DAC001

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